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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/03/2026

O rapper tem um novo disco, o terceiro volume de Fake Is The New Real.

Poetik e a diáspora do rap tuga em Londres: mais de 20 anos a rimar Contra Ventos & Tempestades

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/03/2026

O universo do hip hop tuga é uma complexa rede que se estende através das gerações e do território, de núcleos duros e lobos solitários, de subgéneros e abordagens distintas. Uma das facetas desta vasta teia menos exploradas no espaço mediático é a diáspora do hip hop tuga na Europa. Londres, em particular, tornou-se um bastião importante com um movimento próprio — mesmo que, ao longo dos anos, se tenha diluído por uma série de razões que por vezes transcendem o rap.

Dessa célula activa, um dos nomes preponderantes é Poetik, rapper que lançou um novo disco no início do ano, o terceiro e último volume de Fake Is The New Real. A trilogia começou de forma espontânea através das rimas que publicava regularmente nas redes sociais. Depois de vários pedidos dos seguidores para materializar aqueles temas e os divulgar nas plataformas de streaming, lançou em 2022 a mixtape Fake Is The New Real.

Para o segundo volume, optou por uma abordagem diferente. Desafiou os seguidores a enviarem-lhe os instrumentais onde o queriam ouvir. Poetik escutou as dezenas de propostas que lhe chegaram, muitos dos quais beats emblemáticos da cultura, e fez uma selecção para construir uma série de faixas editadas em 2024.

Fã de trilogias ou de projectos com diferentes sequelas, decidiu-se a chegar ao terceiro volume. Queria manter o espírito de mixtape, mas desta vez usou apenas beats originais. Apostou também nas participações especiais, reunindo históricos como Nel’Assassin e J.Cap, nomes familiares do movimento como KrazyDread ou desconhecidos como Gabi, Danilo, Mel e Josi D.



“O J.Cap para mim é aquele OG, um big bro, cresci a ouvi-lo e já o conheço há muitos anos”, contextualiza Poetik em entrevista ao Rimas e Batidas. “Mas nunca tinha calhado conversarmos sobre fazer uma música. Entretanto, ele convidou-me para entrar num dos episódios do podcast dele [Histórias Não Contadas], que deve sair em breve, e no fim da conversa, as câmaras já nem estavam ligadas, ele vira-se para mim e diz: ‘Fogo, Poetik, a gente já se conhece há tanto tempo, tu estás no activo há tanto tempo e não temos um único som juntos’.”

Poetik disse-lhe que ainda iam a tempo, sobretudo porque estava a fechar o terceiro volume de Fake Is The New Real. “Como conheço mais ou menos o estilo dele, dei-lhe a escolher entre quatro beats, para ele seleccionar aquele em que se sentisse mais confortável. Ele escolheu, gravei a minha parte, enviei, ele curtiu bués… Ele é de uma geração mais velha do que a minha, então quis juntar três gerações diferentes e entrou também o KrazyDread, que veio a seguir a mim.”

Em sentido contrário, procurou dar oportunidades a iniciantes como Gabi, uma jovem brasileira que vive em Portugal, ou Danilo, um jovem cabo-verdiano radicado no Reino Unido. “São pessoas sem experiência no mundo da música, nunca lançaram nenhum projecto, são jovens com talento mas ainda não têm aquela coragem de se apresentarem com projectos seus. Então vou fazer participações convosco para vos ir introduzindo aos poucos. O Danilo até participou no volume 2 também. Está a ganhar mais confiança e o objectivo é eu depois indicar-lhe: ‘Mano, vê se lanças aí um EP, uma música tua sozinho’. Estou a ajudá-los a dar os primeiros passos. Com a Gabi é a mesma coisa. Fui o primeiro a dar-lhe uma oportunidade porque nem ela própria acreditava nela mesmo. ‘Tens uma boa voz, ‘bora fazer aí uma cena, tem de se começar por algum lado’.”

Contudo, a mais especial das colaborações é mesmo uma reunião da crew com que se iniciou neste game. Poetik convocou os seus Freestyle Family e alguns responderam à chamada. A faixa “Family Reunion” inclui versos de Young Max, Cyrus Cryticuz e Legendz.

“Já não fazíamos nada há uns 13 ou 14 anos. A determinada altura, cada membro seguiu a sua carreira a solo e outros já não estão no activo. A vida foi acontecendo e a clique deixou de lançar cenas. Então resolvi fazer esta reunião familiar, contactei vários membros e estes aceitaram o desafio. O pessoal que conhece as minhas raízes, de onde eu venho e a estrada de Freestyle Family… para eles, esta faixa é ouro. É muito nostálgico.”



[Do Miratejo a Londres, erguer a bandeira do rap tuga lá fora]

Mergulhemos então nas raízes. Nascido em Angola em meados dos anos 80, Poetik veio ainda bebé para a Margem Sul. A família instalou-se no Miratejo, um subúrbio onde o hip hop abundava, um dos principais epicentros da cultura no país. O seu primo mais velho até era um dos responsáveis — Gutto, dos Black Company

“Lembro-me de o Boss AC ir a casa da minha tia, quando o Gutto e os outros Black Company faziam os ensaios na garagem da minha avó Maria. Eram bués, parecia que os Black Company eram uns 30. Não eram um grupo de rap, era um movimento. De certeza que havia lá gajos pendurados que eram só do bairro e estavam lá para dar aquele sangue, mas as minhas primeiras memórias foram essas”, recorda Poetik.

“No Miratejo havia sempre rodas de freestyle. Há dois grandes pontos de referência. A Praça, onde depois fizeram um Lidl, e o ringue de futebol. O pessoal encontrava-se em frente ao ringue e era competição de freestyle, battles, mas vinha pessoal de bué zonas da Margem Sul e de Lisboa. Eu passava as minhas tardes a jogar à bola porque era fanático, mas quando havia essas concentrações lá me tentava pendurar para assistir ao que se passava. O Miratejo tinha bué rappers e grupos. Nem todos sobressaíram ou ficaram conhecidos, mas a cada esquina que virasses no bairro, parecia que havia um grupo ou uns rappers. Lembro-me de estar com o Gutto e o AC na casa da minha tia em Fernão Ferro, quando eles estavam a fazer a compilação TPC e a mostrar-me as músicas no carro. Foi a primeira vez que ouvi o Sam The Kid.”

Como principais influências, além dos já citados Black Company, Boss AC, J.Cap e Sam The Kid, aponta nomes como Valete, Regula, Kilu e Allen Halloween. Também era fã do hip hop norte-americano dos anos 90, a geração de Wu-Tang Clan, Mobb Deep, Bone Thugs-n-Harmony, Big Pun ou Tupac Shakur.

Durante a adolescência, no final da década de 90, Poetik emigrou para Londres. As suas primeiras experiências a rimar aconteceram por volta de 2002, mas foi em 2005 que se juntou a outros para formarem oficialmente o colectivo Freestyle Family. Eram angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e portugueses a viver em Londres, numa diáspora lusófona. “E quando íamos a Portugal conseguíamos abranger várias zonas porque alguns de nós éramos da Margem Sul, outros eram da Linha de Sintra, outros de Lisboa. Essa dinâmica era muito fixe.”

SP Deville (que depois, no regresso a Portugal, teria impacto em dupla com Wilson), Young Max, Cyrus Critikuz, Legendz, Tempo, Ginja Man, BigKryz, Pako B, Master Li, Dee-V, Crash, Young Prince, Barbie e Lexi foram os membros do grupo ao longo da sua existência. “Éramos uma espécie de Wu-Tang, muitos membros e afiliados”, conta. “Começámos mesmo nos freestyles e vários de nós éramos família. Por exemplo, o SP, o Crash e o Tempo são primos. Eu e o Pako B também somos primos.”



Moravam quase todos na mesma zona da capital britânica, Stratford, então estavam próximos geograficamente mas também unidos pela língua e pelas referências culturais partilhadas. Poetik até começou por rimar em inglês, mas ao sentir-se uma “ovelha negra” por os companheiros preferirem o português, acabou por adoptar também a língua materna. “Tenho mesmo de caprichar no meu português porque não posso ficar para trás.” Embora estivessem instalados no Reino Unido, viam-se como parte do movimento hip hop tuga e a referência internacional continuava a ser a América, numa era pré-grime, antes da explosão meteórica de um rap britânico com identidade própria.

Dinamizavam um movimento em Londres, um enclave do hip hop tuga em terras de sua majestade. Entre 2009 e 2010, começaram a organizar batalhas de rua na cidade. “A comunidade PALOP foi aumentando, surgiram mais pessoas que faziam rap e era tudo de boca em boca”, recorda. Inspirado pelos S.M.A.C.K. DVD gravados em Nova Iorque, Poetik propôs-se a fazer o mesmo na capital britânica no seio da diáspora, registando interacções no contexto do hip hop, pequenos testemunhos, freestyles e batalhas.

“Vou pegar numa câmara, vou arranjar MCs que queiram fazer battles uns com os outros e fazer algumas entrevistas e freestyles.” Como em tantas outras histórias do género, a maior parte das filmagens captadas por Poetik acabaram por se perder, mas sobreviveram duas batalhas que chegaram à Internet. Numa delas, Prodígio, também ele radicado em Londres na altura, troca rimas com outro MC, Evandro. Na outra batalha disponível, Young Max é um dos protagonistas ao enfrentar Sweet Poison.



Enquanto Freestyle Family, lançaram uma mão cheia de mixtapes entre 2009 e 2014. Pelo meio, tal como outros dos membros, Poetik foi lançando projectos a solo, estreando-se em 2011 com a mixtape Contra Ventos & Tempestades. O disco incluiu colaborações com NGA, Prodígio ou Fizz. “Na altura teve uma boa adesão, um forte impacto.” Faixas como “Carochos do HipHop”, “Boyz da Margem” ou “Do UK à Tuga” tornaram-se das mais populares.

Faziam os seus próprios concertos dentro da comunidade e procuravam abrir os espectáculos dos grandes artistas PALOP que se deslocavam a Londres para actuar perante a diáspora. Foi assim que os Freestyle Family abriram para Anselmo Ralph. “Lembro-me de ver os Kalibrados ou o Nelson Freitas cá também. Nós tentávamos sempre arranjar um furo para abrirmos os espectáculos deles, mesmo que não fosse rap. Só queríamos dar o tudo por tudo de aparecermos e mostrarmos o nosso talento, porque na altura o pessoal aqui não levava o rap a sério e nós tentávamos remar contra a maré.”

Fizz, Xakal da Gun, Kapone, J.Cap ou Malabá foram alguns dos que moraram em Londres naquela época e acabaram por se movimentar nos mesmos circuitos. Aliás, chegou a ser criada uma crew alargada, Afro-Tugas UK, por membros dos Gregus du Shabba e rappers como Fachadaz. “Apesar de não sermos muitos, sentia-se que havia um movimento. Mesmo na diáspora, sempre erguemos a bandeira do rap tuga, sendo PALOP ou não, independentemente das nossas raízes. Mas sempre foi remar contra a maré, Contra Ventos & Tempestades, porque, ao estarmos na diáspora, quase ficávamos esquecidos. Se para os rappers que estão no terreno é o que é, imagina para nós na diáspora, é 10 vezes mais difícil. Torna-se fácil caíres no esquecimento. Tínhamos que viajar para Portugal várias vezes por ano para estar em spots que a gente sabia que ia haver um concerto de rap, para marcarmos a nossa presença.”

Com o passar do tempo e o aparecimento de novas gerações, o movimento na diáspora e a identificação com o rap tuga diluiu-se. As grandes referências passaram a ser britânicas, o género massificou-se e muitos descendentes de PALOP — IAMDDB, Blanco ou Ambush Buzzworl, todos de origem angolana, são bons exemplos — passaram a rimar em inglês e a enquadrar-se no mercado britânico. “A nova geração está mais inclinada para o mercado de cá, já não existe essa bandeira do hip hop tuga ou PALOP, as coisas mudaram muito.”

Quanto ao futuro, a título pessoal Poetik assume estar “com a pica toda”. “Deixo os sons acontecerem de forma espontânea, posso ir gravando e depois vou estruturando o que é que se enquadra onde. Não posso dizer que a seguir vou lançar um álbum, porque de repente dá-me na telha e lanço um EP com cinco faixas. Ainda estou a pensar se dou continuidade ao Contra Ventos & Tempestades, mas como é um clássico, talvez não queira tocar nisso para não estragar [risos]. Talvez mais valha começar outra cena.”


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