Raül Refree: “Para um estilo sobreviver é muito importante que tenhas os puristas e os vanguardistas”

[TEXTO] Pedro João Santos [ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Raül Refree foi o grande conspirador no último golpe de estado no flamenco — como quem diz, a operação Rosalía. Foi ao lado do produtor e compositor de Barcelona que a catalã desenhou Los Ángeles, o seu descarnado e desolador álbum de estreia. Se hoje os holofotes estão na sua experimentação vanguardista, o foco dessa primeira parceria com Refree era o limite da tradição: o binário da voz e da guitarra sublimado para soar num segundo agreste, logo de seguida redentor. Uma descrição que serve igualmente para o fado, a que Refree agora se lança, de mão dada com a fadista Lina.

No vídeo que apresenta a colaboração, o céu e o rio banham docas e gruas em tons de púrpura. Afinal, o fado, instalado desde a sua chegada a Portugal nas pontas industriais de Lisboa, sempre procurou a beleza na tristeza, o poético na vida marginal. Mas como será a tradição nacional vista por um forasteiro? A resposta sai a 17 de Janeiro, no disco Lina_Raül Refree, e é gutural. Descura a guitarra em prol de teclas que edificam uma “catedral” sónica — uma acomodação severa para a voz madura de Lina, nascida na Alemanha e criada em Trás-os-Montes, que canaliza para este trabalho a sua devoção por Amália (o primeiro tema é uma versão de “Gaivota”).

O Rimas e Batidas conversou com o barcelonês para descobrir os segredos desta união artística, que vem a público numa digressão nacional que começa em Lisboa, esta sexta-feira (22), no Teatro Municipal São Luiz. É uma conversa que atravessa ainda a sua “fraqueza” pela voz, ou o seu trabalho iminente com Lee Ranaldo dos Sonic Youth. “Depois há outras [coisas] que são mais difíceis de explicar, que surgem no momento em que estou sentado no estúdio e tenho a Lina a cantar o fado”, conta-nos. “É difícil explicar porque é uma reacção muito epidérmica que tenho”.



Antes deste projecto qual era o teu conhecimento de música portuguesa?

Bem, a verdade é que tinha ouvido fado, e tinha inclusive tocado uma vez fado com a Sílvia Pérez Cruz, mas nunca tinha feito uma imersão como a que fiz com este projecto. Nunca me tinha focado neste estilo e obviamente que antes deste projecto os meus conhecimentos eram pequenos. Creio que agora são um pouco maiores, mas tampouco sou um grande conhecedor de fado. Gosto muito e parece muito emocionante; por isso é que quis trabalhar neste projecto, mas creio que é trabalhado a partir de um certo desconhecimento, o que me permitiu sentir mais livre. 

O que é que diria que encontrou de diferente, particular e único na voz da Lina?

Eu gosto muito que a Lina tenha uma capacidade vocal muito forte, que seguramente vem de cantar sem nenhuma amplificação nas casas de fado. É uma maneira de cantar que projecta muito para fora e que tem também uma parte de canto lírico, de música clássica. Isso foi algo que gostei muito desde o primeiro momento, esta maneira de projectar a voz. Creio que tem um timbre muito bonito e [a voz] é capaz de emocionar tanto nos momentos mais fortes como nos momentos mais calmos. 

Frequentou casas de fado, nomeadamente o Clube de Fado, em Lisboa. Há todo um lado de ritual na casa de fados. Encontrou semelhanças com o flamenco, por exemplo?

Sim, há muitas semelhanças com o flamenco. A Carmo Cruz, que foi a pessoa que começou este projecto, viu que eu podia fazer uma revisão do fado porque eu tinha feito o mesmo com o flamenco. É certo que tanto o flamenco como o fado, como outras músicas tradicionais, têm algo que passou de geração em geração e que sobrevive porque é muito emocionante. As melodias e as letras são populares e tocam-nos numa parte muito interna e nossa. E às vezes o trabalho que eu faço como estas músicas tradicionais/populares é trazer a energia original, a emoção original, porque acredito que acaba a emocionar-nos a todos quando escutamos. Por exemplo: são estilos folclóricos que têm pessoas que procuram preservar os valores, muito puristas; também são tocados em lugares que, tradicionalmente, eram lugares de reunião e agora acabam a ser centros para turistas. E estou de acordo com toda a gente que quer manter estas músicas como eram originalmente, mas também digo, e sempre o disse aos puristas do flamenco, que para um estilo sobreviver é muito importante que tenhas os dois extremos: ter as pessoas que tentam que as coisas não mudem e as pessoas que tentem levar para a vanguarda e fazê-las contemporâneas. Acredito que só quando existem os dois extremos é que um estilo consegue sobrevive. 

Isso é mesmo verdade. Quando estava no Clube do Fado a ouvir a Lina a cantar, já imaginava a abordagem que depois veio a adoptar com todos os instrumentos electrónicos e os teclados? Foi logo aí que nasceu essa ideia?

Não. Eu fui convidado para vir a Lisboa pela Carmo/Uguru. Assim que disse que sim ao projecto, eles convidaram-me a conhecer melhor o fado e a ver a Lina cantar ao vivo. Bom, quando vi, gostei muito e foi muito emocionante, mas não sabia a direcção que iria seguir no disco até ao momento em que nos juntámos no estúdio e começámos a tocar juntos. Nesse momento, eu pensei que seria um disco de guitarras e cordas, mas, quando comecei a tocar, não estava a gostar e cada vez que me sentava ao piano e aos teclados tinha a sensação interior que me estava a emocionar muito mais e que era esse o caminho. Não foi uma coisa pensada, mas foi uma coisa que encontrei na caminhada. 

De acordo com a Carmo Cruz, com quem conversei, a própria directora do Museu do Fado, que é uma instituição que, lá está, preserva a memória desta cultura, disse-lhe que adorou o disco que fez com a Lina. Que reacções é que tem tido do lado mais tradicional e purista desta cultura?

Não recebi nenhum feedback das pessoas mais tradicionais do fado. Mas posso contar-te que no mundo do flamenco eu sou uma figura que alguns amam e outros não gostam muito. Entendo que possa ser criticado porque gosto de reinterpretar a música, gosto de fazer uma releitura do tradicional e de levá-lo ao lado contemporâneo. É algo que gosto muito, mas entendo que haja gente que não goste tanto. Eu não tive nenhum feedback das pessoas mais puristas do fado, e vamos ver o que dizem. A ti disseram-te algo?

Eu não falei com ninguém do lado mais tradicional, mas eu, que amo o lado mais tradicional, adorei este disco. Acho que é um disco absolutamente incrível. Eu cheguei a conversar, em 1990, quase há 30 anos, com a Amália Rodrigues, que era e continua a ser uma enorme referência para mim. O Raul foi investigar a Amália depois disto? Entretanto já mergulhou mais na obra dela?

Sim. No primeiro dia que me juntei com a Lina no estúdio é que dei conta que havia encontrado um caminho que podia ser interessante. Eu recordo-me que disse à Lina, “temos que encontrar um conceito”. Não era suficiente tocar fados que nós gostávamos. Tínhamos que encontrar um conceito. E à Lina ocorreu-lhe que podíamos ir buscar fados antigos, clássicos, que a Amália tinha cantado. Esse foi o fio-condutor deste disco. A partir do momento em que conheci o conceito e comecei a investigar, o meu foco foi ouvir a Amália — porque tudo parte dela. Foi a voz de Portugal, a voz do fado e quem soube pôr a emoção máxima neste canto tradicional, portanto era imprescindível investigar sobre a sua figura, não só musicalmente, mas também a sua vida. Por isso também creio que o disco se encerra com a Amália na voz porque é uma letra muito bonita sobre o que significa a Amália em Portugal. 

Uma das coisas que mais me toca no seu trabalho de produção neste disco da Lina é exactamente o cuidado com a voz. A voz dela está absolutamente sublime neste disco. Como é que se chegou a esta arquitectura da voz? 

Tive sempre uma fraqueza pessoal pela voz. Creio que apesar de existirem muitos músicos e instrumentistas que se queixam da importância que se dá à voz na música, é uma realidade que não podes negar. A voz é algo que todos temos, quase toda a gente se atreve a cantar, mesmo que não cante bem, e eu acho que o timbre é o que mais nos emociona internamente. Isto foi uma coisa que sempre tive clara desde que me dedico à música que é: se há voz, é importante tratá-la e encontrar a melhor maneira de emocionar o máximo possível, porque esse será o veículo para fazê-lo. Não sei explicar, e perguntam-me muitas vezes nas entrevistas, quais são os mecanismos com que trabalho a voz. Há alguns que obviamente posso contar, como a eleição do microfone ou o espaço onde gravo as vozes. Depois há outras que são mais difíceis de explicar, que surgem no momento em que estou sentado no estúdio e tenho a Lina a cantar o fado. É difícil explicar porque é uma reacção muito epidérmica que tenho. Não se explica. 

Antes desta estreia em Portugal, já houve vários concertos no estrangeiro, nomeadamente em Espanha. Como é que tem corrido esta experiência de palco?

Como tu sabes, o disco vai sair em Janeiro e queríamos que fosse um projecto muito cuidado ao nível cenográfico. Estamos muito orgulhosos do disco que fizemos e queríamos que ao vivo as pessoas tivessem a mesma experiência. Andamos a ensaiar a parte cénica e musical e creio que pouco a pouco estamos a conseguir a emoção que procurávamos. Nestes poucos concertos que fizemos até agora, muitas pessoas mandaram mensagem a contar a experiência que tiveram e a emoção que sentiram.

Podemos falar neste momento a nível internacional de uma espécie de mudança de paradigma. O sucesso da Rosalía, que bem conhece, é uma prova disso. De repente, num plano tradicional, o inglês já não é a única língua que pode garantir o sucesso de um artista. Tendo isso em conta, acredita que a Lina pode chegar até onde no plano internacional?

É difícil diagnosticar este tipo de coisa. A Rosalía é uma artista impressionante com uma visão de como mover a música a nível internacional, mas há realmente uma mudança de paradigma: as músicas latinas estão a ficar com uma força muito maior em países que falam inglês. E isso está a ser muito importante porque anteriormente um artista espanhol podia tocar na Colômbia ou podia tocar no Chile, mas era muito difícil tocar em Inglaterra ou nos Estados Unidos, por exemplo. Imagino que um artista português poderia tocar no Brasil, mas seria muito complicado tocar nestes países anglo-saxónicos. Creio que agora há esta mudança de paradigma e penso que vem muito das músicas tradicionais dos países latino-americanos e sul-americanos. Temos raízes musicais muito profundas e creio que há gente que está a renová-las e a torná-las contemporâneas, e isso tem uma força: por um lado dos anos de tradição e pelo outro pela modernidade. E essa mescla é o que torna isso especial. E que as pessoas de outros países que não falam os nossos idiomas se interessem. 

Tem estado em Nova Iorque a trabalhar de novo com Lee Ranaldo. Que outros trabalhos tem em mãos e quais são os seus planos pessoais para o futuro imediato?

O que tenho com a Lina é fundamental para mim [neste momento]. Com o Lee Ranaldo fui criando uma relação nos últimos anos em que estamos a investigar muito a música experimental. E no final de Fevereiro vai sair um disco que fizemos juntos. [Mas] o que mais me entusiasma e onde me sinto mais confortável é o trabalho de estúdio.


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