Portugal Alive 2018: a “pequena” comunidade que vive entre a Internet e Espanha

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Noemí Sánchez (Madrid) & Kiko Romano (Barcelona)

Viver numa era em que o domínio digital condiciona muito do que se passa no plano físico alterou por completo muitos dos processos a que estávamos habituados. Falando em particular do mundo da música, a equação vai-se descomplicando com o tempo, mas ainda existe um caminho a percorrer. Afinal de contas, as visualizações ou os plays, apesar de terem a sua importância, não têm o mesmo valor que uma ida a um concerto, que, por norma, obriga a investimentos palpáveis. Em dois dias divididos entre Madrid e Barcelona, Capicua, Bruno Pernadas, Surma e Best Youth levaram Portugal na sua bagagem e provaram que existe alguém do “outro lado”. E sim, não são milhões ou milhares, mas existem.

A viagem começou na capital espanhola e, depois da comitiva se instalar, assistimos ao soundcheck de Bruno Pernadas e de Surma numa sala pitoresca do Palacio de la Prensa. Aí, vimos o primeiro vislumbre do espírito de comunidade que se sentiu durante todo o Portugal Alive, a iniciativa do Consulado-Geral de Portugal em Espanha, confirmando também o contraste gigante entre os dois projectos que actuaram nas duas datas desta edição: um ensemble com nove pessoas, liderado por Pernadas, e uma banda de uma pessoa só, Surma.

Estar perante pessoas de outras nacionalidades é tudo menos estranho para a multi-instrumentista de Leiria: num dos “encontros” pós-actuação no backstage contou alguns episódios das suas passagens por países como Alemanha, Estados Unidos da América, Bélgica e Holanda e enalteceu a importância da Internet, que permite o acesso “fácil” de qualquer público à sua música pelo YouTube e outras plataformas de streaming.

Entre o catering generoso, o convívio saudável e a paragem para jantar no Mercado de San Miguel, o tempo passou rápido e, bam!, sem darmos por isso já Débora Umbelino ocupava o seu espaço no palco e embalava (com algum espaço para dança) um público que não enchia a sala, mas que metia respeito. De seguida, Bruno Pernadas, Margarida Campelo, Francisca Cortesão, Afonso Cabral, David Santos, João Pinheiro, Diogo Duque, Raimundo Semedo, e João Capinha ocuparam os seus lugares e transportaram a mesma audiência para um espaço sónico mais colorido, exótico e recheado de arranjos graciosos. Não nos importaríamos de ficar a viver neste conjunto de canções com uma afinada sensibilidade pop. É que soam mesmo a paraíso…

O guitarrista e compositor foi recebido de braços abertos nas duas datas — e até admira que não esteja constantemente em digressões internacionais. A palavra “génio” assusta muita gente, mas Surma não se cansou de utilizá-la para definir Pernadas, um sentimento que parecia ser partilhado por muitos daqueles que estavam declaradamente embevecidos pela música que compôs e que exalta com a força de uma apurada técnica ao vivo. No fim da sua actuação em Madrid, junto à banca improvisada com os discos How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?Those Who Throw Objects at the Crocodiles e Antwerpen, o músico falava com um fã brasileiro que, curiosamente, também estará no Japão na altura em que o autor de Worst Summer Ever levará o seu grupo, do qual não abdica, até Shizuoka. Um mundo pequeno onde Portugal, Brasil, Espanha e Japão flirtam sem qualquer tipo de pudor. Meus senhores e minhas senhoras: a globalização é real e nesta curta viagem não faltaram provas disso. Adiante.

O fecho da primeira noite ficou a cargo de Catarina Salinas e Ed Rocha Gonçalves, dupla que assina como Best Youth. Durante o dia, a banda do Porto esteve ocupada com entrevistas para orgãos de comunicação locais; à noite, o duo trouxe a sua mistura de dream pop com indie rock e puxou pelos galões que a experiência lhes confere, tentando, através de tiradas em espanhol que nem sempre resultaram, uma ligação que não deu faísca, mas que ainda deu para ensaiar um ou outro passo de dança.

 



De Madrid para Barcelona, as três horas de viagem fizeram-se com pequenas sestas, Netflix e debates sobre, entre muitas outras coisas, os Beatles. O bem-estar da comitiva portuguesa estava à vista de todos: os grupos assistiram aos concertos uns dos outros e confraternizaram sem fretes nos intervalos dos mesmos. Um ambiente absolutamente extraordinário e que certamente terá facilitado a execução da missão de erguer bem alto a bandeira portuguesa em terras de “nuestros hermanos“.

Apesar da curta estadia, a distância que separava o hotel, o Pestana Arena Barcelona, dos locais dos concertos permitiu que explorássemos a pé algumas ruas, tomando o pulso a uma cidade com uma energia contagiante. No último dia, e num contexto completamente diferente, mudaram duas coisas: o número de pessoas na audiência e um dos nomes no cartaz (Capicua entrou, Best Youth saíram). Integrado nas festas da cidade, “tipo a D’Bandada daqui do sítio”, segundo a autora de Sereia Louca, a segunda etapa do Portugal Alive “obrigou-nos” a tomar atenção ao que se passava na Plaça de Joan Coromines, mas também houve tempo para espreitar os concertos de Masego e Oddisee, que aconteceram no outro lado do Museu de Arte Contemporânea, na Plaça dels Àngels. Do pouco que pudemos ouvir, a multidão não terá certamente saído desagradada…

A rapper portuense, que desfilou uma série de temas como “Mão Pesada”, “Vayorken”ou “Barulho” na companhia de M7, Virtus, DJ Score e Vítor Ferreira, regressava a um sítio que marcou o seu percurso profissional e pessoal — viveu em Barcelona em duas alturas diferentes da sua vida. Como a única repetente do Portugal Alive, Ana Fernandes desvendou, em conversa com o Rimas e Batidas, as suas conclusões deste acumular de diferentes experiências: “Senti que há uma comunidade portuguesa muito grande aqui, que está com muita fome de receber a música portuguesa alternativa que se faz hoje e que se calhar não tem tanto espaço no circuito que se faz para concertos de imigrantes ou nas grandes salas que recebem fadistas. Portanto, pelo menos na minha experiência, o pessoal de Barcelona tem muito interesse por mostrar músicas de vários países do mundo. E é um público que também não precisa que as bandas sejam consagradas para curtir o concerto. Está a ouvir-te pela primeira vez e vai mostrar amor como se te ouvisse há anos. Isso é uma coisa muito de Barcelona, mas quando toquei em Madrid, no meu primeiro Portugal Alive, também senti que a comunidade portuguesa de lá era calorosa”.

Sobre a diferença para a edição anterior em que participou, a artista, que se mostrou uns furos acima dos seus colegas na interacção com a plateia, acrescentou: “Tocar na rua, ainda para mais numa cidade onde a rua é o lugar da festa, é outra coisa. Ainda para mais no bairro onde eu estudei, onde eu vivi… Senti-me mais em casa.”

Neste último dia de festa, o Portugal Alive imiscuiu-se no BAM Festival, que estava incluído no La Mercè, um grande evento anual que decorre na maior cidade catalã e que este ano tinha Lisboa como cidade convidada. Com muito mais público do que a recepção em Madrid, nem poderia ser de outra forma dadas as circunstâncias, Bruno Pernadas (Lisboa), Capicua (Porto) e Surma (Leiria) pintaram um belíssimo retrato do talento que vai brotando em Portugal, voltando a estabelecer uma ponte que, idealmente, estaria sempre pronta para o intercâmbio de artistas. Se dependia da equipa da edição de 2018, a missão foi cumprida com distinção.