Quem tem medo de Billie Eilish?

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Direitos Reservados

Há uma cena na série televisiva Addams Family em que perguntam a Wednesday por que é que ela está sempre vestida como se houvesse um funeral. Ela mantém-se estática, apática e, sem uma qualquer mudança no tom de voz, responde, “então espera”. A tenebrosidade e misticismo à volta desta personagem fizeram com que se tornasse numa das mais memoráveis dentro deste franchise, e, ao mesmo tempo, uma referência cultural para a geração digital do Twitter e do Tumblr. Há quem compare Billie Eilish a Wednesday, especialmente pela sua postura: rígida, sisuda e distante. É uma comparação válida, e cómica de algum modo, mas Billie joga dentro do seu próprio campo e lança um ataque directo ao culto das celebridades, tornando-se ao mesmo tempo numa; assume-se como uma estrela anti-pop, mas que acaba por cingir-se às manhas da indústria musical. Isto e aquilo. É ou não é. Seja como for, a verdade é que aos 17 anos, esta jovem norte-americana construiu um império em seu nome numa questão de um ano e meio: 18 milhões de seguidores no Instagram, um álbum de estreia em nº1 e um concerto já esgotado em Portugal, no MEO Arena, agendado para Setembro.

A fórmula dela não é nova. À superfície, o estilo visual assemelha-se facilmente à cena proto-punk dos anos 70, com cabelos pintados, roupas pretas e largas, olhos cansados e o dedo do meio a quebrar as restrições de um sex appeal pomposo adolescente. A música dela também segue um caminho já apresentado e facilmente diluído pelo zeitgeist: ritmos frios e aterrorizantes acompanhados por um grande e forte baixo, distorções electrónicas e um ambiente fantasmagórico. Por enquanto, nada que ainda não se tivesse ouvido em 2013 quando Lorde apareceu com Pure Heroine, e assim músicas como “Glory & Gore” ou “White Teeth Teens” servem-se como um prelúdio para as letras temperamentais de Billie. A angústia adolescente é geracional, mas o que a destaca é precisamente a maneira como coloca a voz no meio de uma produção tão pesada como vulnerável, que serve de ponte para entrar neste universo completamente antagónico ao nosso; uma coisa é certa: este universo não é apaziguador, é antes um reflexo de uma realidade ansiosa, quase claustrofóbica, que nos dá uma nova desilusão consoante o nosso crescimento. É intoxicante a canseira do quotidiano e a necessidade de explorar a sujidade do nosso subconsciente é imperativa para a arte de Billie e para a sua saúde mental. Mas vamos primeiro à música.

Em “When the Party’s Over”, um dos seus primeiros singles a tornarem-se virais, ela fala de um amor não correspondido, que a utiliza para a curte de uma só noite; “All The Good Girls Go to Hell” é uma manifestação arrojada que invoca Deus, o Diabo enquanto se regurgita na ostentação da juventude atual; “Listen Before I Go” é das mais pessoais: depressão, ansiedade e medo de alienação são temas fortes para uma rapariga que apenas faz 18 anos em Dezembro deste ano. No entanto, Billie vai aos escombros da psique juvenil e combate tudo o ela encontra – mesmo quando, por vezes, se confronta com ela mesma. When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, o álbum de estreia, é inspirado em experiências que ela teve com paralisia do sono e no quão traumatizante foram: “Já tive terrores nocturnos, terrores nocturnos mesmo muito maus. E tive paralisia do sono cinco vezes. Todos os meus sonhos são lúcidos, por isso consigo controlá-los, mas são sempre pesados. Eles têm afectado a minha vida, a maneira como eu vejo certas situações e como eu interajo com as pessoas. Mudaram-me enquanto artista também”, conta numa entrevista à Beats 1, com Zane Lowe.

Billie traça os monstros que se escondem debaixo da cama ou dentro do armário. Fruto dessa busca apresenta-se em “Bury A Friend”: a canção é claramente um dos momentos mais dinâmicos e rebuscados do disco e, com um toque à Yeezus, entra em territórios pesarosos e tenebrosos. A letra, por si só, é directa: “Today I’m thinking about the things that are deadly/ The way I’m drinkin’ you down/ Like I wanna drown, like I wanna end me”. O que por vezes são sons maquinais e uma voz completamente alterada mudam-se sem demoras para um registo mais atmosférico mas igualmente penoso e gravativo; assim conhecemos a premissa de outros temas como “You Should See Me In a Crown” e “Bad Guy”.



Há, todavia, outro lado: um mais desprotegido, cru e sincero, acompanhado maioritariamente por acordes de uma guitarra acústica ou por notas de um piano. Canções como “I Love You”, “Xanny” e “8” dão uma interpretação emocional à frieza superficialmente assimilada de Billie, e desprendem-na de qualquer associação descabida de insensatez ou insensibilidade. Ela, como qualquer adolescente, tem sentimentos e sente-os à flor da pele: a artista fala abertamente sobre as desventuras do romance juvenil, sobre sentir-se sozinha e a menos que os colegas da mesma idade, e sobre crescer na era das redes sociais. Talvez haja aí um elo de ligação robusto que a mantém conectada aos fãs que se revêm na sua música; aliás, ela fala para os que ainda não têm uma voz firme para o fazerem por si mesmos, e graças ao seu estilo e atitude irreverente, dá-lhes uma sensação de confiança e determinação. Por um lado, representa uma faceta mais ominosa de uma maneira livre e imprudente, por outro é uma companhia honesta. Independentemente da razão, Billie cria um espaço seguro para quem a segue e fá-lo tendo em consideração que ainda é uma adolescente e, tal como grande parte das pessoas que a ouve, ainda tem muito que crescer. 

É uma lição cliché, mas é importante referir que Billie é tudo menos música para agradar os pais. Numa entrevista à revista NME, a cantora diz que ainda se sente subvalorizada frequentemente pelos adultos que tentam controlar a sua direcção artística e as suas emoções: “odeio quando pessoas mais velhas me perguntam o que é que eu sei sobre o amor. Eu sei mais do que elas porque estou a vivê-lo pela primeira vez enquanto eles não o sentem há décadas. Só por ser jovem não significa que o que eu sinto é mais ou menos forte, mas é sem dúvida um sentimento diferente. Eles estão mais habituados a corações partidos, dor e querer morrer o tempo todo. Para um jovem como eu, tudo isso é novo e aterrorizante”.

Billie Eilish é um negócio de família. As canções são co-escritas e produzidas pelo irmão mais velho, Finneas, de 21 anos, que frequentemente abre os espectáculos da irmã e também tem a sua banda. A dupla grava em casa, num ambiente confortável para ambos, que não se desloca muito dos pais, Maggie Baird e Patrick O’ Connell, actores de longa data que dão aulas de representação e trabalham em teatros regionais e em narração. É bem visível que a arte sempre foi um elemento presente na educação dos dois irmãos e definiu bem o caminho profissional deles. Hoje, pai e mãe ajudam a gerir a tournée mundial da filha e tomam parte em pequenos trabalhos, desde a iluminação a conduzi-los até aos recintos. Contudo, há ainda uma distância entre eles, que, de acordo com os pais, ajuda também a ganharem alguma independência.

Com o passar do tempo, Billie interessou-se pela dança, pela equitação e posteriormente pela música. Já com Finneas, a paixão pela composição foi imediata. Os dois juntaram-se pela primeira vez quando gravaram “Ocean Eyes”, que mais tarde foi publicada na conta de SoundCloud. No Verão de 2016, Eilish assinou contrato com a Interscope e rapidamente lançou o EP Don’t Smile At Me, que conta com singles como “Bellyache” e “Idontwannabeyouanymore”. O sucesso não foi imediato, mas captou a atenção do público jovem, e a presença em plataformas como o YouTube e o Instagram foram cruciais para a lançar a uma escala mundial.

Nos dias de hoje, a questão principal é a que se faz a grande parte destas estrelas que tiveram um impacto meteórico e súbito: manter-se-á no topo daqui para a frente? Até agora, apesar de todos os seus feitos, Billie parece ainda viver dentro do seu próprio mundo, recebendo um apoio reservado da sua família. O seu impacto é, sem dúvida, irrefutável, e irá certamente continuar a mostrar-nos pequenas imagens da sua mente — os seus demónios, dos seus medos e dos mais bravios sonhos — de uma maneira horripilantemente interessante.


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