Praso // Livre e Espontânea Vontade

[TEXTO] Moisés Regalado 

Os concertos estão sempre à pinha, os ouvintes conhecem-no de Norte a Sul e os pares reconhecem-lhe aquele toque que só costuma bafejar os predestinados. O sucesso à escala nacional é relativamente recente só que nada chega por acaso: como um verdadeiro operário, sozinho ou em grupo, o tempo vai passando sem que Praso abandone aquilo que é seu por direito.

Se o rap tuga de 2000 e pouco tivesse seguido por caminhos diferentes daqueles que trouxeram um 2019 farto em bangers e views, artistas como Praso seriam a norma. O foco não está nas “partilhas e likes” que “nunca meteram água no Saara” mas também não vive exactamente de um activismo assumido. Pode dizer-se que o homem forte da Artesanacto é menos Estraca e mais Keso, habituado a intercalar as larachas para o poder instituído com a mais crua das poesias urbanas.

“A culpa não é tua, a culpa é do que te exalta
Não sabes do que é que se trata
Tu fechas os olhos enquanto fome mata”

As quase vinte faixas de L.E.V. conduzem-nos à boleia da sua alma, mais do que nos arrastar numa previsível egotrip — mesmo que os temas não fujam assim tanto à norma. Há fumos, miúdas e pontos-de-vista sobre assuntos tão díspares (apesar de inevitavelmente ligados) como a política profissional, o movimento hip hop ou as contradições de uma sociedade hierarquizada — sem esquecer a big picture que une os pontos e que serve de principal inspiração para o seu rap.

A esperança e a desilusão estão, lado a lado, estampadas nas rimas de Praso, desiludido com o estado das coisas mas de peito feito para as enfrentar, escudado por samples melancólicos e letras tão assentes na terra como as fundações da cultura. Apesar da geografia o apontar como filho da costa alentejana, a influência do Grande Porto parece ter tanto espaço na poesia de Praso como tem Sines, onde o rapper e os seus Alcool Club continuam a fazer história.



Praso não segue — nem quer seguir — os passos necessários para furar o mainstream, ou o proto-mainstream que vai crescendo no mercado português, mas a verdade é só uma: os principais rostos da cena também não conseguiriam fazer o que Daniel Jones faz, em disco ou ao vivo, na zona ou pelo país fora. O skill deste alentejano que esgota casas por todo o território nacional está apenas ao alcance daqueles que tratam o microfone por tu desde a origem, sem que as atenções se desviem com o que é estritamente necessário.

“Já vi que a árvore
Não fica longe da queda do fruto
Que se afasta do braço da mãe
P’ra voltar a ser raiz
Depois de adulto”

Mesmo que este seja um dos capítulos mais importantes — e interessantes — da história que se tem desenrolado, ainda há mais páginas por virar do que aquelas que foram escritas. Enquanto Praso for o escritor (e produtor) de serviço, o hip hop tuga tem em Sines mais um motivo para ficar de coração cheio, sem temer as visualizações ou as tendências.


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