Public Enemy // It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back // Fear of a Black Planet

public_enemy_reissues_2014_review

O avanço tecnológico do planeta costuma significar que qualquer conquista do passado – da construção de pirâmides à travessia dos oceanos de avião, dos jogos electrónicos de arcada aos efeitos especiais de George Lucas para Star Wars – é facilmente replicável no presente. Mas a linearidade do avanço tecnológico não é a única força dominante. Por vezes, enquanto as máquinas avançam, as ideias recuam.

It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back e Fear of a Black Planet, as duas obras-primas dos Public Enemy datadas de 1988 e 1990, respectivamente, não poderiam nascer hoje. Não porque os samplers hoje disponíveis não conseguissem acomodar as dezenas de excertos pilhadas pelo Bomb Squad ao longo da fértil história da música negra e do rock – de James Brown aos Slayer ouve-se de tudo nos beats dos Public Enemy – mas simplesmente porque as restritivas leis de direitos de autor afinadas no arranque dos anos 1990 para terem em conta os novos métodos de produção e composição inaugurados pelo hip hop tornariam financeiramente inviável qualquer álbum que ao fim da primeira faixa já tivesse obrigado ao licenciamento e negociação de direitos com 10 ou 20 entidades diferentes.



Os dois álbuns dos Public Enemy agora reeditados (Nation como um dilatado duplo CD recheado de extras a que se acrescenta um DVD ao vivo e Black Planet com um CD extra onde se reúne material originalmente disperso por singles) representam um momento singular na história, quando a tecnologia e a criatividade se encontraram um passo à frente da indústria. O colectivo de produção Bomb Squad – composto pelos irmãos Hank e Keith Shocklee, por Chuck D e pelo músico Eric “Vietnam” Sadler – ergueu nestes álbuns o equivalente a uma verdadeira revolução. Num momento em que a arte do rap evoluía sobretudo em termos líricos graças ao poder criativo de génios como Rakim, os Public Enemy ofereceram um reverso para a medalha, transformando a arte de criação de bases musicais para esta cultura. Com temas produzidos a partir de inúmeros sons extraídos de diferentes discos, os Public Enemy conjuraram um glorioso barulho que traduzia os tempos em que viviam, com o ruído dos media a sufocar uma sociedade que continuava a lidar com tensões raciais, crime, droga… A música dos Bomb Squad e a ira profética de Chuck D, ladeada pelas tiradas de bobo da corte de Flavor Flav e, num primeiro momento, pela voz de um certo radicalismo político que pertencia a Professor Griff, combinou-se nestes dois discos e resultou numa força inédita que se traduziu na ascensão do grupo à primeira divisão de uma cultura que a indústria só então começava a levar a sério.

Estes dois álbuns dos Public Enemy são sonicamente perfeitos – uma mistura de funk, ácido eléctrico e música concreta temperada por uma visão apocalíptica do mundo – e carregados de hinos que serviram de molde e inspiração para muitas carreiras – dos Beastie Boys aos NWA e daí até Jay-Z ou Kanye West, houve muita gente a beber neste poço sem fundo. “Bring The Noise”, “Don’t Believe the Hype”, “She Watch Channel Zero”, “Black Steel in the Hour of Chaos”, “Rebel Without a Pause”, “Brothers Gonna Work It Out”, “911 is a Joke”, “Welcome to The Terrordome”, “Who Stole the Soul?” ou “Fight The Power” são esculturas clássicas feitas de uma combinação original de frequências e sentidos, de slogans, pulsares e ecos de uma época absolutamente irrepetível – quando o aço negro das ideias comandadas por Chuck D se impôs como a voz da CNN negra na hora do caos. O mundo nunca mais voltou a ser o mesmo.



*Texto originalmente publicado na revista Blitz.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu