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Podemos falar sobre Logic?

[TEXTO] Samuel Pinho [FOTO] Greg Berg

Todos nós – até os mais acérrimos defensores da boa máxima de não julgar pela aparência – tiramos conclusões precipitadas com base no que os nossos olhos vislumbram: é uma triste inevitabilidade. Ainda que não o exteriorizemos, esse reflexo é instintivo. Deixem-me ser claro: ao ver a figura de Logic pela primeira vez, e sem nunca o ter ouvido, pensei em algo parecido com “quem é este beto loiro, de olhos azuis, postura e corpo de adolescente e com ar de nunca ter vertido uma pinga de suor?”. O problema agravou-se quando parti em busca da sua identidade, o que pouco ou nada serviu para desmontar o estereótipo em que inicialmente caí: Sir Robert Bryson Hall II é o nome (verdadeiro) que consta da identificação do rapper nascido, crescido e maturado em Maryland, estado americano situado a 40 minutos de Washington D.C..

Até para nos irmos situando, convém referir que vivia num bairro denominado West Deer Park, conhecido pelos piores motivos: quase 25% da população que aí vive, fá-lo abaixo do limiar da pobreza. Agora imaginem o relato de infância mais dramático que já tiveram o desprazer de escutar, elevem-no ao cubo e multipliquem por 5. Está? Agora atentem aos primeiros anos de Logic. Com um pai afro-americano – nativo de Maryland – e uma mãe caucasiana, Logic herdou a tez clara da segunda e nada mais. O pai – desde sempre viciado em crack – cedo cessou de prestar auxílio nas lides familiares e a mãe – racista de gema, até usava a “n word” ao referir-se ao próprio filho – tentou estrangulá-lo ainda em bebé. Mais?

 



Os irmãos produziam e vendiam crack (por vezes ao próprio pai), a mãe prostituía-se dentro de portas e a presença de armas em casa era uma constante. Assistiu a acesas discussões entre a progenitora e outros homens, soube-a esfaqueada, violada e presenciou alguns banhos de sangue, nomeadamente na própria cozinha. Já estão refeitos?

Ninguém adivinharia toda esta odisseia só de o ouvir: Logic ostenta princípios nobres enquanto propaga um positivismo e boa-disposição absolutamente contagiantes. É difícil ouvi-lo sem que esteja a sorrir e isso, por si só e cardápio musical à parte, é admirável.

Não espanta que toda a obra seja baseada numa história verídica: a dele, que arrepia até os mais assíduos paladinos da ghetto life, dos tiros e das facas, das dificuldades e dos obstáculos. A verdade é que o relato fiel deste miúdo de 27 anos faz corar até o amante de mais fervoroso de bragadoccio puro. E isso não é coisa pouca. Então porquê as queixas remetidas pelo próprio, aquando do lançamento do seu álbum de estreia?

 


“The cool kids don’t fuck with me”


Há muito que o hip hop serve de veículo a críticas sociais incisivas, adoptando mesmo um papel central na sublevação étnica e na luta face ao racismo e à segregação racial: até os músicos com menos queda ou aptidão para os tópicos sociais parecem fazê-lo.

Porém, e num género musical predominantemente dominado pela raça negra, façamos o exercício inverso: onde estão os rappers brancos? Podemos sempre usar-nos do lugar-comum habitual: “não possuem qualidade!”, o que representa uma falácia argumentativa quase tão falhada como apontar que as mulheres não ocupam mais cargos administrativos por não terem capacidades para isso.

 



A única presença assídua – a solo – na extensa lista de vencedores de Grammys é a de Eminem. E visto os prémios da indústria musical estarem longe de ser representativos do que pela América se vai fazendo, até dou o benefício da dúvida e lanço o repto: atirem-me 2 intérpretes com métricas de sucesso visíveis e donos de uma base de fãs alargada e heterogénea. Eu sei em quem estão pensar: querem mesmo contar Macklemore como rapper? Ainda assim, fica a faltar-nos um e até concebendo que o conseguem não há como negar a dificuldade do exercício. Numa indústria tão célere na hora de visar injustiças, tão pronta na crítica acérrima a preconceitos estereotipados, não haverá um quê de contra-senso nas idiossincrasias que permitem – ou não – a entrada de novos artistas nos círculos mais superiores da música, e mais concretamente do género?

A verdade é que Logic nunca abdicou da sua independência ou do seu modus operandi: é vinculado desde sempre à label independente Visionary Music Group e conta com a Def Jam apenas para efeitos de distribuição dos álbuns. Conta três: Under Pressure (2014, Ouro), The Incredible True Story (2015, Ouro) e Everybody (2017 e o Ouro da Recording Industry Association of America deve estar para breve). O que dizer de um rapper que vende álbuns como poucos, esgota todos os concertos da última tour e ainda assim não se vê integrado no meio? Aos 27 anos e com álbuns lançados (3 before 30) está a resistir à forma como a indústria efectivamente funciona. Como? Vendendo álbuns sem ter um single que “bata” nas rádios ou um banger típico de club nocturno.

Pelo caminho, Nas tentou assiná-lo, Lupe Fiasco aponta-o como sendo liricamente melhor que Lamar e Logic refere que nunca foi tão feliz como o é agora. No que à música propriamente dita concerne, a ementa é vária e o último álbum assemelha-se a uma obra-prima, daquelas que levamos largos anos a saber ler e valorizar por completo; assente numa premissa de omnipresença, em que o rapper se coloca na pele de outras pessoas quando não veste a sua própria, o resultado é uma delícia.

Everybody é liricamente poderoso, musicalmente harmonioso e um exercício memorável de storytelling. Logic é cada vez mais um caso raro e arrisca transformar-se num caso sério.

 


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