Public Enemy: o segredo está na mensagem

[TEXTO] Miguel Santos [FOTO] David Corio/Redferns

Nos dias que correm, muitos associam o hip hop a música consciente. Apesar da camada mais mainstream ofuscar as valências líricas e sociais do género, não há como negar que este é hoje o mais relevante tipo de música de intervenção. Só nesta década, “Alright” de Kendrick Lamar — que se tornou um hino em manifestações — ou “This Is America” de Childish Gambino — que inspirou incontáveis artistas por todo o mundo — mostraram-nos que há muito para dizer e incitaram à acção, levando o ouvinte a reflectir sobre assuntos sérios, pesados e necessários. Mas esta vertente mais política nem sempre foi um dado adquirido no hip hop e se hoje o é, muito se deve ao extenso trabalho dos Public Enemy.

Este grupo nova-iorquino não foi o primeiro a ter esta abordagem: a poesia musical de Gil Scott-Heron ou a seminal “The Message” de Grandmaster Flash & The Furious Five já revelavam uma consciência superior de observadores natos de uma injusta condição humana. Mas os Public Enemy foram os primeiros a abraçar essa vertente com todas as suas forças. Desde o primeiro projecto da banda, Yo! Bum Rush the Show, lançado em 1987, que as rimas de Carlton Ridenhour, mais conhecido como Chuck D, vincaram a atitude de um grupo que não tinha medo de falar sobre nada. Ao ouvir as suas palavras sentimos a luta de milhões e as suas letras abordam frequentemente as dificuldades da comunidade afro-americana nos Estados Unidos da América. Temas como “Megablast” ou “Rightstarter (Message To A Black Man)” apontam para essas dificuldades com afirmações pungentes sobre uma existência sujeita ao racismo e a uma falta de oportunidades que assolavam — e infelizmente ainda assolam — a comunidade negra.

A cadência e o tom de Chuck D formam uma unidade autoritária e carismática, frequentemente envolvida num tiki-taka preciso com William Drayton, mais conhecido como Flavor Flav. Apesar de ter um papel mais secundário como letrista da banda, Flavor Flav foi um artista profundamente importante na popularização do hype man como uma parte indispensável da cultura hip hop. A sua entrega frenética e repleta de energia — tanto em estúdio como em palco — e a sua imagem excêntrica são o complemento perfeito para as mensagens sonantes de Chuck D. Em Yo! Bum Rush the Show, Flav é o reverso da medalha com uma leviandade e humor que contrasta a entrega mais séria do seu parceiro das rimas, uma união simbiótica que atingiu o auge no clássico It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back.

O segundo álbum dos Public Enemy foi a consagração definitiva do grupo e catapultou-os para o topo das tabelas e da cultura popular. O projecto é mais rápido que o seu predecessor, com batidas sem tempo a perder e que espelhavam os míticos e energéticos concertos da banda. Foi neste álbum que Chuck D e Flavor Flav se revelaram definitivamente como embaixadores do hip hop consciente. A mensagem era diversificada, desde torcerem o nariz à cobertura jornalística sensacionalista que muitas vezes os circundava devido ao conteúdo das suas letras — através de “farpas” como “Don’t Believe the Hype” ou “Bring the Noise” — ou relatarem com veemência os problemas da comunidade negra através de temas como “Night of the Living Baseheads” e “Black Steel in the Hour of Chaos”. Em “She Watch Channel Zero?!”, Chuck D aborda a dormência colectiva a que nos entregamos através da televisão e a música é dos momentos mais pesados do álbum, muito graças ao sample de “Angel of Death” da banda de thrash metal Slayer. Este é apenas um de vários momentos em It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back em que a batida nos surpreende através da sua imprevisibilidade e mostra a perícia da equipa de produção do grupo, The Bomb Squad.



Se Chuck D e Flavor Flav mandavam a casa abaixo, os arquitectos da estrutura eram The Bomb Squad. O seu inventivo estilo de produção era distinto de tudo o resto que se ouvia na altura, incorporando um elevado número de samples numa só música, recolhidos dos mais distintos lugares. Ouvimos elementos de noise lado a lado com funk, soul e outras influências que denotam uma experimentação incomum no hip hop da altura e que atinge o seu ponto mais alto no terceiro álbum da banda, Fear of a Black Planet. Sonicamente, este é o projecto mais ambicioso dos Public Enemy, um trabalho caótico fielmente organizado, com turbilhões de sons que preenchem densamente o plano de fundo das rimas dos MCs de serviço. O álbum é um projecto conceptual e, enquanto no seu predecessor havia um ênfase em endereçar os problemas que assolavam a comunidade de onde provinham, em Fear of a Black Planet há um incitamento à mudança, à reacção, a não aceitar o status quo, fiel e habilmente demonstrado através de temas como “Power to the People” ou a influente “Fight the Power”, usada por Spike Lee na sua aclamada obra cinematográfica Do the Right Thing.

No álbum — e ano — seguinte, Apocalypse 91… The Enemy Strikes Black, a pegada sonora característica da banda alterou-se, por um lado porque nada é imutável, e por outro porque foi necessário: o material que iria ser incluído no próximo álbum foi roubado do estúdio e, como resultado, o som da banda transfigurou-se mas a estética incansável e sem tempo a perder manteve-se. Ouvimos um som mais convidativo e menos “lutador”, um trabalho mais leve mas que não deixa de apontar o dedo àqueles que continuamente ignoram os menos afortunados. Mas foi a partir deste momento que a brilhante trajectória de Public Enemy foi perdendo um pouco da sua chama. Muse Sick-n-Hour Mess Age seguiu-se e já não é tão desafiante como os lançamentos anteriores, composto por loops mais repetitivos e menos diversificados. Há uma entrega mais directa e confrontacional mas também menos foco, e apesar de não descurar os temas importantes e a rapidez característica da banda, há momentos em que o álbum não entusiasma. Em Revolverlution sente-se algo parecido, uma aposta num som mais esparso e não tão preenchido, mais desnudo e recatado.

Com a chegada de gigantes do gangster rap como Tupac, Snoop Dogg, The Notorious B.I.G. ou do malabarismo de NAS, a relevância e preponderância dos Public Enemy foi diminuindo ao longo do tempo, como acontece com a maioria das bandas. Mas o grupo nunca deixou de lançar música. Em He Got Game criaram uma banda sonora para o filme com o mesmo título, um trabalho mais atmosférico e com mais destaque para a melodia e a calorosa harmonia musical, um projecto mais descontraído. There’s a Poison Goin On vê-os a abraçar o digital com um álbum totalmente disponibilizado na Internet, sendo que os Public Enemy foram um dos primeiros grupos de hip hop a apostar nesta abordagem tecnológica. Apesar de já serem muito anos de carreira, How You Sell Soul to a Soulless People Who Sold Their Soul? mostrou que ainda têm alguns truques escondidos na manga. Lançado vinte anos depois do início da carreira do grupo, o disco prova que a longevidade traz surpresas agradáveis. O destaque vai para a gigante “harder than you think”, uma música esperançosa e quente, que mostra que as coisas mais difíceis são por vezes as mais acertadas. É uma música que espelha a atitude do grupo e que os mostra rejuvenescidos após duas décadas de música.

Mas mais do que a obra de Public Enemy é importante referir o seu legado. Como uma das bandas mais importantes da golden age do hip hop, o grupo ajudou a popularizar a música consciente e provaram definitivamente que há um antes e depois da sua meteórica explosão musical. O seu trabalho influenciou inúmeros artistas, entre os quais se incluem A Tribe Called Quest, grupo nova-iorquino incontornável nos primórdios do jazz rap e que continuaram a carregar a tocha da música de cariz social pelos anos 90. A sua sonoridade eclesiástica e experimental levou-os a colaborações pouco usuais e pioneiras com bandas como Anthrax, e provou que a influência dos Public Enemy se estende muito para além do hip hop, com grupos como os My Blood Valentine — célebre banda de shoegaze — a referirem a produção intrincada e coragem para desbravar novas fronteiras sónicas de The Bomb Squad como ponto de partida para algo completamente diferente.

Na faixa-título de He Got Game ouvimos Chuck D e Flavor Flav dizer “It might feel good/ It might sound a little somethin’/ But fuck the game if it ain’t sayin’ nuttin’”. Numa era em que o hip hop consumista domina as tabelas e os ouvidos daqueles que agora descobrem um dos géneros mais fascinantes dos últimos 40 anos, vale a pena recordar os OGs do hip hop consciente, que mostraram ao mundo que o segredo para o sucesso está na mensagem.


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