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Publicado a: 14/08/2018

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[TEXTO] Nuno Afonso

Devo começar por informar, em jeito de nota introdutória, que faz tempo que este texto deveria ter saído. Talvez tivesse sido mais oportuno, de um ponto de visto editorial, tê-lo pronto logo após o lançamento do disco, mas nem sempre a vida mundana e as obrigações profissionais andam lado a lado com os nossos planos pessoais. Porém, de um modo algo acidental, este atraso de compromisso permitiu-me percorrer Die Lit com especial dedicação. Mais do que uma escuta prática, de analisar o álbum, cruzar ideias e relações, a verdade é que se tornou numa banda sonora diária, ou por outras palavras, numa companhia constante. Esta ligação com um disco é algo de mágico e raro nos dias que correm em que a audição musical tende, de forma geral, a ser cada vez mais superficial, despegada e infinitamente menos vivida.

Factos consumados no processo: Die Lit é uma obra maior em 2018 e Playboi Carti é um dos rappers mais originais do nosso tempo. Paira por aqui uma visão de rap que, não sendo propriamente inovadora, é certamente única pela forma como ser apresenta. A aglutinação destes pontos desenham-no como uma das maiores estrelas do nosso tempo e bastará uma breve incursão pelo mundo online para entender melhor a projecção, devoção e respeito de que o jovem Carti usufrui neste tempo presente — e, já agora, o futuro também parece ser definitivamente seu. O termo vanguarda acarreta quase sempre um certo academismo e adversidade à esfera mainstream, mas é fascinante perceber como Die Lit, um dos trabalhos mais experimentais destes meses, consegue aportar um léxico tão desprendido de lugares-comuns e de uma expressividade tão rica e surreal. Carti não fica um passo atrás do futurismo dos Shabazz Palaces, da liberdade estética de Lil B ou da bazófia dos saudosos Clipse; no entanto, temos gente mediática como Kanye West, Drake, Frank Ocean ou até mesmo a revista GQ a celebrá-lo publicamente. Carti parece omnipresente, com o mundo a seus pés, e nada disto é gratuito.

Com um passado ligado à fantástica label/crew Awful, actualmente é peça chave da AWGE, editora da A$AP Mob. Foi, contudo, a mixtape homónima de 2017 que o colocou num horizonte maior. Em especial, com o tema “Magnolia”, um daqueles momentos musicais que surgem para conquistar o epíteto de clássico instantâneo (e foi mesmo, desfilando nas tabelas da Billboard, recolhendo distinções, surgindo nas playlists mais inesperadas das rádios e gerando um frenesim geral na escrita musical internacional). Mas havia por lá muitos mais exemplos do ouro que Carti andava a manufacturar e cerca de um ano depois, olha-se para esse disco com o mesmo sentimento de encanto e diversão que provocou no primeiro encontro.

 



Com Die Lit, a matéria atinge outra dimensão, consolidando o seu universo e indo mais além. Põe em cima da mesa os seus trunfos e traz temas tão minimalistas quanto hipnóticos. Cria um álbum  que flutua em nuvens de néon e THC, reunindo colaborações estelares com Young Thug, Travis Scott, Lil Uzi Vert, Skepta ou Nicki Minaj. Uma vez mais, não se espere aqui uma lírica complexa ou técnica apurada nas rimas. A natureza crua, básica até, das letras que inspiram a sua voz é o resultado de uma abordagem mais centrada na criação de um ambiente em movimento do que numa canção no sentido mais tradicional do termo. Uma característica nem sempre compreendida e aceite pelos ouvidos mais puristas no género, o que o tem tornado um artista controverso no meio.

Os mantos instrumentais são sedosos e transpiram um psicadelismo doce, evocando, a espaços,  as lições de Clams Casino, Main Attrakionz ou até Boards of Canada. Mas por detrás das estórias de Carti encontra-se um mago gigante, merecedor de mais atenção e fervor. Pi’erre Bourne é o alquimista na sombra, autor da maioria das faixas. A química entre ambos é simplesmente perfeita. Ressalta a partilha de uma atmosfera abstracta, onde as onomatopeias extravagantes do MC se alojam nos beats oníricos de Bourne e um claro sentido de diversão no que se faz e se escuta.

“Long Time” é a entrada ideal para um álbum que se edifica em torno de uma brilhante vibe ongoing. Há muita melodia presente, repetições frequentes nas vocalizações e por vezes o exercício de criação em torno de ideias imensamente simples, torna-o um trabalho desafiante. “R.I.P” assemelha-se a um parque de diversões envenenado, uma ponte improvável entre a radiação do trap e a luminosidade da pop, com graves cortantes e quatro notas num MIDI, a mostrar como se compõem um banger com pouco, muito pouco. Já em plena estrada, Lean 4 Real é traz aquela brisa enigmática de início de noite em que Skepta acrescenta uma tonalidade cromática, eficaz e inteligente, bem atenta à essência psicótica do tema. O primeiro milagre de Die Lit chega com “Old Money”. Escuta-se, antes de mais, o tag “Yo Pierre, wanna come out here(numa óbvia alusão ao comparsa criativo, usada também em “Magnolia)” para logo entrarmos num jogo de palavras ao estilo Carti: “old swag/new flow/old flow” em loop e em direcção a um discurso autobiográfico . Isto adornado pela beleza da constância melódica de fundo. São apenas dois minutos e quinze segundos, todavia sentimo-nos a flutuar sobre o mundo. Que melhor oferta?

“Love Hurts” visita o lado mais introspectivo do bairro Die Lit, a demonstrar o motivo porque Travis Scott surge aqui e não noutro instante do álbum. O efeito vocal pode dividir opiniões, mas fica para registo uma das melhores colaborações nos últimos tempos. Em “Shoota” Lil Uzi Vert aparece para um tema inusitado, como se ambos estivessem numa prova de champanhe na Disneylândia (descrevê-lo é outro exercício, tão ou mais insólito). A possibilidade de resultados é algo real, cujo valor para nós é imensurável.

O flow de verão tardio volta a radiar em “Right Now”, aquecendo o cenário para “Poke It Out”. É aí que escutamos um dos temas fortes, mas é aí onde também o grau de tolice atinge uma aura de genialidade. Minaj é a convidada de luxo que se junta a Plaboy Carti para uma festa de espuma num qualquer terraço de um loft nova-iorquino. Ou pelo menos é assim que imaginamos a feitura desta maravilha que resgata um sorriso maroto a qualquer incauto. “Home (KOD)” é mais uma peça de extensão do que se tem vindo a escutar ao longo do álbum, funcionando como ponte para a ode transcendental que se segue intitulada “Fell in Luv”. Uma intensa infusão de dopamina para o cérebro, transpirando elegância e cor. Puro MDMA em forma sonora, imensamente deslumbrante. “Foreign” e “Pull Up” são entretanto dois irmãos siameses, pujantes e alucinados que abrem caminho a outra balada trap dedicada a uma celebridade. É ao lado de Chief Keef que lança os versos “Miley Cyrus, catchin’ bodies / Don’t care, that pussy goy some mileage, mileage”. O que poderia ser considerado ofensivo ou de mau gosto (bom, talvez o seja) é aqui retratado com uma doçura e delicadeza na música, abrindo portas a uma certa crítica humorística, ainda que estranhamente ternurenta — e só escutando a faixa é possível entender melhor a ideia. “Middle Of The Summer” e “R.I.P Fredo” são dois outros destaques evidentes até ao final do álbum, como últimos os rebuçados antes de fechar a caixa.

Sinal dos tempos, Die Lit não tem, para já, edição física. Reúne com bravura dezanove temas em puzzle, sem nunca o realmente concluir. Talvez esse caminho aberto seja então uma inevitabilidade ou a melhor resolução possível para alguém que cria das ruas, rumo ao céu. Se alguém vos perguntar de onde tem surgido alguma da música mais transgressora do momento, pensem em muito do rap actual e — porque não? — neste incrível documento. E não se esqueçam que o bilhete para esta viagem é somente de ida. Afinal, quem vai querer voltar depois disto?

 


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