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Fotografia: Direitos Reservados

All My Heroes Are Dead, o mais recente álbum do rapper americano, saiu em Abril deste ano.

R.A. The Rugged Man: “Vamos ter eleições com dois dos homens brancos mais idiotas, ignorantes e corruptos”

Fotografia: Direitos Reservados

Já foi um talentoso newcomer da golden era, cobiçado por diversas editoras, viu os mesmos contratos serem cancelados devido à sua postura insubordinada e sem papas na língua, editou os seus próprios 12″ e tornou-se uma figura destacada do hip hop independente — ele que colocou música numa compilação da WWE ou na banda sonora do Tony Hawk’s Underground –, tendo erguido uma carreira que se estende já por três décadas.

R.A. The Rugged Man é, para muitos, uma figura incontornável da história do rap undergound americano. Polémico mas com um grande espírito colaborativo (cruzou-se com nomes como Ghostface Killah, Chuck D, Immortal Technique, Masta Killa, Kool G Rap, Onyx e Atmosphere — e estamos só a falar dos créditos do sucessor de Legends Never Die) e é autor de versos absolutamente icónicos como o de “Uncommon Valor“.

Nesta entrevista com o ReB, o veterano abre o jogo sobre o actual estado do hip hop e das forças que o controlam, fala da sua postura imprudente, das consequências que isso trouxe para o seu percurso, da relação com os seus fãs e explica porque é que All My Heroes Are Dead, editado pela Nature Sounds, é o seu melhor trabalho.



Disseste numa entrevista em Fevereiro que AMHAD ia ser o teu projecto mais aclamado. Como foi a recepção? 

É o meu melhor álbum e é, definitivamente, o meu projecto de maior sucesso, [que será] suportado por uma tour mundial quando o mundo voltar ao normal. A recepção está a ser incrível, as pessoas estão a adorá-lo.

O COVID influenciou-o de alguma forma?

O COVID não consegue parar a música. O governo pode obrigar-nos a escondermo-nos nas nossas casas mas não pode parar a música. Não importa o que está a acontecer na vida, nem qual é a crise que estamos a viver, a música permanecerá. Não temos medo do coronavírus.

AMHAD traz lendas do hip hop como Masta Killa, Kool G Rap, Ghostface Killah, Immortal Technique ou DJ Jazzy Jeff. Esta é apenas uma amostra dos artistas com quem colaboraste nas últimas décadas. Quais são as diferenças entre trabalhar com esses pesos pesados no passado e trabalhar com eles agora?

A principal diferença é que na altura não tínhamos Internet. Se quisesses gravar alguma coisa com alguém, precisavas de te reunir com essa pessoa no estúdio. Às vezes querias gravar um disco com alguém e não dava, porque estavas em tour, ou porque ele estava em tour, ou porque estavam em cidades diferentes. Mas agora, com a Internet, podes dizer, “hey, quando podes ir para o estúdio e trabalhar nesta música?”. Não precisamos de estar sempre juntos num estúdio ao mesmo tempo, como antigamente.

DIsseste sobre este álbum: “So many of the greats are gone, and the legends who made it out alive are cast aside. Society left our heroes and their culture for dead.  We have to dig that greatness out of its grave, and bring it back with an angry vengeance“. Quem está a ser posto de lado?

Eu acho que todos os pioneiros, e a própria cultura, estão a ser postos de lado. Actualmente, tens muitas pessoas desligadas do hip hop que se auto-denominam como músicos de hip hop, e que não conseguem actuar ao mesmo nível dos mestres, mas que arranjam concertos mais rapidamente. O hip hop agora, ao contrário dos 90s, é comercializado para as massas sem consciência crítica. Não é hip hop, é uma versão corporativa e diluída do nosso som. O que as crianças andam a ouvir é o produto que uma máquina criou, não o que as pessoas criaram.

Mas reconheces alguma nova cena de hip hop interessante?

Reconheço novo talento. Eu meto-me com muitos jovens MCs talentosos, mas o mercado geralmente não os comercializa. De vez em quando apoiam um novo MC ou letrista se ele sacar um co-sign de alguém rico ou influente. Mas olha para os melhores projectos que estão a ser lançados agora, principalmente para os OGs que respeitam as lendas. El-P e Killer Mike (Run The Jewels) lançaram agora o RTJ4 e as pessoas estão a adorar. Eles são super OGs que cresceram com a cultura. Ou o Black Thought, que quando pega num microfone está à frente de toda a gente. Essa música, inovadora e lírica ainda é feita. Se fores ao Instagram deles e os vires a actuar, dizes “goddamn!” Eles são melhores que 90% dos músicos com mais destaque do momento.

Mas, dito isto, acho que o hip hop corporativo não está a dar espaço a esta nova geração para brilhar. Se alguém estiver a “rappar” melhor que o Black Thought ou o Casual, não lhe dão destaque. Muitos desses putos acabam por preferir ganhar dinheiro, então simplificam a música e vendem-na. Essa música é criada pelas corporações, não pela cultura.

Na tua opinião, quem chama a atenção não são os melhores MCs, mas aqueles que comunicam mais facilmente a sua música para o grande público?

Existem MCs capazes e interessantes que se destacam, mas olha para os artistas com mais nome, como a Cardi B. Para convivermos de perto com esse alto nível temos que voltar ao underground, e isso não é um problema. O hip hop sempre pertenceu à rua, sempre foi underground. Não houve sempre o luxo dos 90s, quando as empresas apoiavam o hip hop e os seus rappers porque estavam a ganhar dinheiro com isso. Tinhas artistas de hip hop muito técnicos a vender 1, 2 milhões de discos. Mas, pouco tempo depois, as mesmas empresas perceberam que o que as crianças pequenas, as senhoras velhas e as restantes pessoas que não conseguem digerir letras mais elaboradas cantavam eram as partes mais simples.

É a mesma coisa com o cinema. O Martin Scorsese está a ser atacado por falar mal de filmes de super-heróis, mas todos nós sabemos que eles são a coisa mais simples de se  vender ao público. Atiras alguns super-heróis para uma tela sem qualquer narrativa e fazem-se milhões de dólares em todo o mundo. Esses filmes estão ao mesmo nível que o La Dolce Vita? Claro que não, mas esse público nem sequer sabe quem é o Fellini. São pessoas que consomem 50 filmes de super-heróis por ano e adoram. Passa-se isto com a música, com o cinema e com toda a arte. Quando as finanças se envolvem na criação artística, elas embrutecem o produto.

É por isso que adoro os 80s, porque a música estava na rua. As pessoas iam para os parques, pegavam num microfone e “rockavam” a multidão! Isso é o que o hip hop era e é. Quanto mais é manipulado pelo dinheiro, mais se afasta da sua essência.

Passa-se o mesmo em Portugal. Entre os músicos underground e os artistas do mainstream, é evidente quem tem mais dinheiro e quem tem mais valor artístico.

Olha para a política americana. Vamos ter eleições com dois dos homens brancos mais idiotas, ignorantes e corruptos. Não há mais opções porque o sistema é bipartidário. Eles têm todos os media na mão, por isso os media não promovem um terceiro candidato. Portanto, estamos presos com o Donald Trump e o Joe Biden. Se o Donald Trump perder, vamos comemorar ter um pedaço de lixo como o Joe Biden? Ou, se Joe Biden perder, ficamos presos mais quatro anos com o degredo do Donald Trump? Mas é o que eles continuam a enfiar pela goela abaixo, é o Donald Trump ou o Joe Biden, Donald Trump ou Joe Biden, e é isso o que as pessoas conhecem.

Passa-se o mesmo com a música. Quando continuas a insistir nos mesmos músicos mainstream, as pessoas vão seguir o que estão a ser forçadas a ver e a ouvir. Eles enfiam esse lodo não-artístico pelas nossas goelas e nós aceitamos. É por isso que estamos presos com o Joe Biden e o Donald Trump, e é por isso que estamos presos com artistas fracos.

Os videoclipes de AMHAD conseguem ser explosivamente criativos (“Gotta Be Dope, Legendary Loser”), mas também muito duros (“Wondering (How To Believe)”). Qual foi o teu controlo criativo, tendo em conta o teu input como produtor e realizador (Bad Biology, Damnation)?

Eu costumava escrever, produzir e realizar os meus filmes, até que aprendi que o truque é simplesmente dares-te com as pessoas certas. Se trabalhares com criativos em quem confias, dando-lhes total controlo do processo e tudo o que precisas de fazer é aparecer, a coisa funciona. Escrevi o guião do “Legendary Loser” com o Jonas Govaerts [realizador]. Ele pôs a sua visão no videoclipe, juntou todas as partes e tornou-o super apelativo.

Foi a mesma coisa com o “Gotta Be Dope”. Queríamos filmá-lo com o Jazzy Jeff, mas o COVID estragou tudo e essas gravações simplesmente não aconteceram. Esse videoclipe não era para ter apenas robôs, deveria ter outros elementos. Mas com o COVID, o Joker [realizador] decidiu lançá-lo assim. Ele escreveu-o, produziu-o, realizou-o e filmou-o. É obcecado com o seu trabalho. Mesmo não tendo todos os elementos, ele trabalhou afincadamente com o que tínhamos para conseguir o melhor vídeo possível. As pessoas estão a adorar e ele está feliz com o resultado final.



Tens planos para filmar num futuro próximo?

Não tenho planos para nada neste momento.

Claro

O meu plano era fazer este álbum, dar 200 concertos e pôr esse dinheiro de parte para as minhas filhas. Mas, na vida, se não tens um um plano B, às vezes não tens plano nenhum. Ninguém poderia prever o mundo do COVID, onde todos os nossos concertos são cancelados, todo o dinheiro é cancelado e tudo pára. Eu não estou a reclamar ou a queixar-me, todo o mundo passou por isto. Simplesmente não tenho um plano B.

A tua carreira é marcada pela tua liberdade de expressão, que te levou a alguns problemas. Mencionaste que, nos anos 90, certas editoras proibiram os seus músicos de colaborar contigo. Contudo, isto mudou na década seguinte, quanto te vimos em feats com o J-Live no Wu-Tang Meets Indie Culture, com o Hell Razah e com JMT, entre outros. Sentiste que a certa altura o blackballing terminou oficialmente?

Não, ainda acontece hoje. Mas os artistas independentes ainda trabalham comigo, como Tech N9ne, JMT, Talib Kweli, Ghostface Killah ou o Masta Killa. A Máquina não brinca com o R.A. The Rugged Man. Tentam silenciar-me sempre que podem, mas eu piso as tentativas deles.

Nos anos 90, todos os rappers que queriam ter algum tipo de respeito tinham que estar do lado das editoras, porque não havia Internet ou outras formas de divulgar música para além dos connects das editoras. Portanto, se a Máquina lhes dizia para não se meterem comigo, eles não se metiam comigo. Isso mudou nos 2000s, quando o mercado sofreu uma ruptura e ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer. As pessoas começaram a ter uma atitude de “vamos fazer o que queremos”. E é por isso que trabalham comigo agora. Alguns músicos sempre quiseram, mas só agora é que não têm chefes.

Mas o blackballing continua porque as editoras continuam com poder?

Todos os envolvidos continuam com poder, todas as peças da Máquina. Quando falas mal da CIA, do Governo ou de certas corporações, podes ser silenciado. Quem achas que faz o mundo correr? O mundo é comandado pelo Google,  YouTube e plataformas de Social Media. Achas que eles nos deixam falar mal deles livremente e da maneira que queríamos? Isso nunca vai acontecer.

O meu álbum tem as lendas de uma enorme comunidade chamada hip hop, e não houve uma única publicação mainstream a escrever sobre ele. Fomos o número 1 no iTunes em cinco países diferentes, fomos o número 4 nos Estados Unidos e o 22º álbum mais vendido da semana na Billboard, e não tivemos cobertura de uma única publicação, site de hip hop ou de música e entretenimento. E quando falo com escritores dessas publicações, todos dizem que um post sobre R.A. The Rugged Man é igual a uma avalanche de cliques. Somos um tópico viral, mas há uma Máquina que diz: “não é sobre isso que falamos”.

Todos falam sobre artistas com menos fãs e recebem menos cliques porque o blackballing é real. Essas pessoas permanecem no poder há décadas. Contudo, agora temos acesso aos fãs, e podemos lutar contra esses filhos da puta mais facilmente: os fãs apoiam-nos directamente. É assim que comemos e sobrevivemos, através dos fãs.

Foi por isso que dissseste na “All My Heroes Are Dead (The Introduction)” que “sem os fãs provavelmente estarias morto” ?

É mais do que isso. Eu passei por altos e baixos na vida, assim como os meus fãs. “Eu ia suicidar-me e depois ouvi uma letra tua que me fez parar”. Eu já ouvi isto, e outros artistas também já o ouviram porque a música salva vidas.

Fico feliz que a minha música tenha salvo a vida de alguns fãs, mas quando me dizem isto eu queria-lhes responder que também existiram noites em que quis morrer. Quando subo ao palco, ouço centenas de fãs a gritar que adoram tudo o que fiz e alguns que a minha música lhes salvou a vida. Quando me dizem isto, estão a dar-me um motivo para viver. Se eu salvar vidas, estão a salvar-me também.

Há uns anos surgiu um esboço no Instagram de um single de RA x AFRO x GZA x DJ Premier. Era real?

Não. Nunca ouvi falar sobre essa música.

Em relação ao incrível #TheRATheRuggedManShow: o teu podcast vai voltar a ver a luz do dia?

O problema é que eu não tenho uma equipa. O podcast deu muito trabalho porque tive que o editar, contratar um cameraman, alugar um estúdio, basicamente tive que fazer tudo sozinho. Eventualmente tive que parar porque me estava a tirar muito tempo e a afastar-me de fazer música. A única maneira de eu fazer um podcast agora era com um produtor que editasse, montasse, produzisse tudo e a única coisa que eu precisava de fazer era aparecer. Eu não posso fazer o podcast todo sozinho. Tenho filhas, tenho vida própria e estou a fazer música.

Fizeste tudo sozinho, como este álbum.

Sim. Eu tomei todas as decisões do álbum. Tenho colaboradores incríveis, é por isso que ele soa tão bem. Eu não tenho uma técnica de mistura tão apurada como a do Chris Conway, que é um mestre. Honestamente, se não tivesse o Chris Conway a trabalhar comigo, acho que nunca faria outro álbum.


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