pub

Fotografia: Sebas Ferreira

Um triunfo magistral sobre o cada vez menos camuflado processo de segregação e marginalização.

Plutonio no Coliseu de Lisboa: amor plutónico

Fotografia: Sebas Ferreira

Sexta-feira, dia de São Valentim. Coliseu dos Recreios ao barrote e equilibrado no que ao género diz respeito, com elevada concentração numa específica faixa etária. A noite perfeita para a sagração ao vivo de Plutonio, desenhada a régua e esquadro, pensada ao pormenor. E prova disso será a forma como aterram na plateia canções como “1 de Abril”, “Última Vez” e “Somos Iguais”. Mas lá chegaremos. Antes disso, espaço para um desfile de imagens em formato documental centradas em Sacrifício: Sangue, Lágrimas, Suor, o recentemente editado álbum do rapper do Bairro da Cruz Vermelha, pretexto para esta apresentação ao vivo na mais nobre casa de espectáculos lisboeta. Ouvem-se vários depoimentos, alguns deles retirados de cenários adversos, e testemunha-se o passado do anfitrião até ao momento em que o trailer atinge o derradeiro segundo e a tela foge em direcção ao céu e deixa a nu um cenário de recorte minucioso. Lá chegaremos também.

“3AM”, a canção da frase “não se passa nada”, é a primeira a aterrar no pavilhão auditivo. Plutonio entra em cena como um furacão devastador, entregando as suas rimas com confiança e determinação, próprio de quem tem a noção da importância desta sagrada oportunidade — afinal de contas, esta é a primeira vez que pisa o palco do Coliseu em nome próprio (já o havia feito em 2015, mas inserido no festival Hip Hop Sou Eu). Atrás de si, um verdadeiro esquadrão musical, repartido entre baterista, baixista, guitarrista (também responsável pelas vozes secundárias), teclista e DJ. São eles a sólida viga que sustenta o desempenho do rapper, contribuindo com a dose necessária de melodia e ritmo para que os versos viajem envoltos em coesas e claras construções instrumentais (em “Francisca”, por exemplo, surge em palco um violoncelista, como forma de dar ênfase às palavras dedicadas à sua filha).

Na retaguarda de palco, um cenário esculpido ao milímetro alude ao Bairro da Cruz Vermelha. Há uma porta escancarada, por onde entram e saem os protagonistas da noite, janelas entreabertas, cabos suspensos em postes de electricidade, com um par de ténis pendurado sensivelmente a meio do entrelaçado de cobre, antenas parabólicas, um grafitti em letras garrafais e até a representação do Café Real, emblemático estabelecimento, com mais de 40 anos de existência, que se tornou num dos símbolos locais. Entre a banda e o monumental paredão de recorte residencial estão duas mesas e uma série de cadeiras, nas quais, nos primeiros minutos da prestação, uma mão-cheia de figurinos se senta para simular uma cartada. Por cima, um conjunto de luzes robotizadas desenha o código postal da zona, 2765, algarismos que o músico há muito carrega orgulhosamente ao peito. É natural que esta evocação bairrista dê mais ênfase a canções como “Mesmo Sítio”, “Lucy Lucy”, “Sacrifício”, talvez um dos maiores estandartes da sua vivência, e a jocosa “Sr. Guarda”, que teve direito a dança como no vídeo oficial.

O simbolismo é evidente. Não se trata apenas de uma simples reprodução de um ambiente que lhe é familiar. É como se o bairro se tivesse deslocado da periferia até ao coração da babilónia para um triunfo magistral sobre o cada vez menos camuflado processo de segregação e marginalização. A metáfora casa na perfeição com as rimas resgatadas da rua e os discursos de superação de Plutonio, que a dada altura do concerto chega a incentivar os presentes a perseguirem os seus sonhos e, sobretudo, a deixarem um bom exemplo para as crianças, isto em contexto de “Dramas & Dilemas”. É notável e exponencial o crescimento de Plutonio, longe do mero acaso ou intervenção divina, espelho da luta que evoca em Sacrifício: Sangue, Lágrimas, Suor, título resgatado ao maior clássico discográfico de Chullage, um dos seus mais importantes pontos cardeais a nível de inspiração.

O público traz a matéria muito bem estudada e não poupa na altura de acompanhar o rapper de ascendência moçambicana, cooperando não só nos refrões cantados mas também nos versos de rima corrida. Contudo, é na tríade “1 de Abril”, “Última Vez” e “Somos Iguais” que se sentem as mais evidentes manifestações entusiásticas pré-encore, materializadas num coro a uma só voz. É Dia dos Namorados e a sinergia é infalível. Não haveria melhor contexto para a faceta de amores e desamores de Plutonio surtir efeito.

A euforia repete-se na recepção aos convidados especiais. Primeiro Lord XIV, que deu voz ao recentemente estreado single “Paycheck”; depois Kosmo, com “Filhos do Ghetto”, retirado de Histórias da Minha LifeDengaz, com “O Que É Que Tem?”, bandeira de Preto & Vermelho; Pedro Teixeira da Mota, numa supersónica aparição em circunstância de “Vergonha na Cara”, vídeo no qual participa; e, por fim, uma autêntica reunião da Bridgetown, com Mishlawi e Richie Campbell a tomarem o palco de assalto para dar, em conjunto com Plutonio, voz a “Rain”, single de 2018.

Espaço ainda para ouvir “África Minha”, belíssima canção partilhada com Bonga na versão de estúdio – o “cota” Bonga, como lhe apelidaria – e, já no encore, para uma sentida entrega de “Meu Deus”, com direito a lágrima no olho e aplausos na plateia (o músico não escondeu a felicidade ao ver um Coliseu a abafar por completo o som debitado dos altifalantes), seguida de uma efusiva festa ao som de “Cafeína”, o single que colocou Plutonio nas bocas do mundo, onde não falta a abertura de um corredor no centro da plateia para tirar o pulso ao público (primeiro o lado esquerdo, depois o direito, e vice-versa) e, claro, o momento em que ambas as facções se unem na celebração. Festa rija.


View this post on Instagram

@plutonio2765 Coliseu Lisboa

A post shared by pluma (@pluma.pt) on

pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos