PZ: “Gosto que as minhas músicas sejam retratadas como peças de tragicomédia portuguesa”

[TEXTO] Rui Correia [FOTO] Direitos Reservados

PZ é Paulo Zé Pimenta, o projecto mais pessoal do artista portuense que nos tem desenhado desde o álbum Anticorpos, lançado em 2005, uma realidade paralela na música portuguesa. Seja como editor da Meifumado – com discos que vão do improviso de Zany Dislexic Band, à electrónica de PPlectro, à pop de Guta Naki até ao hip hop de Expeão, Orelha Negra ou Mind da Gap –, ou como músico — com grupos como Paco Hunter, que partilha com o seu irmão Zé Nando Pimenta –, ou como realizador de vídeos – com destaques para “Olá”, “Já Não És o Meu Dealer” (do Conjunto Corona), “Mundo”, entre tantos outros –, ou como designer gráfico – todas as capas dos seus discos são de sua autoria –, há um fio condutor singular que liga esta rede artística que nasce na cabeça de PZ.

De uma conversa que se tornou longa e passou por diferentes tópicos, começámos por falar nos nomes mais activos da Meifumado – (o próprio) PZ e Conjunto Corona – que têm tido um percurso de contínua e crescente afirmação. Mesmo sem apresentarem milhões de visualizações – com excepção para a colaboração com dB no tema “Cara de Chewbacca” que ultrapassa neste momento um milhão de visualizações –, são ambos projectos que possuem um público fiel que cresce cada vez mais. Esse facto é “surpreendente” para PZ. Entre vários estrangeirismos, o artista contou-nos que a missão da editora sempre foi “a criação e edição de boa música”, mas finaliza com “venham ver o barco a afundar”. Essa despreocupação nas vendas alimentou ao longo do tempo o objectivo principal: “a definição de uma linha editorial abrangente e alternativa”. Esse interesse do público poderá explicar-se pelo carácter diferenciador e uma linguagem própria que definem estes projectos. Como nos explicou, “as pessoas relacionam-se com essa forma de estar na música, com referências e auto-referências dos sítios onde vivemos”. Exemplificou, dizendo que “o Santa Rita Lifestyle [último álbum dos Conjunto Corona] resume bem o estilo de vida suburbano, com muitas referências ao Porto”. O próprio PZ tenta ser fiel às suas vivências no Porto, e, claro, é definido pelas várias fases da sua vida.

Sobre o seu processo de composição, PZ revelou que surge de forma natural e muitas vezes inconsciente: “estou sempre a fazer música e eventualmente um álbum é desenvolvido, com a busca de músicas que estão em banho-maria e depois vou-me lembrando de novas letras e novos beats. Fica ali uma amálgama de memórias desfragmentadas, sendo que alguns temas são mais sérios do que outros, salpicados por ironia, que é das melhores formas de se comunicar”.

Editado este ano, o seu mais recente álbum, Do Outro Lado, é talvez, de todos, o mais introspectivo. Aliás, há um retorno ao seu primeiro disco Anticorpos nesse sentido. Paulo confirmou-nos que há um culminar do ciclo PZ: “o primeiro álbum foi também um álbum em que me expus mais e que o próprio nome do disco foi um símbolo da cura para a minha depressão. A minha família permitiu-me fazer o que me apetecesse. A certa altura comecei a fazer músicas e eu já tinha feito uma em português que se chamava ‘Do Outro Lado’, já há alguns anos, que depois inclui no Anticorpos. É uma música muito simples — foi dos primeiros beats que fiz — e foi quando decidi dar voz aos beats que fazia com os sintetizadores e drum machines”. Num período que se estendeu por sete anos até ao segundo disco Rude Sofisticado, Paulo Zé focou-se na editora Meifumado, que dava na altura o seu pontapé de saída, e também nos projectos musicais Zany Dislexic Band e Paco Hunter, neste último, dando os primeiros concertos em que cantou em palco e que lhe deram a bagagem para começar a dar concertos a título pessoal, quando decidiu recuperar PZ em 2012. Foi a partir do single “Croquetes” – “partilhada ad nauseam na Internet” – que um maior público passou entranhar a sua música, começando também a actuar a solo. Numa descrição mais completa dessa fase, PZ revelou-nos: “comecei a expor-me mais, não tanto nas letras, mas mais a mim próprio como músico. Comecei a fazer videoclipes caseiros, comecei a definir uma certa linha de apresentação ao público em geral: o gajo do pijama que às três da manhã acorda e vai para a câmara fazer umas danças – como nos vídeos de ‘O Que Me Vale És Tu’ e ‘Passeio’ — depois também como tinha formação em New Media Arts, gostei de fazer experiências como fiz no vídeo do ‘Mundo‘, em que me pus dentro de naves espaciais [risos]. E depois também foi importante ter dado os singles ao Alexandre Azinheira, que é um realizador com o qual tenho vindo a trabalhar durante todos estes álbuns e que começou com o ‘Croquetes’. A partir do Rude Sofisticado também me comecei a ligar a mais pessoas que queriam trabalhar comigo”.

Retomámos, entretanto, a conversa em torno da importância da editora Meifumado que “permitiu lançar o álbum com outra consistência e promoção” e que tem sido “uma espécie de hub para bandas com identidades fortes, próprias”. E continuou, “nós gostamos é disso, de celebrar a diferença e tentamos também expor isso em palco. Damos liberdade para as bandas desenvolverem o que bem entenderem e acho que tem resultado bem. Apesar de cada um estar na sua realidade paralela, existem pontos de contacto entre essas realidades”, como é exemplificado pela relação entre Conjunto Corona e PZ, com quem recentemente colaborou no tema “Perdido na Variante”. “A missão da Meifumado é destruir fórmulas musicais e construir novas”, rematou.

Essa diferença de que falamos, o afastamento do standard em prol de uma linguagem musical própria, parece atrair cada vez mais fãs para a causa Meifumado. Outro aspecto atraente é a ambiguidade no que fazem. “Em PZ, através da ironia e do sarcasmo, gosto de confundir a mente das pessoas e trazer uma certa discussão para cima da mesa, sobre o que é música e o que um artista pensa ao concretizá-la. O humor é um quebra-tabus, que permite criar uma atmosfera saudável para as pessoas falarem sobre as coisas, concordando ou não. É interessante mostrar que há formas diferentes de abordar os temas e há diferentes temas para serem abordados”. Existem temas para todos os gostos, sejam gastronómicos, políticos, sociais ou pessoais e o músico portuense gosta também de jogar com os títulos das músicas, que “servem de porta de entrada para o que virá, sendo quase frases que se ligam entre si”. Neste novo álbum há as genuínas e sui generis “Realidade Paralela”, “Supimpa”, “Deixei De Ser Um Totó” e, logo a seguir, “Eu Sou Um Queque” e “Partes de Mim São Falhas”, músicas com piadas auto-referenciais e que tornam o processo interessante, como o próprio indica.

A dado momento, PZ descreveu a sua música da seguinte forma: “é uma legalização da loucura, mas de uma maneira saudável. Vejo-a como como válvula de escape para os nossos problemas e para a nossa cabeça, que está muitas vezes assolada e muito presa em si própria. A música é uma maneira também de transcender essa realidade e de celebrar a diferença e os defeitos. Rirmo-nos de nós próprios. Eu gosto muito disso e às vezes estou a rir-me muito durante uma música, quando me lembro de uma letra e em vez de me censurar, digo para mim ‘não, não vou mostrar isto, porque é ridículo’ e logo faço o contrário. [A ideia] é celebrar o ridículo. Não nos podemos levar demasiado a sério.”

A conversa levou-nos à ambiguidade, essa particularidade que está representada na história da música portuense através de projectos como GNR ou BAN, com PZ a lembrar-nos do tema “Irreal Social” e a assumir uma certa responsabilidade em espelhar as suas raízes. Falámos ainda do orgulho de cantar em português e da maneira específica como ele é expressado no Porto. “Eu sinto-me orgulhoso não só de ser do Porto, como do Norte e de Portugal (!) Não tenho nada aquela coisa de Porto vs. Lisboa. Isso já passou, não faz sentido. Acho que nos temos de unir cada vez mais e celebrar [a diversidade]. Portugal é um país tão pequeno, mas passado uns quilómetros já encontras outra maneira de falar. Mesmo a paisagem muda muito facilmente”. Em certo momento, o fado é o mote dado para exemplificar a celebração da nossa própria maneira de cantar em português e PZ assume identificar-se com a bossa nova, que soube apropriar-se dessa portugalidade doutra forma mais alegre. “Gostamos muito da tragédia e do drama, que vem muito do fado. Eu gosto que as minhas músicas sejam retratadas como peças de tragicomédia portuguesa. Peças de teatro musicais que surgem através dos videoclipes”.



A música de PZ acompanha a sua vida e naturalmente é influenciada pela cultura e actualidade na sociedade. A ligeireza e simpatia portuguesa; a confiança crescente nas nossas qualidades e a identificação com o que é exclusivamente nosso; a certeza de que “vivemos num dos países mais fixes”; e sobre uma imunidade portuguesa relativamente ao fenómeno dos haters, das fake news e populismos que assolam outros países europeus. “Eu estudei New Media Arts na Boston College e esse fenómeno [dos haters] estava muito a começar, na altura em que fui para lá [1998]. Havia aulas em que tínhamos de tirar cursos e houve uma a que fui, chamada hate.com. Já era sobre os trolls que comentam online, que se escondem no anonimato e que as redes sociais o permitem. É uma forma de desabafarem para o resto da sociedade”.

Falar sobre a actualidade dá pano para mangas, e de repente, entrámos numa espiral negativa sobre a corrupção, mentira, poder, a influência (e vício) das redes sociais (olá, Donald Trump) e a falta de tempo. Algo que pode ser relativizado através da música e PZ “gosta de chamar a atenção para isso em alguns temas”, para tornar o que é “negativo em positivo”. “No Império Auto-Mano há uma música [‘Olá’] sobre as redes sociais e a falta de tempo que as pessoas têm. É um ciclo sem fim: as redes sociais facilitam pelo facto de teres mais trabalho, mas ficas cada vez mais preso. Cada vez tens menos tempo, tempo para uma pessoa estar. Como por exemplo estarmos aqui a falar. Às vezes os meus filhos querem brincar comigo e eu dou por mim a dizer-lhes, ‘espera aí que eu tenho de acabar isto’.”

A música de PZ fala também nos impulsos naturais das pessoas durante o seu dia-a-dia. Se no caso dele, a música serve exactamente para exteriorizar esses demónios interiores, muita gente necessita de um mecanismo que permita libertá-los. Para isso, há soluções: “façam música, dêem um passeio, vão lá para fora, vejam outras coisas, saiam dos buracos demoníacos”.

Especulo também com PZ sobre a sua capacidade de ajudar as pessoas que estão em processo de auto-flagelação. Confidenciou-nos que já recebeu mensagens a agradecer-lhe a ajuda em momentos maus das suas vidas: “confirma que as pessoas se conseguem relacionar de alguma forma com a minha música e que se aparecem nos concertos por esses sentimentos, muito provavelmente é pessoal ao meu lado. Estamos ali em comunhão contra as bestas, mas contras os nossos próprios demónios interiores. Que temos de estar sempre ali a controlá-los. Isto é uma batalha diária. Às vezes apetece dar um banano. A música [‘Banano’] fala nisso. Só que não dei banano nenhum. Só dou um banano, se alguém me der a mim primeiro [risos].”

O tópico da gastronomia é também recorrente nas músicas de PZ. As referências passam por croquetes, torresmos, lulas (reivindicamos a mesma receita das nossas avós), chamuças ou sushi. O músico assumiu que também adora bolos (já lá vamos) e que no fundo gosta de tudo. Voltamos ao prato principal: a cultura portuguesa. À sua qualidade/capacidade de se reinventar e de usar os mesmos ingredientes de 1001 maneiras. Para se fazer boa música é importante ter boa comida…

Continuámos a dissecação do seu imaginário musical e a sua recorrente ligação com as máquinas. “PZ também tem a ver com a exploração da palavra através da exploração de maneiras novas que existe de produzir música, através de sintetizadores, que são brinquedos sérios, que requerem muita experimentação. Eu desenvolvo sons para a própria música. A [utilização] das drum machines também foram muito influenciadas pelo meu interesse por bandas como os Hardfloor, bandas de techno que começaram a surgir [nos anos 90], e que quando surgiram representavam algo completamente novo. Sempre fui influenciado por bandas ou one-man bands. Hoje em dia através dos samplers, drum machines e computador podes fazer tudo sozinho. Os sintetizadores surgiram mais nos anos 70 através do [mini]moog e entretanto, hoje em dia, há um comeback às máquinas vintage sintetizadas e as drum machines também me dão muitas memórias nostálgicas dos anos 80 e dos anos 90 através do techno e também do trip hop. A ideia de samplar uma música na altura e depois destruí-la e criar música nova através de música antiga, quase um reciclar, foi um breakthrough nos anos 90 e foi aí que eu comprei o meu primeiro sampler e que o meu pai também me deu o meu primeiro sintetizador. Sempre fui ouvindo coisas novas e tentava fazer músicas através dessas máquinas. À medida que fui crescendo e conhecendo tornei-me um geek dos sintetizadores, conheço-os de trás para a frente. Faço window shopping de sintetizadores, vou para a Thomann vê-los, ler reviews. É como ver futebol. É o meu turn off.”

Os álbuns de PZ surgem de fragmentos musicais que vão ficando guardados no seu disco rígido e que ganham um propósito e vêem a luz do dia, eventualmente. O novo álbum seguiu essa premissa e foi através de um convite endereçado por Filipe Santos, da produtora Come e Cala-te, que começou a ganhar forma. “Ele é guionista e actor da mini-série Menos Um, que vai estrear a 16 de Maio na RTP Play. Ele convidou-me para participar na série, não só para fazer músicas, mas para participar como actor (ou como performer das músicas). Eu li o script e eu representava o alter-ego do Alex, que é a personagem principal, um músico que está a começar. Isso é um paralelismo comigo, embora não esteja a começar, sei o que isso é. Ele vai trabalhar para um bar em que é o residente, mas o dono do bar quer que ele toque covers, mas ele quer é mostrar a cena dele e então acontece-lhe de tudo, aquilo é uma tragicomédia. É surreal. Quando ele vai para palco transforma-se em PZ, um bocado como aquela coisa do Fight Club, aquela dualidade da realidade e da realidade paralela. Ele mostra-me isto e eu já estava a desenvolver a [faixa] ‘Realidade Paralela’, que pensei que ia muito bem para esta personagem. Depois de outras situações que li no script, tinha outras músicas que estava a desenvolver e que encaixaram mesmo bem no script e por isso foi um empurrão para eu começar a acabar essas músicas. De repente já tinhas outras que também fui desenvolvendo, porque ao princípio só ia fazer a banda sonora. Entretanto já tinha outras que queria mostrar e que se começaram a ligar bem entre elas, e portanto neste álbum há cinco musicas que vão aparecer na série e as outras seis não vão aparecer, mas todas ajudaram a definir o Do Outro Lado. O próprio clip do Do Outro Lado tem a ver com um fechar do ciclo e voltar àquela primeira musica que fiz muito inocentemente naquela altura em que nem sabia que ia ser PZ, que tem esse mesmo nome e que tem a ver com a minha própria participação nesta série, em que sou um alter-ego de um músico. Parece que foram buscar o PZ do outro lado, para também acabar esse álbum e também tem a ver com a própria história da série, que não vou revelar mais, nem vou revelar as músicas que entram, porque quero que as pessoas vejam e descubram a relação que este disco tem com a série. Embora possa parecer que sou um bocado bicho do buraco, eu gosto é que as pessoas venham ter comigo e me desafiem a fazer coisas. Se não, PZ também vai ficar uma coisa mirrada, um velhinho que não vai conseguir sair da toca. Ainda bem que o Filipe Santos me chamou do outro lado, para fazer alguma coisa.”

Sair do buraco também acontece quando se vai para palco. Esse processo é crucial: “para alguém que queira ter uma carreira na música, acho que é essencial dar concertos e expor-se. Os primeiros que dei, se calhar eu não dormia durante uma semana só da ansiedade. Hoje em dia já é natural e não há essa [ansiedade extrema], mas há aquela ansiedade antes de entrar em palco. Não só para conhecer pessoas novas e desenvolver o projecto, mas também para conhecer Portugal. Sou um bocado preguiçoso — o pijama também reflecte um pouco isso –, os concertos e as pessoas que querem ouvir a minha musica é que me levaram também a conhecer várias cidades, que se calhar ainda não teria conhecido. Um destino paradigmático são os Açores. É dos sítios mais bonitos que existem e estás em Portugal e por isso ainda sentes uma maior afinidade com aquele sítio e já fui três vezes apenas por causa do PZ”.

Mas nem sempre é fácil lidar com o excesso de atenção que se recebe. “Quando isto começou a crescer, também fiquei um bocadinho com o rei na barriga, fiz coisas que se calhar não devia. No tema ‘Rei Na Barriga’ tento mostrar que é preciso ter cuidado, se não ficas com ‘a cara comida’. Fiquei agarrado à má vida e acho que todos os músicos vão passar um bocadinho por esse processo. É bom às vezes lembrar que é fácil [recair]. Ninguém está preparado. Só através da experiência e pensando que num ápice tudo isto acaba [se aprende]. Felizmente, hoje sinto que estou num ponto em que atingi um equilíbrio saudável para mim. Mas é sempre uma disputa, é um balanço que é difícil de lá chegar e está em constante mutação. À medida que uma pessoa vai amadurecendo, também consegue lidar com essas situações de uma maneira melhor. O ‘Rei Na Barriga’ é um símbolo dessa atenção mediática que há na música e que pode levar certas pessoas a perderem o foco.”



Das auto-referências presentes neste novo disco, é inevitável falar-se na procrastinação. Em “Partes De Mim São Falhas” assume-se “100% a procrastinar aqui e agora”. “Essa música fala de todo esse processo de fazer as coisas e acabar as coisas. Faz parte do meu processo, o procrastinar. Na calma de um certo dia, quando não estás sempre com aquela coisa de ‘vou fazer uma música’. Acontece [as músicas] surgirem quando não estás nada à espera. Procrastinar hoje em dia até é um luxo [risos]. Às vezes tenho que me ausentar mesmo perante amigos e família. Preciso do meu buraco para desenvolver as minhas cenas. As pessoas começam a perceber que eu preciso desse tempo para procrastinar que depois leva à criação. E a criação também fala precisamente sobre esse processo da procrastinação e preguiça criativa.”

PZ já leva uma mão-cheia de álbuns e sente-se que existe um padrão pelo equipamento que tem usado na criação de músicas. “Em termos de sons isso é verdade. Os sintetizadores quase que podes pegar em qualquer um e fazê-los soar à tua maneira. Mas há certos sintetizadores que surgem num ou noutro álbum e que se calhar dão uma certa característica ao álbum. Eu estou sempre à procura de experimentar sintetizadores novos e já andava com a ideia de ter um Prophet há algum tempo e surgiu entretanto nesta linha de recriação analógica, mas num package moderno, o Prophet 6, que eu já estive a namorar muito tempo e lá consegui comprá-lo através do OLX. Este álbum está aí em parte modelado, o ‘Partes De Mim São Falhas’ acho que é tudo o Prophet 6, mas também gosto muito de outro sintetizador da Dave Smith que é o Tempest, que uso na ‘Diverti-me Imenso’. Gosto muito da cena do groovebox que dá para muitas coisas diferentes, gosto também do OP-1 — o ‘Supimpa’ foi quase todo feito nesse –, mas depois tem overdubs do Juno-106. Eu usava muito o Juno-106 e o [Roland] SH nos álbuns Rude Sofisticado e Mensagens da Nave-Mãe, aqui também continuo a usar, mas entrou um amiguinho novo, que é o Prophet 6. O Banano também foi feito com partes de sintetizadores com o Prophet 6. Foi a maquininha nova que inconscientemente ajudou a dar uma característica própria a este álbum. ‘Partes De Mim São Falhas’ é o hino pessoal deste álbum, tal como o ‘Sofá Efervescente’ foi para o Anticorpos.”

O primeiro momento que colocou PZ em contacto sério com o público foi com o tema “Croquetes”, mas o boom de atenção aconteceu mais tarde com o single colaborativo com dB, “Cara de Chewbacca”. Desafiámos PZ para um novo projecto colaborativo: “um novo álbum com o dB? Acabou por surgir uma colaboração na ‘Perdido na Variante’, embora seja diferente, é Conjunto Corona. Já pensei nisso e o dB também, eu gostava de fazer uma coisa mais alargada com ele. O que é interessante nessas participações, é que o PZ surge de uma forma em que não há preocupação com o instrumental e isso permite-me concentrar na letra e, como os beats dele são muito característicos, levam-me se calhar para uma abordagem diferente e mais descomplexada e não tão presa à minha cena pessoal. Essas duas músicas – ‘Cara de Chewbacca’ e ‘Tu És a Minha Gaja’ — mostram bem isso. Aliás a ‘Cara de Chewbacca’ surgiu pelas coisas positivas que as redes sociais proporcionam. Foi o dB que me contactou e eu fui ouvir os instrumentais dele, ouvi o ‘Onde Está Gaiolin?’, que é o instrumental sem tirar nem pôr do ‘Cara de Chewbacca’ . Foi uma parceria que resultou bem e foi até um gateway para o David [Besteiro] me mostrar um novo projecto em que ele estava a trabalhar. Ele mandou-me um vídeo com uma cassete que era de Conjunto Corona e o resto é história. Vou desafiá-lo um dia destes a voltarmos a fazer assim uns singles. Desta vez serei eu a falar com ele.”

A realidade paralela do universo PZ marca definitivamente a sua música. Esta alienação leva-o ao mundo retro, por exemplo com referências a jogos antigos como no vídeo de “Zona Zombie”, e tentámos perceber também essa influência naquilo que compõe. “Essa adoração [pelos jogos] tem a ver com um regresso à infância. Eu tive a sorte de ter uma infância muito fixe e começou também na altura em que chegaram as consolas. A minha primeira foi um ZX Spectrum. Era fixe porque eles conseguiam com os poucos beats que havia na altura fazer temas e sons [muito interessantes]. Eu acho que a limitação gera criatividade e é por isso que eu acho que hoje em dia há jogos espectaculares em termos de realismo, mas, em termos de jogabilidade e mesmo em termos de sons e do seu universo, são um bocado genéricos. Sinto que aqueles jogos antigos como o Chuckie Egg, o Super Mario, o Arkanoid — uma variação do Pong –. adorava também o Rick Dangerous, com limitações eles conseguiam fazer cenas incríveis. Para mim foi como o chegar da televisão, de repente podias mexer [no que está dentro] da televisão e jogar. Aqueles sons eram muito fixes e desenvolvidos todos em 8 bits. É por isso que hoje em dia há até sintetizadores a emular esses sons. Eu de forma natural gosto de incluir em algumas músicas, umas mais assumidas do que outras, essa espécie de fascínio electrónico nostálgico.

A menção à sua infância remeteu-nos para um cenário freudiano e a verdade é que a música de PZ é simples e pura. Confrontámo-lo com isso: “há uma certa nostalgia ou mesmo o assumir de uma certa inocência e desconstrução do mundo em blocos. Mas essa referência, esse sentimento nostálgico pode ser apenas uma parte de uma música e poder estar a falar a partir de outro lado. Tenho quase 40 anos. Já não sou uma criança. Mas muitas vezes sinto que o que me definiu foi um bocado esse processo de crescimento e às vezes gosto de pegar nisso e tornar as coisas simples. O humor simples faz pensar as pessoas e leva-as a essa tal ambiguidade. Gosto muito de fazer músicas para os meus filhos também, porque essa inocência…se toda a gente fosse inocente como as crianças, o mundo não estava como está. Há uma necessidade de proteger as crianças precisamente por estarem num estado puro. São indivíduos e seres humanos em que nós nos revemos e são quase um ideal. Eu tento levar um pouco dessa criancice para o mundo adulto também.”



Entrámos aqui num campo filosófico, muitos de nós gostaríamos de manter essa inocência. A música de PZ é sensível a um ponto que pode despertar “o inner child” nos adultos e atingir positivamente as próprias crianças. “Há pais que me enviam vídeos dos filhos deles a cantarem as músicas. Acho isso espectacular. Se de facto chega a elas é porque há uma certa criancice e inocência na minha música, numas mais do que outras. É algo inconsciente. Eu gosto que a criança em mim queira aparecer nas músicas e gosto de jogar com essas memórias antigas e de tempos mais simples”. Infelizmente, há o lado oposto da deturpação: “a provedora da RDP passou três programas inteiros a dizer mal daquela música [‘Cara de Chewbacca’] com convidados a dizer que era uma música sexista e misógina. O problema nem eram as palavras, o problema era a própria mensagem da música. Tive mulheres e crianças a achar piada àquela música, a minha própria mãe começou-se a rir, quando lhe mostrei. Foi aí que pensei ‘isto pode ter sucesso’. É uma música tão descomplexada e divertida, e ainda há pessoas, como a própria provedora que vão contra essa música. Há pessoas que se levam demasiado a sério. Tentei-lhe explicar o meu ponto-de-vista e até fui ao programa e acho que ela ficou a perceber melhor. Se não ficou, pelo menos deu-me a oportunidade de defender o meu ponto-de-vista. Lá está, a tal ambiguidade, depois dá nisto. Mas acho interessante, gerou ali um debate também sobre o sexismo em Portugal, sobre o que é, o que não é. Sobre o papel da mulher numa cidade moderna.”

Ainda sobre a ambiguidade e os extremismos que as músicas às vezes podem gerar na sociedade, relembrámos PZ sobre a sua adoração por bolos, isto é, sobre o que ele pensa de Conan Osiris. “Houve quem me tivesse comparado com ele. Eu acho que não tem muito a ver, mas há algo que gosto no projecto: é uma coisa muito dele e gosto do facto de ele se estar a cagar para o que é e para o que não é. Eu fui ouvir o Adoro Bolos e gostei. Achei-o diferente e bem feito, e mais uma pedrada no charco. Ele é algo de bom que aconteceu à música portuguesa”. No seguimento, colocámos mais um desafio a Paulo Zé, desta vez enquanto editor: enquadrar-se-ia na Meifumado? “Sim. Seria do género de artistas que acho que encaixavam muito bem na editora. Era muito interessante”.

Tal como aconteceu com “Cara de Chewbacca”, “Telemóveis” recebeu uma reacção extremada do público, e quisemos ter uma opinião de quem já passou por essa experiência: “eu detesto esses extremismos. É uma música que provoca isso, mas há maneiras mais naturais de aceitar a coisa. Ele tem o seu espaço, há pessoas que gostam, pessoas que não gostam. A maior parte das pessoas gostaram e não é por acaso que ele chegou à Eurovisão. Há um público grande, uma maioria que achou-o interessante e isso é muito bom sinal. Para além do adorar e do odiar, há também uma zona cinzenta em que dá para ouvir aquilo de uma maneira relaxada e não deixar que todo o burburinho social influencie a maneira como ouvimos a música”.

Já bem lançados na entrevista e com confiança suficiente, desafiámos PZ uma terceira vez: será que neste novo formato do festival da canção, aceitaria uma participação? “Neste novo formato [acústico] que vou apresentar para o ano haveria músicas que eu não diria que não em fazê-lo. Kudos ao Salvador Sobral, que com uma música arriscada conseguiu ganhar e a verdade é que voltou a dar uma visibilidade grande a Portugal e pôs as pessoas, e mesmo os próprios músicos a darem mais crédito ao Festival da Canção. Poderá [acontecer] se houver assim uma música que tenha a ver. Se surgisse o convite, talvez. Poderia ser interessante.”

Já na recta final da nossa conversa, voltámos a abordar Corona, a propósito do que anda a circular nos seus auscultadores, e deambulámos de novo pelo sentimento retro e nostálgico. “O que costumo ouvir é o novo disco de Corona, que obviamente tem influência em certas músicas deste novo álbum. É normal os artistas referenciarem-se entre si. Dr. Octagon também é algo que vou sempre ouvindo…mas uma pessoa chega a uma altura da vida em que ouvir música nova é difícil e por isso refugia-se no conforto das músicas que foi ouvindo, que criam uma certa nostalgia. Acho também que é isso que se nota hoje em dia, o retro, um bocado as memórias de tempos mais simples. Algo que está associado à década de 80, àquela inocência dos próprios filmes e da música. Antes arriscava-se, não havia muitos tabus, não havia muitos constrangimentos, as pessoas faziam o que lhes dava na cabeça e estavam-se a cagar para o que as pessoas achavam ou não achavam. Queriam era exprimir-se de uma certa maneira”. Na sequência deste pensamento, concordámos na possibilidade de estarmos a entrar numa nova década definidora como foram os anos 80 ou os anos 90: “sente-se de novo essa liberdade, não é? Mas muito com referências ao passado. Vais falar sobre o quê? A história, a tua história. E o que é que tu és? Uma amálgama de todo o historial humano que houve até agora. E por isso vais buscar referências ao passado e tentas fazer referências para o futuro. Mas o tempo na minha música é tentar fazer uma linha futurística através do meu pijama [risos]. Sou um fã de ficção científica e há muitos livros desse género que inspiraram os cientistas a desenvolverem tecnologias novas. A chegada à lua é um caso paradigmático. O Philip K. Dick, por exemplo, que falou sobre se os andróides sonham com ovelhas eléctricas e que depois gerou o Blade Runner. Toda a cultura pop é que também influencia a ciência. Os cientistas também têm desejos e gostam de entretenimento e aplicam na sua área essas influências.”

No espaço-tempo de PZ não sabemos exactamente o que virá no futuro, mas arriscámos em perguntar-lhe. “Os discos são de processo muito intenso e quando os acabo há também o preparar dos concertos e praticamente deixo de ouvir o disco que fiz. Mas no entretanto já estou a pensar no que poderá vir aí. Irá aparecer esse tal projecto mais tocado, acústico, mas não vou revelar muito. O trabalho já está pronto, mas ainda gostava de fazer um filme acerca disso. Gostava também de começar a expor mais as minhas experimentações com as máquinas e entrar no mundo da electrónica pura e dura. Se calhar até alguns lives a mexer nos sintetizadores, etc. Aproveitar mais esta coisa tão fácil de poder mostrar o meu próprio trabalho em casa. Partilhá-lo live no Facebook ou no Instagram. Gostei da sugestão de trabalhar com o dB também. E tenho sempre muita coisa no hard drive, que eu quero pôr cá para fora. Tenho também um projecto de exploração maquinal, que é PZ (Live Machines), que já mostrei no Lux e na [rádio] Alínea A, [sendo] que está disponível no YouTube. É um live act em que vou com uma ou duas máquinas para palco e faço os beats que tenho para lá perdidos e mostro-os. Espero que com este álbum, estando mais exposto, dando concertos e com esta participação que tive agora na série Menos Um, permita um futuro interessante com coisas diferentes. Costumo dizer que não posso estar tão preso a PZ, mas o PZ às vezes vai-me buscar e não dá hipótese para lançar [outras] coisas. Mas com este Do Outro Lado, eu sinto esse culminar da minha carreira [enquanto PZ], que já falei e o facto de estar orgulhoso de todos os álbuns que fiz até agora, acho que me dará uma certa liberdade para mostrar lados diferentes da minha música.”


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