Postais de Londres: Trikk

[ENTREVISTA/FOTO] Ricardo Miguel Vieira, em Londres

 

*Numa certa noite de Verão, cinco portugueses, produtores conotados com a cena electrónica residentes em Londres, actuaram no Corsica Studios, um club sombrio nas arcadas de uma ponte ferroviária. Ao longo da semana, o Rimas e Batidas vai divulgar alguns dos seus pensamentos em voz alta na primeira pessoa. Reflexões sobre a Portuguese Dance Music que se faz ouvir Europa fora e que agora tem o seu expositor maior na Rádio Quântica, a inaugurar a 1 de Novembro por Violet e Photonz.

[Trikk, ao centro na foto]

 

Todo o meu projecto musical como Trikk aconteceu quando já me encontrava a viver em Londres. Comecei a produzir música há sensivelmente oito anos e troquei o Porto pelo Reino Unido há cinco. Boa parte do meu crescimento enquanto produtor aconteceu já aqui, pelo que o som de Trikk é informado por esta cidade. Não há muita influência de Portugal em mim, não cresci lá como músico, mas sim em Londres.

A minha mudança para aqui coincidiu com a edição do meu primeiro EP, Jointly EP, com selo internacional, através da editora de George Fitzgerald, a ManMakeMusic. Ainda assim, a minha saída do Porto não foi propriamente relacionada com a música: foi pelo estado em que se encontrava o país e por saber que não conseguiria avançar com a minha carreira se lá ficasse. Não foi porque não me deram oportunidades na música ou por não acreditarem em mim. Simplesmente a situação política e financeira em Portugal, principalmente a falta de suporte para a cultura, ajudaram a tomar a decisão de rumar a Londres.

 



Recordo-me que o meu contacto com a música aconteceu aos 15 anos, na altura frequentava um colégio onde havia instrumentos musicais em cada esquina e foi essa brincadeira que acabou por crescer e se tornar no que é hoje. Houve muitas coisas que me motivaram para a produção de música electrónica, e nem todas tiveram necessariamente que ver com a arte em geral. Porém, desde que estou em Londres, e que a minha carreira como Trikk arrancou, já assinei EPs pela Hypercolour, ManMakeMusic ou até a Pets Recordings, entre outras. São estas as labels com que colaboro anualmente.

A minha música é simples e eficaz, não tem muitos truques. É uma fusão de house e techno, sem ser tech-house. Não é house clássico nem techno puro, embora se misturem. Tenho muitas referências na música que levam o Trikk a criar o som que o caracteriza, e muitas delas nem são totalmente electrónicas, desde punk até post-punk, a DIY scene, por exemplo. Ao mesmo tempo, diria que toda a arte em geral ou simplesmente tudo o que me rodeia têm a sua influência na música que produzo. Não posso limitar-me a apontar o dedo a um produtor ou outro para definir o que me informa nas minhas produções.

 



Desde que vim para Londres que tenho vindo a ver a música electrónica portuguesa a crescer imenso – seja house ou techno ou outros estilos musicais. Agora está forte internacionalmente e há muita gente a dar atenção à música que se está a produzir em Portugal. A questão, contudo, do house não ter tanto hype no nosso país resume-se a características culturais, pois não é uma coisa enraizada. É ainda um nicho, são sempre pequenos grupos que gostam desta música que puxam pela cena. Além disso, há ainda uma divisão notória entre as scenes dance music no Porto e Lisboa: na capital está a bater mais a cultura africana, por exemplo, através da Príncipe Discos, o que é perfeitamente natural, dada a história social da capital ao longos dos anos; já no Porto as cenas techno, house e até experimental estão muito fortes.

A relação entre grande parte dos produtores portugueses a residir em Londres é bastante saudável, com encontros frequentes a acontecer, nem que seja apenas para lazer. Há uma entreajuda entre nós e, ainda mais importante, vontade de ver os outros crescer dentro da sua área, seja fotografia, moda ou música.

Estou agora a preparar o próximo ano, não posso adiantar nada em concreto, mas se tudo se realizar, pode vir a ser um ano bastante produtivo. O que realmente gostava de atingir na música é estabilidade. Não quero ser “famoso”, apenas quero estabilidade e um portfolio de que me orgulhe. Portugal pode entrar, ou não, nos planos de futuro, tudo depende do que estiver pessoalmente a sentir ou fazer num dado momento. Não me vim embora de Portugal porque não gostava do país. Apenas teve de ser, pelo que um regresso nunca está posto de lado.

 

 

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Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.