Prodlem: “É tudo uma questão de química entre o artista e o instrumental”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Prodlem, produtor nascido e criado em Chelas, é um nome que, para quem acompanha o rap nacional, não pode passar ao lado. Em 2017, por exemplo, ouvimos os seus instrumentais em temas de Kroniko, Jimmy P, Mishlawi ou Malabá. No entanto, o seu percurso não começou no ano passado: em 2013, Elio Vieira produziu “Pra Merda Não Volto“, um tema incontornável na discografia de NGA.

O seu impacto não fica confinado ao território nacional e, para já, MCs de Espanha (DANI), França (PNL), Brasil (808 Bob x Wesker x Demiurgo) e Estados Unidos da América (Kodak Black e NBA YoungBoy) rimaram nos seus beats.

Aproveitando o seu “melhor ano até ao momento”, o Rimas e Batidas trocou e-mails com o produtor e conversou sobre o início de carreira, a produção para nomes internacionais ou o negócio dos type beats.

 



Quero começar pelo início da tua história. De onde é que vens e quando é que desperta a curiosidade pela música? 

Nascido e criado em Chelas, Lisboa. Sou péssimo com datas, mas, senão me engano, comecei a produzir há cerca de 7/8 anos. Foi algo que começou por curiosidade: fiz download do Logic Pro e aos poucos foi-se tornando um vício. Depois de fazer muito lixo, lá fui melhorando até se tornar o meu full time job há cerca de dois anos.

Começaste logo a produzir ou chegaste a experimentar outras coisas antes? Os beats foram uma paixão à primeira vista?

Antes de começar a produzir, era apenas mais um ouvinte de rap. Era aquele gajo que estava sempre de phones no ouvido e que sempre que uma música saía já a tinha e estava a passá-la aos amigos. Tentava estar sempre a par de tudo. Mesmo antes de começar a produzir, tinha sempre atenção aos produtores, fazia download de mixtapes só porque certos produtores estavam envolvidos. Olhando para trás, sinto que sim, inconscientemente, já tinha uma “paixão” pelos beats, mas só agora mais tarde é que tudo faz mais sentido.

Kodak Black, PNL ou NBA YoungBoy fazem parte da lista de rappers internacionais com quem já trabalhaste. Como é que acontecem as ligações com esses artistas? Tiveste contacto pessoal com algum deles?

Cada caso é diferente. Por exemplo, com o Kodak Black foi através de um produtor com quem costumo colaborar, chamado DJ Swift de Tampa, Flórida. Ele já tinha produzido alguns sons para o Kodak, ambos são da Flórida, logo foi mais fácil fazer a ligação. Apesar do Kodak ter colocado snippets da música no seu Instagram e, numa delas até se ouve a minha tag, “We Got a Prodlem”, foi uma daquelas faixas que foi colocada de lado e nunca chegou a sair oficialmente (ter sido gravada pouco antes do Kodak ter sido preso também não ajudou).

 


I guess this @kodakblack x @prodlem x @djswift_813 track will never come out ????

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unreleased @kodakblack song produced by me x @djswift_813 ????

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No caso dos PNL, eu não sabia quem eram até receber vários comentários franceses a dizer “Le Monde Chico” no beat que eles usaram do meu canal de Youtube. Foi nesse momento que pesquisei sobre eles e que percebi que o manager francês que me tinha contactado umas semanas antes era o manager deles. A faixa saiu no álbum Le Monde Chico que foi tripla platina em França e chama-se “Abonné”.

 



E não, nunca cheguei a ter contacto pessoal com esses artistas. É normal, são artistas que se quiserem conseguem receber 1 milhão de instrumentais de 1 milhão de produtores diferentes a qualquer momento. Basta colocarem o email no Twitter.

Virando a agulha para o rap português: já produziste para NGA, Kroniko, Prodígio, Malabá, Jimmy P ou Mishlawi. Para alguém como tu que conhece as duas realidades (nacional e internacional), achas que o nível em Portugal está elevado?

Considero que o nível em Portugal tem subido muito nos últimos anos, em vários aspectos. Noto que a influência do trap finalmente começou a ser aceite cá, e consequentemente, existe uma maior abertura dos artistas para essa sonoridade. Na altura em que produzi o “Pra M*rda Não Volto” do NGA, penso que dificilmente alguém utilizaria esse instrumental sem ser os Força Suprema, isto por ser considerado trap e “americanizado”. Felizmente as mentalidades mudaram e apareceram novos artistas que vieram trazer nova energia e uma maior variedade ao game, como já acontece em outros países da Europa ((França, Inglaterra, Alemanha) há algum tempo.

As tuas colaborações com os artistas da Bridgetown ficam pelo Mishlawi ou ainda vamos ter mais novidades? O que é que podes revelar?

Só posso revelar que a “Ignore” foi a primeira faixa a sair do forno, mas que o forno está quente! Considero o Mishlawi um dos artistas mais talentosos com quem já trabalhei e com maior potencial. Por isso sim, é provável que venham a ter mais novidades. Sobre a Bridgetown, é uma das labels em Portugal com maior visão e profissionalismo.

Tens um arquivo público de beats impressionante. Conta-nos lá: andas a guardar os melhores instrumentais para o teu álbum a solo ou isso é algo que não te interessa?

Devo estar perto de chegar aos 300 beats só no Youtube… Sim, já são alguns! Sinceramente, eu não acredito em instrumentais melhores ou piores porque a musica é subjectiva. O instrumental que teve melhor recepção na Internet, e que alcançou um milhão de views no youtube, é um instrumental que eu pensei nem sequer fazer upload, porque não estava dope enough. Cada pessoa ouve música de uma forma diferente ou seja, um beat que, para mim, é o melhor para o artista pode não ser. É tudo uma questão de química entre o artista e o instrumental.

Para quem já ouviu as tuas produções, é inegável que o trap é a tua praia. Quando começaste, quais foram os produtores que te inspiraram?

Sim, trap é a sonoridade que melhor me define. No entanto, também sou um grande fã de r&b e gosto de fazer misturas entre esses dois estilos. Drumma Boy, Shawty Redd, DJ Toomp e Zaytoven são alguns dos produtores que sempre admirei e que me inspiraram nessa altura. Legends.

Em Portugal, a fasquia também está muito alta em termos de produtores. Quais é que são os teus favoritos?

Sem dúvida. Não só a nível de produtores, mas de realizadores de vídeo e engenheiros de som também. São funções que hoje em dia ainda são underrated e que por vezes não recebem o devido crédito, mas são a razão para algumas músicas terem sucesso. Especialmente lá fora, tens músicas em que as lyrics são 20% e o instrumental/vídeo são 80%. Em relação aos meus produtores favoritos, vou ter de falar do meu bro Lory Beatz. É um produtor português que está a viver no UK e que já trabalhou com artistas como K Koke, Geko, Marty Baller. Ace Bankz, produtor português que já produziu para nomes como Chief Keef, Fetty Wap. Existem vários produtores que estou a sentir o trabalho, mas estes dois são aqueles que muito people cá em Portugal ainda não conhece e que, na minha opinião, merecem mais reconhecimento por andarem a colocar o nome de Portugal no mapa.

Estamos mesmo a chegar ao final de 2017. Quais são os teus desejos e planos para 2018?

2017 foi o meu melhor ano até ao momento. Tive o prazer de trabalhar com artistas de todos os cantos do mundo, colaborei com produtores que eu admirava desde que comecei a produzir e o meu canal de Youtube atingiu a marca dos 50 mil subscritores, por isso só posso desejar que 2018 seja a continuação de 2017! Não gosto de fazer planos, apenas estou focado em continuar a evoluir como produtor e o mais importante é continuar a divertir-me a fazer aquilo que gosto.

És um dos produtores portugueses que investe seriamente nos type beats – a tua primeira publicação no YouTube aconteceu no dia 2 de Julho de 2014. Se um artista anda (ou deveria andar) sempre à procura de definir o seu próprio som, a verdade é que esse género de criação parece encaminhar-nos para o sentido contrário, funcionando quase como se formatássemos a nossa sonoridade a artistas que estão na berra. O Prodlem que faz os type beats é o mesmo que trabalha directamente com os artistas ou tens duas maneiras de fazer as coisas?

Ainda bem que tocas neste assunto porque é algo que vejo muita gente a falar de uma perspectiva que eu não concordo. Não posso falar pelos outros produtores, mas eu vejo os type beats como marketing/SEO. É a lei da oferta e da procura. Os artistas utilizam essas keywords para pesquisar por instrumentais no YouTube/SoundCloud, logo os produtores usam-nas para que os artistas os encontrem. É simples. Funciona também como uma espécie de filtro: os artistas hoje em dia não querem ouvir cem instrumentais de hip hop até encontrarem um que seja a vibe que estão à procura.

Um exemplo que eu gosto de dar, quando se fala nisto, é que se um produtor tem a oportunidade de ir para o estúdio com um artista grande como o 50 Cent, o produtor vai escolher beats seus que ache que se ajustam ao artista,certo? A ideia é exactamente a mesma do que atribuir um nome de um artista a um beat.

No meu processo, só após finalizar o beat é que penso em nomes de artistas que podem encaixar, e por vezes, até peço ajuda no meu Instagram para tentar escolher o artista “certo”.