RBTV: Se Toda a Gente Pode Ser Tudo, então todos podem escutar “Espelho” de NBC em língua gestual


 

[REPORTAGEM] Catarina Craveiro [IMAGEM] Marcelo Neto [EDIÇÃO] Rafael Correia [FOTO] Direitos Reservados

 

Timóteo Tiny Santos, músico há 20 anos, está à frente de uma pequena plateia, de olhos fechados, totalmente embrenhado nas notas que vai encaixando em cima do som do piano de cauda que o acompanha. A seu lado está uma rapariga cuja presença na linha da frente foge à normalidade, não é cantora nem toca nenhum instrumento. Sandra, tradutora de língua gestual, está a tentar acompanhar a letra com gestos apressados. Na plateia uma senhora tenta imitá-la, apesar de não conseguir ouvir nem uma nota proferida por NBC. Canta por gestos, com a felicidade de quem acaba de nascer para a música.

Estamos em Belém, na linha do horizonte cai um final de tarde perfeito de Outono e há um vai-vem de famílias a aproveitar o pouco que resta do fim-de-semana. Dentro do Espaço Espelho d’Água, à beira do Tejo, começam a chegar os primeiros convidados. O novo videoclipe de NBC está prestes a ser relançado mas não vemos o habitual público jovem, suburbano e descontraído que é a cara deste tipo de eventos. Pela faixa etária das pessoas que aguardam pelo início da palestra enquanto vão ocupando o tempo a avaliar as fotografias que João Tamura tirou durante o making of do vídeo poderíamos estar perfeitamente a aguardar o início da actuação de uma ópera. Então como surge esta ligação inesperada entre dois mundos aparentemente tão distintos? Através do terceiro single do álbum Toda a Gente Pode Ser Tudo, com estreia marcada para o próximo ano. Nele há NBC, voz imponente, em cima de um beat de Slow J e acompanhado pela ginga de Sir Scratch. O avanço primeiro saiu há cerca de um mês, mas agora chegou a vez de o relançar e de o tornar no primeiro vídeo de hip hop/soul interpretado para língua gestual.

O novo vídeo (ou a adição ao novo vídeo) de NBC é um pequeno grande passo para a comunidade surda e a Associação Portuguesa de Surdos (APS) quis estar presente neste marco. Experimentem ver um qualquer vídeo no YouTube sem som, observando as imagens a dançar no vazio, acompanhadas de um silêncio que perturba. É esta a normalidade de um deficiente auditivo: viver a vida sem banda sonora. Num mundo onde a música nos acompanha no carro, no supermercado, no café, no trabalho; onde a música é o combustível para unir multidões; onde a música se envolve nos momentos-chave da nossa vida; e até num mundo onde a música é o mote para paixões platónicas que deixam adolescentes à beira da histeria, a simples ideia de viver sem música é um cenário inimaginável. A língua gestual tem a capacidade de fazer a ponte comunicacional entre pessoas com deficiência auditiva mas a música ainda se imiscui de tentar chegar a este público.

Tornar esta música acessível a todas as pessoas que não a conseguem ouvir foi um passo tão simples que é impossível não estranharmos ninguém o ter feito antes. Ao lado do vídeo original, Sandra figura num quadrado branco, atarefada em traduções. Esta iniciativa “tem um impacto fabuloso” na comunidade surda, garante a própria ao Rimas e Batidas. “Nós já sabemos que a sociedade cria barreiras, eles têm a barreira do som” e esta é uma forma de os incluir na normalidade de quem consegue escutar. “Eles vão tentando sentir a música, nós cantamos para nós, eles imitam os gestos”, prossegue a tradutora, é a forma de cantarem. A inclusão é mesmo a palavra de ordem e NBC pretende “dar espaço para que outras pessoas existam” até porque “o rap às vezes é muito confinado a um espaço, a uma coisa”, conclui o rapper.

O rapper acompanhou o nascimento do hip hop em Portugal e tem-se mantido activo ao longo das últimas duas décadas, sendo que neste novo álbum parece ter alcançado uma maturidade que o coloca no ponto alto da sua carreira. Com tudo isto, é tempo de ensinar aos mais novos o que teve que aprender sozinho. O artista natural de São Tomé e Príncipe sublinha várias vezes a importância de sermos autodidactas. E se toda a gente pode ser tudo, hoje toda a gente pode ouvir tudo.