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Texto: Vera Brito
Fotografia: Carson Davis Brown

WOMB é o mais recente longa-duração da dupla canadiana.

Purity Ring: “Nós sempre fomos uma banda algo DIY e queremos continuar assim porque torna a nossa arte mais pessoal”

Texto: Vera Brito
Fotografia: Carson Davis Brown

Megan James e Corin Roddick não precisaram de mais do que um disco para os colocar definitivamente no mapa da pop. Shrines, editado em 2012, foi amplamente elogiado, quer pela crítica mais de nicho, quer pela mais mainstream (a Pitchfork carimbou-o com um Best New Music), e granjeou-lhes uma sólida base de fãs, assim como conseguiu captar a atenção de nomes de universos tão distintos, como Katy Perry ou Danny Brown, para colaborações.

Pouco tempo depois seguiria-se o álbum de confirmação, Another Eternity, mais luminoso que as sombras do primeiro, mas ainda a projectar essa pop estranha e futurista, um rótulo musical que até hoje perdura sempre que se fala em Purity Ring e que Megan James, nesta entrevista que nos ofereceu, aceita como ideia válida mas que sente ter colocado demasiada pressão ao duo canadiano no início da carreira.

Seriam precisos cinco anos para que os Purity Ring regressassem com música nova. WOMB, editado no início de Abril, é um disco para ser contemplado em solitude, mesmo que esse isolamento não nos estivesse agora a ser imposto. Um disco de difícil interpretação na sua escrita poética, que fomos tentar perceber melhor através de uma videochamada com Megan, que encurtou a longa distância entre Portugal e Canadá.



Acredito que os fãs de Purity Ring já aguardavam por este vosso novo álbum, WOMB, há algum tempo. Passaram-se cinco anos, desde o vosso anterior trabalho, em que vocês estiveram ocupados com muitas outras coisas, entre concertos e colaborações. Como foram estes últimos tempos?

Levámos este período com muita calma e acho que isso se reflecte no disco. E estou feliz por termos levado o nosso tempo, sinto que é o que nós sempre fizemos e foi em parte porque estivemos em digressão durante muito tempo e envolvidos em colaborações, nas quais estávamos bastante focados e não queríamos estar a trabalhar nas nossas coisas ao mesmo tempo. Quando começámos este disco queríamos ter a certeza de que era apenas nosso. Acho que somos algo sensíveis às influências externas, e não que isso seja um problema, mas somos os dois muito fechados, fazemos quase tudo o que conseguimos por nós próprios e acho que isso faz parte da nossa forma de trabalhar e de como fazemos música, e até do próprio ambiente em que precisamos de estar envolvidos para a fazer. Mas sim, este disco levou bastante tempo. [Risos]

Penso que terá levado o tempo necessário. [Risos] Não acredito que devam existir prazos “legais” para se fazer música e cada artista tem formas diferentes de criar. WOMB saiu no início de Abril, no meio desta pandemia, como tem sido até agora o feedback?

Tem sido bom. Sinto-me muito grata e feliz por termos conseguido lançar este disco durante estes tempos que estamos a viver. Acho que o máximo que poderíamos ter pedido ou esperar foi a resposta calorosa dos fãs, e depois as pessoas já esperavam há tanto tempo [pelo novo disco] que sinto que foi como uma centelha de alegria no meio deste isolamento e fico feliz que isso tenha acontecido, mesmo que tudo resto esteja a ser péssimo neste momento. [Risos]

Muitos artistas têm de facto adiado lançamentos durante estas semanas, mas muitos que não o fizeram têm partilhado que estão a ter um feedback muito positivo e que está a ser uma experiência de partilha muito gratificante. Tens seguido todos estes movimentos artísticos que têm estado a acontecer?

Sim, ou seja, tenho estado a ouvir mais música do que normalmente faço e a ouvir discos completos. Sinto que o ambiente actual é o ideal para absorvermos arte e música da maneira que é suposto fazê-lo, com um pouco de mais paciência e tempo, por isso estou entusiasmada com a minha própria experiência. E algo que me traz esperança e alegria é ver como todos estão empenhados em serem mais honestos em relação ao seu processo criativo e na forma em como mostram tudo o que estão a fazer, acho que é algo que estamos todos a precisar. No entanto, de certa forma, isso também me assusta um pouco, porque eu não quero fazer tudo o que isso implica, nós não somos uma banda que faça muitas coisas em live streaming, somos normalmente bastante fechados e concentrados em nós mesmos, e sinto-me mais confortável em continuar assim. É como se de certa maneira fosse algo a favor do isolamento, sabes? [Risos] Mas tem sido muito bonito ver esta espécie de construção de comunidade, com todas as interacções que estão a acontecer, pelo menos daquilo que tenho visto. E quando tivemos de adiar a digressão, que estava planeada para agora, foi uma enorme decepção e ainda existiu a conversa de adiarmos também o lançamento do disco, mas depois de pensar alguns minutos sobre o assunto disse: “Nem pensar! Música é o que as pessoas precisam agora”. Lançar agora, ou mais tarde, levantava as mesmas incógnitas, o risco pareceu-nos igual, porque tudo vai mudar, seja de que maneira for.

Gostava, então, de falar um pouco mais em específico sobre este vosso novo disco: WOMB. Embora a música de Purity Ring seja muitas vezes descrita como sombria, melancólica e até visceral, ao ouvir este disco consigo encontrar essas imagens mas, ao mesmo tempo, acho que também passa uma sensação reconfortante. É, como sugerido pelo título, um regresso à segurança de um útero quente e aquoso. Existia este conceito na base deste disco? Ou não havia qualquer ideia inicial?

Não, não existia nenhum conceito até ao momento em que ouvi todas as canções e senti exactamente aquilo que estás a descrever, e fico muito feliz que o tenhas sentido também, é tipo: “Objectivo cumprido!” [Risos] Mas sim, ao ouvir as canções todas juntas, quando já tínhamos suficientes, foi mesmo: “Wow… sinto-me tão confortada por estas coisas”. E é por isto que eu faço música, e é por isto que eu e o Corin [Roddick] fazemos música juntos, porque se transforma nesta coisa especial, que durante o processo de composição não me consigo aperceber que está a acontecer. Por isso, quando senti o que o disco que me estava a transmitir, apenas queria que as outras pessoas o sentissem também, e essa palavra [womb] foi de todas a mais abrangente para reunir todas estas ideias. Depois, muito deste disco é também sobre família, quer sobre estarmos reunidos ou sobre o que é nascermos dentro de uma família — é sobre essa minha comunidade pessoal, mas quero que isso depois seja sentido pelo ouvinte, em qualquer capacidade e essência para si mesmo.

A palavra womb [útero] é também um símbolo inegável de feminilidade, fertilidade e família, da qual até já falaste. Penso que algumas músicas neste disco são também dedicadas a mulheres? Este tema é também algo importante para ti?

Sim, o disco tem muita feminilidade e isso vem absolutamente de mim. Cresci numa família muito tradicional, de educação muito religiosa, por isso tenho bastantes opiniões e sentimentos pessoais em relação a esses ambientes familiares tradicionais, às suas regras e a tudo o resto. E este disco, que parte dessa minha perspectiva pessoal, é muito sobre a minha raiva na forma como esse papel [da mulher] é visto pela maior parte do mundo, sobretudo nos patriarcados. É sobre sentir-me algo deslocada dentro desses ambientes e tentar ao mesmo tempo fazer sentido deles e sentir-me grata pelo que neles existe de bom. Acho que a canção “i like the devil” é sobretudo sobre isso, sobre esse carinho que sempre me nutriu e sem o qual eu não saberia viver sem, e que ainda hoje procuro muitas vezes — é como voltar casa, acho. Por isso sim, existe muita feminilidade neste disco mas também não quero que seja apenas visto por esse lado, como sendo apenas para mulheres, este disco é para todas as pessoas, e é mais sobre género, e em como seguir o seu curso ou optar por não o fazer.

Como dizia a vossa música é muitas vezes descrita como algo sombria, na composição musical mas diria que, sobretudo, nas letras e nos temas que abordam, como morte, relações dolorosas, mas especialmente naquelas imagens viscerais do corpo humano. Acho que é a primeira vez que encontro a palavra “Sinew” [tendão], como título de uma canção. [Risos] De onde vem esta inspiração?

Acho que são sobretudo metáforas através das quais tento tornar as coisas que vejo mais compreensíveis para mim, mas também mais bonitas. Estou sempre à procura das várias camadas de como me vejo a mim mesma dentro de qualquer cenário, que normalmente é a natureza. São metáforas através das quais consigo representar algo, como uma relação com alguém que conheces há muito tempo, através de um corpo e sinew foi a metáfora que encontrei para essa música. Não quero entrar muito em detalhes sobre a letra, porque acho que isso pode ser algo cheesy… [risos] Mas a forma em como vejo a natureza e os corpos enquanto natureza, às vezes não vai além disso, mas noutras transforma-se nestas imagens que acabam por conseguir explicar uma situação melhor do que aquilo que eu seria capaz numa linguagem mais simples, acho. E esta música é sobre uma velha amiga, que embora não seja da minha família, sinto que somos tão parecidas que é como se, mesmo sem termos nascido do mesmo lugar, ela tivesse tomado parte dessas entranhas – é aquilo que eu quero dizer com “you swallowed the sinew”. É algo rebuscado… mas é poesia. [Risos]



Por outro lado, a vossa música é também considerada pop. As bonitas harmonias e a tua voz angélica contrastam com esse lado algo mais obscuro e isso não é muito comum na música pop. Porque é que achas que isso acontece? A pop afinal pode ser também mais sombria?

Acho que ultimamente tem sido mas também acho que a minha definição de pop talvez não seja a mesma que a da maior parte das pessoas. Acho que nós sempre fizemos música pop porque sempre que estou a compor uma melodia, ou que oiço os beats do Corin, sinto-me inspirada por algo que me agarra, e a minha ideia de pop é isso, algo que te cativa, que fica no ouvido e que queres ouvir várias vezes. Acho que é uma espécie de sentido de foco numa canção, e nós não divagamos muito, quer dizer às vezes também existe alguma experimentação, mas pouca coisa é deixada ao acaso. Quero fazer músicas que as pessoas queiram cantar, em que exista uma espécie de persuasão que as agarre — é isto que eu entendo por pop e é assim que eu vejo a música e tudo aquilo que faço.

“i like the devil”, que anteriormente referiste, é das minhas músicas preferidas deste disco e está complementada por um vídeo hipnotizante que também nos agarra. Parece-me que este lado visual é algo em que vocês pensam com muito cuidado, as próprias capas do disco, feitas pela Tallulah Fontaine, a forma como vocês se apresentam em palco (ainda não pude ver nenhum concerto vosso) mas sei que existe toda uma atenção desde as luzes até às roupas que tu própria crias. Todo este lado é de facto fundamental para nos levar a esse universo misterioso que os Purity Ring criaram?

Muito! Acho que queremos criar um mundo que seja a nossa natureza e com o qual nos identifiquemos, e a melhor forma de ambos nos sentirmos realmente satisfeitos a fazer arte é se fizermos tudo o que pudermos por nós próprios. Existe muita gratificação ao fazer algo e em fazer parte de algo, e para sermos justos temos também muita ajuda externa, não conseguimos, por exemplo, montar um espectáculo sem uma equipa técnica que nos ajude a realizá-lo e a perceber de que forma vai ser apresentado. Por isso existem pessoas que nos ajudam bastante mas a maior parte é em coisas que representam este mundo que eu e o Corin estamos a criar. A Tallulah Fontaine foi sempre excelente a encontrar maneiras de representar isso à sua maneira, e essa é uma das razões pelas quais continuamos a convidá-la para fazer o artwork, porque ela consegue criar uma representação ideal desse nosso mundo, algo que eu nunca conseguiria fazer, porque não desenho assim tão bem, embora adorasse ter esse talento. [Risos]

E as roupas que usamos em palco (eu sempre desenhei e fiz roupa) já pensei em arranjar ajuda porque dá imenso trabalho [risos], mas para trabalhar com outro estilista sinto que teria de ser uma relação tal como a que temos com a Tallulah, e isso é tão raro encontrar! Mas eu gosto de colaborações, apenas acho que é difícil conseguir que as pessoas estejam alinhadas na mesma zona, às vezes parece que é quase destino quando encontras alguém que encaixa no teu mundo e na forma como o queres criar. E nós sempre fomos uma banda algo DIY e queremos continuar assim porque acho que isso torna a nossa arte mais pessoal.

Falaste no difícil que podem ser as colaborações e em encontrar as pessoas certas. Sempre me pareceu que nos duos, como o tu e o Corin, existem desafios diferentes, em relação a trabalhos a solo onde tens todo o controlo, ou a bandas onde as responsabilidades estão mais diluídas. Nos duos parece-me que a sinergia e entendimento têm de ser totais para que as coisas possam fluir na direcção certa, porque são duas pessoas com o mesmo peso de decisão. Não sei se concordas e perguntava-te quais têm sido até agora os maiores desafios e recompensas desta vossa experiência?

Tem sido realmente um caminho muito longo… Às vezes olho para trás e penso: “Já passaram mesmo quase 10 anos a fazer música juntos?” [Risos] Mas quando olho para o passado através das lentes da nossa relação, que mudou bastante durante todos estes anos, vejo que é uma relação que como qualquer outra exige muito trabalho, em aprender em como cada um comunica. E uma coisa que gosto naquilo que disseste é que realmente num duo não existe hierarquia, existe sempre aquela coisa do: “Estás bem? – E tu, estás bem?”, e se uma pessoa não está bem, então a arte não acontece, tudo precisa estar em ordem para que as coisas avancem e acho que como ambos queremos muito que esta banda exista, estamos dispostos a colocar o todo o tempo e trabalho que sejam necessários para isso.

As relações não são coisas fáceis e existem momentos em que se pensa “será que isto vale mesmo a pena?”, assim como existem outros em pensas “ó meu Deus… isto é a melhor coisa de sempre, nem sei o que faria sem isto na minha vida”. É engraçado porque, quando eu e o Corin começámos a banda, vivíamos em cidades diferentes, éramos apenas conhecidos que pouco sabiam um do outro e agora podemos dizer, orgulhosamente, que somos amigos. [Risos] E isso aconteceu porque ambos queríamos muito que este projecto funcionasse.

Imagino que agora a forma como vocês trabalham nos discos também tenha mudado. Li que o vosso primeiro álbum, Shrines, foi feito quase todo à distância, com troca de muitos e-mails.

Em muitos aspectos continua igual porque ambos compomos a partir de casa e depois temos um pequeno estúdio, na casa do Corin, em que nos reunimos para gravar. Embora muita da composição também aconteça lá, na maior parte das vezes ele envia-me um beat, eu escrevo algo em cima desse beat e “ok, tenho a música pronta, vamos gravar”. E isso era também o que já acontecia antes [risos]: trocávamos muitos e-mails a longa distância e, quando finalmente conseguíamos estar juntos, normalmente por altura do Natal ou quando ambos regressávamos a casa, gravávamos as músicas. É engraçado como muitas coisas ainda continuam iguais, só que agora existe muito menos pressão, porque eu posso simplesmente ir ter a casa dele para gravar, enquanto há uns anos essas canções ficavam praticamente fechadas à primeira, porque tínhamos muito pouco tempo juntos em estúdio. O que nem sempre era assim tão mau, mas agora existe mais tempo para que as coisas mudem e cresçam de outra forma, algo que antes não acontecia. É como se agora fossemos mesmo uma “banda”, antes não éramos assim tanto… [risos]

A vossa digressão que era para começar nas próximas semanas foi adiada mas creio que as datas na Europa, no final do Verão, para já ainda se mantêm. É possível que aconteça ainda uma data para Portugal? Penso que vocês nunca tocaram por cá, pois não?

Acho que não, infelizmente… mas eu sempre quis ir a Portugal. Mas quem sabe se essas datas acontecerão mesmo, eu realmente espero que sim. Mas essa digressão acabou por ser planeada em torno de alguns festivais que estão marcados nessa altura do Verão, que não é a melhor para uma digressão e para marcar outros locais, por isso a nossa ideia é fazer esses concertos e voltar mais tarde. Por isso garantidamente que depois disso iremos regressar e esperamos que aconteça uma data aí.

Seria óptimo porque acredito que existem muitas pessoas por cá que já por algum tempo gostariam de ver um concerto vosso.

Sim, a próxima [digressão] estamos a tentar que seja mais flexível para que possamos tocar mais facilmente em qualquer lugar, por isso acho que teremos muitas mais datas, isto se pudermos fazer uma digressão de todo. [risos]

Para terminar, o vosso primeiro álbum, Shrines, editado em 2012, quase há uma década atrás, foi muito bem recebido pelo público e pela crítica em geral. Na altura dizia-se que os Purity Ring eram uma espécie de embaixadores de uma pop futurista. Estamos em 2020, chegámos ao futuro: correu como vocês esperavam? Ou ainda vêm a vossa música a projectar o futuro?

Acho que isso depende da visão de cada um… eu apenas sinto-me grata pelo facto de que ainda estamos a fazer música e a dar concertos, porque não tomo nada como garantido, por isso agradeço ainda termos uma base de fãs e de pessoas que se importam connosco. E sim, houve uma altura em que as pessoas se referiam a nós como formativos de uma certa pop, em 2012 haviam muitas ideias no ar e até consigo perceber porque é que as pessoas diziam isso, e ao ouvir a nossa música agora também consigo perceber que ainda o digam. Mas ao mesmo tempo pensar em nós nessa forma que descreveste é uma enorme pressão e sinto que, no passado, isso foi um obstáculo que tivemos de ultrapassar de forma a conseguirmos fazer as coisas que realmente queríamos fazer. Por isso, tudo aquilo que posso ambicionar e desejar é que as pessoas continuem a gostar da nossa música e de nós. É algo difícil para mim falar sobre o que significa para além disso, porque está na minha cabeça e mexe comigo. [Risos] Mas acho que com este disco ultrapassamos definitivamente essa sensação de pressão e estamos muito mais confortáveis um com o outro e com aquilo que fazemos. E espero que continuemos a fazê-lo seja de que forma for, porque acho que já não somos vistos da mesma maneira que éramos nessa altura. E é tudo! [Risos]


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