Postais de Londres: Silvestre

[ENTREVISTA/FOTO] Ricardo Miguel Vieira, em Londres

 

*Numa certa noite de Verão, cinco portugueses, produtores conotados com a cena electrónica residentes em Londres, actuaram no Corsica Studios, um club sombrio nas arcadas de uma ponte ferroviária. Ao longo da semana, o Rimas e Batidas vai divulgar alguns dos seus pensamentos em voz alta na primeira pessoa. Reflexões sobre a Portuguese Dance Music que se faz ouvir Europa fora e que agora tem o seu expositor maior na Rádio Quântica, a inaugurar a 1 de Novembro por Violet e Photonz.

 

Um compressor ou equalizador é sempre igual em qualquer país. Não é por estar em Londres, ou por ter estudado na London School of School, que encontrei um compressor melhor. A minha vinda para Londres deveu-se à experiência como um todo: emigrar sozinho e conhecer-me melhor. Desde os 12 anos que faço música, com interrupções pelo meio, claro. É aquilo que gosto de fazer. Porém, olhando para trás quase dois anos, o tempo que vivo aqui, sinto que mudei de cidade mais pela experiência pessoal do que um move na carreira musical.

Comecei a fazer música através do hip hop. No Murtal, perto da Parede, de onde venho, os meus vizinhos, gente mais velha, gostava de fazer uns freestyles, o que me influenciou para, aos 11 anos, gravar um álbum de rap através do microfone do MSN Messenger. O meu nome de rapper era Saltimbanco e recordo-me que desenhei a capa do disco no paint. Depois fui com a minha mãe à loja King Size, em Lisboa, e o que me disseram é que tinha de comprar um microfone melhor… não percebiam nada do que eu estava a rimar.

Depois disso parei uns anos e só voltei a mexer na música com 16-17 anos. Utilizava o Fruityloops. Nessa altura, dois amigos meus ouviam cenas electrónicas e deram-me dois ou três nomes para escutar. Pensei, ‘fogo, isto é o novo underground’. Comecei a ir a festas com eles, depois até sozinho, e muitas vezes não conhecia nada do que estava a passar. Desde então nunca mais larguei a cena EDM.

Já tive outros nomes como produtor. Pekans, por exemplo, sob o qual fiz projectos mais à base do gravador. Tive ainda uma release com o nome Didwrong. Quando cheguei a Londres senti que era um recomeço, então queria um nome tuga, mais pessoal, algo que fizesse sentido para mim. Passou a ser Silvestre – o meu nome do meio e primerio nome do meu trisavô.

O som do Silvestre é mais techno-experimental. A primeira coisa que me deslumbrou no EDM quando era mais novo foi a questão de ir a uma festa techno e não conhecer nenhuma música. Isso para mim foi brutal. Depois, a o facto de ser techno-experimental, ou outro género, deve-se mesmo à questão de hoje em dia conseguires fazer imensos sons à distância de um software.

Desde que mudei para Londres tive algumas releases: editei um EP de originais na japonesa Diskotopia, fiz uma remistura de “Kalimba” do Pal + para a One Eyed Jacks, edito uma música numa compilação da Crème Organization e tenho mais sons para sair. Também tenho tocado em rádios e estou a desejar fazer mais performances em live e já tive reviews positivas na Fact, Big Up ou Boomkat.

 


 


Venho de uma geração nova e pelo que me contam o Portuguese Dance Music bateu imenso nos anos 90 com o Vibe, Jiggy, Luis Garcia, Ze Mgl e até muitos outros que não são tão conhecidos e que são muito bons. Portugal, comparando culturalmente com Inglaterra, é uma cena diferente. Para lá de aqui haver um nível de vida superior, a maior diferença entre as duas culturas – e isto é uma coisa um pouco rough de se dizer – é mesmo a mentalidade. Aqui dão-te sempre uma oportunidade. Eu não sou um artista grande, sou muito pequeno, pelo que nunca fui tocar a uma rádio portuguesa; mas aqui já fui tocar à NTS Radio e já toquei e dei entrevistas noutras rádios inglesas. Já fui tocar duas vezes ao Corsica Studios [club no centro de Londres]. Em Portugal nunca tive essas oportunidades. A cena em Inglaterra é que as pessoas não têm medo de arriscar, dão-te uma oportunidade, tenhas cinco ou mil seguidores nas redes sociais. Se eles gostarem da tua música, pelo menos garantem-te uma uma oportunidade para te mostrares.

No caso desta festa em particular, é organizada por um grupo de amigos meus ingleses que são a Loose Lips. Miúdos que são mais novos do que nós que estão agora a estudar na faculdade e que chegaram a Londres há um ano. Em meio ano estavam a fazer festas em pubs com 20 pessoas e agora estão no Corsica e, diga-se, isto está muito bem composto. Claro que têm um lineup muito fixe, mas o Corsica esteve disposto a comunicar com eles e a dera-lhes essa oportunidade. E tal como lhes deu essa oportunidade, eles também me deram a mim e aos outros portugueses todos que estão aqui. Por mais pequena ou grande que seja a noite, é muito fixe termos cinco portugueses a tocar no Corsica, todos com estilos diferentes. Pessoal do Porto – o IVVVO e o Trikk – e malta mais de Lisboa – como eu, a Violet e o Photonz. É muito fixe.

Nos meus sets tento sempre tocar coisas diferentes. Abri com Gábor Lázár, que é um produtor que me tem entusiasmado bastante, tem feito cenas complexas à base de sampling – pegar em fragmentos de microsegundos e fazer loop – e depois gosto muito de tocar aqueles clássicos ingleses de rave, a malta acha sempre graça, aqueles hinos quase de rave e garage. E depois também vou um bocadinho ao acid e às DJ Tools, que dá sempre para dar seguimento à noite. Também tento tocar uma ou duas malhas minhas. Ultimamente tenho ido a muitas lojas de segunda mão e de charity porque acabo por comprar 10 discos e gastar 10 libras, em vez de ir à Phonica e comprar um disco logo por 10 libras. Às vezes encontras sons muito engraçados nas lojas de segunda mão, cómicos quase, e custam-te uma libra. Dropas aquela malha e fazes a noite.

 


 


O que caracteriza a cena Portugal Dance Music nos dias de hoje é a diversidade. Tens a Príncipe Discos na onda do kuduro e electrónica e também muitos elementos experimentais; depois tens a malta que é mais straightforward techno. Tens muita diversidade, não é só o hype de um sub-género que está a bater durante dois anos e que depois morre. Há muitas pessoas em Portugal a fazer coisas diferentes.

Já toquei duas vezes em Portugal: uma pela Warface no Musicbox – gostei imenso, o pessoal foi muito porreiro e o público foi fixe; e no Desterro – também adorei, foi a primeira vez que toquei em live, pessoal também muito porreiro, é um grande projecto, vê-se pela organização que é cena de amigos e muito caseira, no bom sentido, foca-se muito na música.

Agora começa a surgir mais interesse na Portuguese Dance Music, mas tal não aconteceu antes por vergonha alheia. Está a haver um hype, como é óbvio, mas, por exemplo, a Príncipe Discos receber 30 reviews lá de fora para o pessoal dizer, ‘ena, o kuduro já é uma cena muito a sério’. E quem diz esta, diz outras editoras portuguesas. Há muita hipocrisia e vergonha alheia, embora haja agora mais oportunidades e a malta está culturalmente a evoluir, muito graças também a pessoas que vivem cá durante uns anos e que depois voltam para Portugal com a mentalidade mais livre inglesa, de rave, com a iniciativa de dizer que um puto está a passar boas malhas e que o devemos ajudar. É isso que acontece cá e acontece menos lá. Claro que faço estas críticas, mas a cena portuguesa está a melhorar, o público está a melhorar e, como disse, tive experiências positivas em termos de performance.

Pode ser uma frase um bocado polémica, mas o hip hop tem muito que ver com o techno, mais do que as pessoas pensam. Posso estar a cometer uma gafe, mas, de certa forma, nasceram na mesma altura. As pessoas às vezes não têm noção que grandes músicas de techno foram feitas nos anos 1980 e que o hip hop mais sólido também começou a surgir nessa altura em várias zonas. Tens Detroit, por exemplo, que é muito forte em hip hop e também em techno e ambos têm semelhanças, por exemplo, no underground, no facto de não se venderem, de fazerem uma festa num warehouse em que a malta está lá mesmo para curtir o som e não tanto para o social. Nesse aspecto acho que são muito parecidos. Depois há também uma vertente de loop e de repetição e tripy que tanto encontras no hip hop como no techno e, hoje em dia, em qualquer música electrónica de dança. Para mim, o techno é uma espécie de evolução, já pode ser mais coisas. Para mim, techno é hip hop.

 


 


Hoje ainda faço rimas no gozo, para mim, mas agora também tenho um projecto de hip hop chamado Retarded Temaki e produzi uns beats para o álbum do VILÃO, da ASTROrecords. Estou muito contente com a oportunidade, é uma cultura que respeito muito e acho que, da nova vaga, estão a fazer um grande trabalho. Estilos diferentes, mas no geral estão todos muito fortes – o Mike El Nite, o VILÃO… Respeito muito esses rappers.

Ultimamente tenho trabalhado muito em produção. Vou ter uma remix em breve; também estou a fazer uma música original para uma compilação; em princípio vou lançar um álbum; estou a falar com a editora japonesa sobre o segundo EP; e também estou a trabalhar para um vídeo que vai ser exposto numa galeria aqui em Inglaterra e talvez uma instalação mais em colaboração com uma escultora portuguesa que é a Maria Ribeiro que também está cá a viver e também estou muito contente com isso. Tem sido o ano mais produtivo da minha vida a nível musical.

 


 


Sou um artista muito pequeno e não estava habituado a ter uma ou duas reviews, fiquei logo super contente, e, quando isso aconteceu, gerei logo grandes expectativas. Contudo, através da minha personalidade, eliminei qualquer expectativa de carreira. Quero fazer música com gosto, não quero pensar que tenho de fazer umas cenas mais voltadas para a pista senão não vou ter releases. Não, eu quero fazer aquilo que me apetece. Se tiver exposição, óptimo, obrigado; se não tiver, vou sempre fazer aquilo que quero sem envolver o dinheiro na música. Não faço música a pensar em Portugal ou Inglaterra; faço música porque me divirto imenso. Além disso, sou uma pessoa ansiosa e é uma forma de me acalmar, tenho ataques de ansiedade e é uma coisa que me ajuda muito a serenar. Para mim, é uma terapia-hobby-paixão. Quando começar a envolver dinheiro, então atrairá stress e a música para mim não pode ser stress. Se continuar um artista pequeno sou igualmente feliz.

 

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Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.