RAP Talks encerra com as memórias de Mundo Segundo e José Mariño

[ENTREVISTA/FOTOS] Catarina Craveiro

 

A dividir o mesmo sofá estão mais dois nomes incontornáveis do hip hop português: Mundo Segundo e José Mariño, ambos habituados a lidar com microfones mas em contextos diferentes. Partilham no histórico o mesmo empenho em levar o rap mais longe, em criar espaço no mercado para um estilo que se ia afirmando lá fora e que dava os primeiros passos cá dentro. A segunda e última sessão do RAP Talks decorre no bar O bom, o mau e o vilão, no Cais de Sodré, a repetir a casa cheia da primeira sessão mas numa versão mais intimista.

Começando pelo primeiro convidado: Mundo Segundo é MC, produtor e ex b-boy mas é também um dos membros fundadores dos Dealema, contudo, antes do primeiro contacto com o rap, com cerca de 14 anos, era apenas Edmundo Silva, o último de três irmãos. A família sempre o incentivou a não desistir da paixão pela música, apesar da dificuldade adjacente a este meio. Até aos 27 anos, há precisamente 10 anos atrás, o rapper mantinha um trabalho dito normal, das 8h às 17h, para além do seu trabalho enquanto músico porque efectivamente naquela altura não era possível viver apenas do rap. Mas nunca deixou de acreditar. Na escola, os cadernos das diferentes disciplinas rapidamente se transformavam em cadernos de rimas e apenas uma professora – a de Comunicação Social – acreditou que tamanha dedicação poderia dar frutos. Para Mundo “acreditar faz-te tornar na pessoa que tu és, acreditar torna-te na muralha da China, ficas menos vulnerável”.

 

Sem título

 

O rapper tem recebido vários convites para dar palestras em escolas e aponta as famílias como os elementos mais importantes na educação de uma criança. Todavia não excluí a importância do rap na mesma. Como lhe faltou uma figura paterna na sua adolescência, viu em rappers que admirava essa pessoa: “O Guru foi meu pai, o Rakim foi meu pai, KRS-One foi meu pai, os Wu-Tang Clan foram meus pais, o Nas foi meu pai”. Da plateia perguntam-lhe se o hip hop não lhe deu também alguma mãe;  Lauren Hill, Queen Latifah, Bahamadia chegam como resposta. Contudo, para o rapper, hoje em dia já não é tão fácil encontrar figuras paternais no hip hop, ídolos não são pais e é mais difícil extrair bons conselhos.

Como mediadora desta segunda sessão, Makeda Cardiff pergunta a Mundo Segundo o que ainda lhe falta concretizar enquanto músico. Este explica que “é uma lista enorme”, “eu ainda tenho muitos sonhos, ainda estou a meio da minha viagem, quero conhecer novos universos musicais e trazê-los para dentro do hip hop”, prossegue. Ter uma barbearia é um sonho de miúdo e também está na wish list. Num futuro em aberto, no qual não gosta de criar projecções, a única certeza é a de nunca vir a ser daquelas pessoas que “já foram dos hip hops”, os que pousaram os caps, cresceram e mudaram de gostos.

 

RAP Talks

 

Como segundo interveniente José Mariño, antigo director da Antena 3, locutor de rádio, apresentador e figura maior na disseminação do hip hop, fala da precocidade do seu contacto com este meio. Fazer rádio era a necessidade de mostrar coisas diferentes, o rap não era explorado e no lado dos ouvintes havia muita gente interessada em saber mais, em ouvir mais. Nos anos 1990 o acesso à música era muito difícil e a rádio era o meio rei. Mariño conseguiu assim reunir uma comunidade à volta dos seus programas e, consequentemente, comandou projectos que se tornaram um culto na cultura hip hop. Primeiro à frente do programa Novo Rap Jovem, na Rádio Energia, depois no programa Repto, na Antena 3 e mais tarde enquanto apresentador do Beatbox, na SIC Radical.

As coisas foram crescendo, chegou o Rapública em 1994 – a primeira compilação de rap em Portugal que contava com os rappers mais sonantes como Black Company, Boss AC, Zona Dread  – que marcou o momento. “Apesar de já ter nascido há mais tempo foi ali que o hip hop  começou a ganhar corpo”, relata o locutor, “com projectos cada vez mais sólidos”. Os artistas começaram a ganhar outra noção e a apresentar trabalhos mais consistentes e dinâmicos, o meio tornou-se mais exigente. Outro momento que marcou José Mariño foi o episódio com Sam The Kid, relatado pelo rapper na faixa Retrospectiva de um Amor Profundo, em que conta a primeira vez que se ouviu na antena 3. Um dos maiores estimulos para prosseguir com o programa era o incentivo que conseguia dar aos jovens que tentavam singrar, muitas vezes com poucas condições, raras vezes com pouco talento mas sempre com muita vontade, com muita alma. Repto era um programa de duas horas que passava ao fim-de-semana e isso “era o suficiente para haver uma comunidade que o seguia”.

Findado este ciclo de conferências, fica a certeza de que está aqui semeado um conceito que tem espaço para singrar. A história do hip hop em Portugal já obriga a puxar pela memória e o público presente, tanto no Mercado da Ribeira, como n’O Bom, o mau e o vilão, deixou a certeza de que se há histórias que precisam de ser partilhadas, há igualmente ouvidos sedentos de as conhecerem.