2025 foi um ano prolífico para Real GUNS. Depois de lançar três EPs — Laranja, Limão e Cara Podre —, o rapper fechou a temporada com o lançamento de um álbum a solo, Son of Gun (SOG). Com uma sonoridade mais assente em samples e a crueza de sempre, o MC reporta-nos a realidade ao seu redor, narrando com detalhe o que a sua lente clínica capta.
Na entrevista ao Rimas e Batidas, aprofundámos o conhecimento sobre o processo criativo que nos trouxe até este disco, o seu conceito, o seu propósito e o peso extra que o rap pode ganhar se vier carregado com mensagem. Para Real GUNS, a verdadeira arma é a palavra — e ele é, definitivamente, um dos que a emprega melhor.
Gostava de começar por te perguntar sobre a capa deste álbum, que é muito impactante. Qual é o conceito e a ideia por trás dela?
Este projeto é bastante focado em escolhas, as escolhas que tivemos de fazer derivadas do sítio onde crescemos. A morte e a prisão são consequências que podem resultar de algumas dessas escolhas. Utilizei a imagem de um jovem negro que está preso para representar uma dessas consequências — a prisão. Muitos jovens de sítios como aqueles de onde eu venho acabam por passar pela prisão ou estão presos neste momento. Infelizmente é a nossa realidade. O projeto aborda isso, aborda as escolhas que fazemos e com as quais temos de lidar.
E o título, Son of Gun, é um trocadilho com Son of God?
Não é bem por aí. Imagina, eu sou GUNS, que significa Guerreiros Unidos na Rua ou Gs Unidos Na Street. Ou seja, para mim, ser Son of Gun é ser filho de um guerreiro. É mais isso.
O teu rap carrega sempre uma mensagem forte. Aquilo que cantas é mais biográfico ou documental?
Os dois. Falo de mim, falo do que se passa à minha volta, dos meus amigos, do que já vivi com eles ou sozinho, e também de cenas gerais da sociedade. Quando faço música, gosto de falar de mim, mas também gosto de abordar temas daquilo que se passa à minha volta.
Sentes que há espaço para rap com mensagem no panorama atual? Consideras que o público, principalmente os mais jovens, está receptivo a rap com mais mensagem?
Quando os jovens querem, eles ouvem. Hoje em dia, é verdade que o foco é mais a vibe, mas quando se interessam, param para sentir e entender. Não acho que seja tanto pela idade, é mais pelo querer ou não querer.
Este álbum tem uma sonoridade menos focada no drill, com outro tipo de samples e estética nos beats. Para ti, a questão do drill é mais uma questão de estética dos instrumentais? A verdade é que sempre cantaste rap consciente mesmo nesses beats… É limitativo seres colocado nessa caixa?
Não me considero driller, nunca vivi essas cenas de driller, só gosto da sonoridade dos beats e, por isso, comecei a cantar neles. A minha base, quando comecei a rimar, é o boom bap e aquele feeling mais old school. Mas também acho que tens que te ir adaptando aos tempos e às coisas novas que vão aparecendo. É tudo hip hop. Muitas vezes o drill também é associado à violência e é visto como música de “vândalos”. Mas a verdade é que a violência sempre existiu, existe desde antes do drill. Os rapazes que estão a cantar drill estão só a falar sobre a realidade deles, sobre aquilo que vivem, por mais macabra que essa realidade possa ser. Por isso, também acho isso injusto. É arte.
E como foi o processo de gravação deste álbum? Ele surge aqui na cauda de outros três lançamentos em 2025. Como é que sabes que já terminou o processo de um projeto e entraste no processo de gravação de outro?
Normalmente, eu meto na minha cabeça que quero lançar uma cena e lanço. Foi assim com os EPs que lancei em 2025. Queria lançar algo, gravei, juntei os sons e pus cá fora. Se eu meter uma ideia na cabeça, ou se me surgir uma ideia, eu começo logo a estruturar algo maior, a escrever. Mas também posso estar no estúdio, surgir um beat que me puxa, eu gravo o som e ele não está a ser pensado necessariamente para nenhum projeto. Mais tarde, pode fazer sentido acrescentá-lo, ya, mas na altura não tinha isso em mente. No caso deste álbum, já sabia perfeitamente a mensagem que queria transmitir e tinha já em mente como o estruturar. E ele mistura algumas ideias antigas e novas, porque já tinha alguns sons gravados que encaixavam naquilo que queria que fosse o projeto, e como fazia sentido, decidi colocá-los no álbum. Também pode acontecer eu gravar um som, não estar ainda a soar exatamente como eu quero, e estar a gravar um projeto e eu ir reativar a ideia e fechá-lo.
Com quem trabalhaste na produção?
Trabalhei com o Gringo, que fez a maioria das gravações e pós-produção, o MYQUE [anteriormente conhecido por MIKELPOTTER], o Tom Frakin’ Sawyer, o Duda, entre outros. O Félix também fez pós-produção.
E as participações? Como foi feita a curadoria? Houve alguma que tenha acabado por ficar de fora?
Inicialmente, este álbum estava um bocado diferente. Comecei por gravar 6 sons que foram o início da gravação do Son of Gun, mas acabou por não ficar nenhum no álbum. Falei com os produtores para fazerem as cenas mais com a estética que tinha em mente, dei o toque ao Tom, que sinto que sempre percebeu bem a visão que eu tinha para o álbum, e ya, começámos a trabalhar de novo na cena. Os primeiros sons que eu gravei tinham participações — tinha um som com o Benny Broker, um som com a JÜRA e com o L-ALI, e também um com o Né Jah. Deixei esses sons todos de lado e comecei tudo de novo. Acrescentei o Tom e a Mar porque achei que fazia sentido. Para este projeto final, não achei que fizessem sentido muitas participações. Quis levar as pessoas numa viagem mais pessoal, uma cena mais de reportagem em que eu sou o narrador. Agora em janeiro vou lançar o SOG Volume 2 e já devemos ter essas participações, vai ter uma abordagem mais coletiva. O primeiro é, se calhar, mais a minha visão; no Volume 2 vou trazer mais visões. Aqui trouxe um jovem que nasceu em Portugal e está a andar sozinho. Depois trago esse mesmo jovem, mas a andar em grupo. Então faz mais sentido guardar as participações para aí.
E que estética era essa que procuravas e que te fez recomeçar todo o projeto?
Queria uma cena assim inspirada no The Alchemist, Conductor Williams, DJ Premier… Uma cena mais old school, com soul, com jazz, com samples. No segundo volume a sonoridade vai ser mais livre, apesar de manter um pouco a linha do primeiro.
Deste-nos nomes bastantes diferentes nessa lista de colaborações O que te puxa a colaborar com outros rappers?
A escrita. A forma como eles pensam, escrevem e todo o universo que eles criam à sua volta. Tenho que curtir da cena que eles dizem.
E quanto ao lançamento? É fácil saber quando lançar? Como gravas bastante, como é que defines esse momento de lançar?
Durante muito tempo da minha vida, podia estar a fazer rap e não fiz. E muitas coisas que eu falo vêm dessa altura da minha vida. Há muitas coisas que se calhar já devia ter dito há 20 anos atrás, mas não disse ainda. Então, agora que estou a fazer música, é altura de deitar tudo para fora e continuar sempre a bulir. Entre 2023 e 2024 gravei mesmo bué música, por isso tenho aí muitas cenas para lançar nos próximos tempos.
Para que isso aconteça, tem sido importante a estrutura que tens à tua volta neste momento?
É sempre importante ter aquela ajuda estratégica porque é impossível eu também estar sempre disponível para tudo e perceber de tudo. É mais fácil ficares focado na música e teres pessoas que estão focadas a levar o teu produto para todo o lado. Posso ficar mais focado em escrever, criar conceitos e essa parte criativa.
E agora com disco cá fora e mais música na calha, onde é que te vamos poder ver? Algum show já marcado?
Vou fazer um evento para apresentar o projeto. Ainda não pensei muito sobre como é que vai ser apresentado, mas vai acontecer. Também vou ter merch que o people vai poder comprar. Isto vai acontecer já com os dois projetos na rua, quero apresentar o conceito todo, tudo o que criámos, e acho que as pessoas vão poder perceber melhor os dois projetos e a maneira como estão ligados.
Mais alguma dica que queiras adiantar?
Curtia também falar do apoio que a Son of a Gun nos está a dar. Conhecemo-nos num evento, trocámos impressões e, quando lhes falei deste meu projeto e do nome, eles curtiram logo bué a cena. Estão a ajudar a concretizar a visão de uma forma mais abrangente, trazendo também a cena da roupa.