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Fotografia: Ana Viotti

Novos arranjos, novas dimensões e novas plantas.

Plantasia por Moullinex e Pernadas no Jameson Urban Routes: o engenho na hora de explorar um objecto sacralizado

Fotografia: Ana Viotti

O timing para a realização deste concerto não poderia ter sido melhor: a obra de culto de Mort Garson, compositor norte-americano, foi reeditada (oficialmente) este ano. Depois de um crescimento exponencial de popularidade no YouTube, o álbum, que nos idos anos 70 era oferecido a quem comprava uma planta, mereceu atenção da Sacred Bones Records, que disponibilizou novamente Mother Earth’s Plantasia em formato físico e nas plataformas digitais.

À época, ou seja há 40 anos, produzir um disco na íntegra num sintetizador Moog era algo digno de nota – ainda era uma tecnologia em crescimento, no interesse, na popularidade e no uso. Original, único, mas não podemos deixar de considerar Plantasia consideravelmente datado – reparamos especialmente nisso ao ouvir algumas melodias que não envelheceram tão bem, como foi o caso de “You Don’t Have To Walk A Begonia”. Apesar disso, os grooves e texturas representam o tipo de música easy listening/ ambient impossível de ignorar.

O público jovem, interessado e conhecedor que esgotou o Musicbox era o argumento contra o passado vincado do disco, que viu o seu alinhamento ser retratado sem desvios ao nível da ordem das canções. O cantado (mesmo sem voz) tema de abertura “Plantasia” ditou o tom do espectáculo imaginado por Moullinex e Bruno Pernadas, com uma apropriada reacção enérgica que se manteve durante todos os momentos — a entrada de melodias e ritmos foi constantemente absorvida e reflectida em aplausos, danças e assobios.

Sentimos a diferença (e a importância) do arranjo logo nas primeiras faixas. Houve uma intensificação dos grooves e da potência rítmica – inicialmente compostas por Mort Garson – pelas mãos de Diogo Sousa, e na edição de 1976 o único instrumento a ocupar essa função rítmica é o baixo. O baterista, mesmo na regularidade do minimalismo de Plantasia, arranjou espaço para fazer crescer a dinâmica em conjunto com os seus companheiros. Da flauta para o trompete, do baixo para a bateria, de sintetizador em sintetizador, foram-se percorrendo as melodias do álbum, desdobradas em arranjos instrumentais mais complexos e também mais acústicos. A versão original peca, entre muitas aspas, pela sua monotonia tímbrica e simplicidade melódica: afinal de contas, são essas mesmas qualidades que lhe atribuem um significado tão especial. Esta reinvenção protagonizada pela dupla portuguesa revelou como Plantasia, intocável à partida, estava só à espera de um arranjo mais exploratório para ganhar uma outra dimensão.

Lá em cima, a poucos metros de nós, oito mãos divididas por vários sintetizadores: Luís Clara Gomes, com um sintetizador e um baixo, segurava o volante do barco para que, em certas ocasiões, Bruno Pernadas pudesse solar mais à vontade na sua “máquina”, como no caso de “Baby’s Tears Blues” — o autor de How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge? dividiu a tarefa de criar as melodias com Gui Salgueiro e Diogo Duque na maioria das vezes. Em alguns momentos, a apresentação (devidamente embelezada com várias plantas em palco e um guarda-roupa com especial enfoque no cor-de-laranja) demonstrou ambientes mais espaciais, mais próximos da época em que o disco foi feito, mas noutros modernizou o registo de Plantasia, aumentando as dinâmicas, dando mais força aos graves e até puxando para batidas vindouras do techno e do house num 4-to-the-floor empregado por baixo de melodias “kraftwerkianas” ou mesmo ambientes paradisíacos, como em “Swingin’ Spathiphyllums”. “Mellow Mood for Maidenhair”, mais serena, terminou num jogo com o delay que destoou com a harmonia da faixa; a passagem para “Music to Soothe The Savage Snake Plant” foi preenchida por rasgos ambient mais espaciais e de design cinematográfico mais complexo.

No fim, o ensemble tocou de novo o tema inicial do álbum para despedida, que mereceu uma ovação bastante entusiasmada — se isto foi pensado como um evento irrepetível, é possível que já se esteja a repensar essa decisão… Desta forma, duas conclusões positivas sobre a noite de ontem: 1) o encontro entre Moullinex e Pernadas tem de acontecer sem versões de canções de outros para tocar; 2) a flora de Mort Garson, pelos vistos, ainda tinha muitas espécies de plantas por descobrir.

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