PISTA no Musicbox: a desfrutar do que resta do Verão

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Vera Marmelo

Uma das funções do jornalismo musical, a de documentar a cultura sonora e quem a produz e recebe numa época, só se activa muito depois de se limpar o suor do palco. À hora de publicação, uma reportagem vale pela curiosidade do veredicto; em 10 anos, torna-se um ponto para comparação, num tribunal que dita a regressão ou a evolução; em 20, é museologia e pó; em 40, é uma era cristalizada. Nessa altura, quando fizerem o levantamento destas peças sobre a gig scene portuguesa, que não vos escape o pormenor que a define: nada começa a horas.

Não que os atrasos sejam inerentemente maus: são ajustados ao público que somos, depositado a conta-gotas, a cada minuto que ultrapassa a abertura de portas. De modo que, feito o cômputo, só temos que desmistificar a ansiedade de chegar tarde: não vale a pena! Quarenta minutos depois — os PISTA, rapazes do Barreiro (Bruno Afonso na bateria e Cláudio Fernandes e Ernesto Vitali nas guitarras; cores garridas nas camisas), alegadamente tinham acabado de chegar — o auditório do Musicbox é ainda uma minúcia. Há-de se arredondar, talvez, a uma centena. Isto nada tira aos PISTA, que dão baile para cem ou mil, encorajados por um novo disco de bela envergadura, e um convidado de honra. É com ele que a banda dá as boas-vindas a um trabalho cuja polpa veraneante, sob o vector da highlife e uma moldura rítmica cobrada aos Throes + the Shine, não é ruptura alguma. Nesse sentido, é mais Wanga do que Enza nas suas flutuações caloríficas; globalmente, é consentâneo com os tempos áureos da Afro-Lisboa. Sem serem novidade, também não são redundância; o trabalho é sólido e envolvente, boa extensão do Agosto quente que nos fugiu.

Alex D’Alva Teixeira está na dianteira, coordenadas em que é habitual. Logicamente metade dos D’Alva, recentemente metade dos algumacena (com Ricardo Martins); da última vez que agraciou o Musicbox, conduzia o duo seu homónimo à apoteose que quase lhes fugia — depois da recepção em surdina a Maus Êxitos, alguma da pop mais fina de 2018, que se escapuliu à rádio. Presença magnética, ímpar, comandou uma sala ao paroxismo geral. Voltou na qualidade de colaborador, malgrado seja difícil reconhecer-lhe esse papel secundário. Contribui com a electricidade nas primeiras três músicas: duras, sem tempo para brincadeiras, parede sónica a crescer. É o concerto de apresentação de quê, mesmo?

O modo Ocreza será instituído quando Teixeira os deixa, lançando-os na plenitude tangida e saborosa de “Galapinhos” ou “Na Branca Neblina Parte o Cavalo Desalmado” (“o que é que quer dizer?”, alguém grita, para ouvir a resposta “sei lá”). Volta pouco depois para prometer a sua despedida, vindo dançar no nosso remoinho, quebrando esse voto numa questão de minutos. E lá vai ele, magicando pontos altos da noite em “Sal Mão” e “Campipraia”, sem um átomo de tédio Não foram registadas queixas, embora o quebra-cabeças surja: para quando o casamento oficial?

Que a banda sonora da casa continue com Fogo Fogo e Bulimundo é a caneta a mover-se sozinha. As corpulentas toadas de Ocreza descobriram uma intersecção entre a florescência indie dos últimos anos transpõem a sua beleza gravada para o momento ao vivo, à luz de um baile generoso — e na alimentação de sons não inteiramente novos, fundamentam a sua existência ao elaborá-los em algo consistente, com safanões q.b., e que sobreviverá na pista. Ao final do dia, são o produto de uma era, uma aposta segura para os nossos dias — mas como se poderão distinguir? Um cenário de resposta está nos “Boys” que encerram o disco, em que uma ginga comum é roubada de chofre pela ópera dantesca de Vasco Araújo. De repente, não sabemos onde estamos, e tudo se subsume numa luz vermelha e um olhar aterrorizante.



A noite transita para nova edição da Musicbox Heineken Series, com um primeiro e exímio set de Sheri Vari — Mariana Cruz, originária da Covilhã e nome conhecido da noite lisboeta há uma década — a abrir para a estreia da sul-coreana 박혜진 park hye jin

A perspicácia na selecção de uma das DJs e produtoras mais efervescentes dos últimos tempos mostra que algo de muito bom se passa com a programação lisboeta. O relógio passava as duas da manhã quando se deu o passar de testemunho; a inexpressiva hye jin trocou as pens no Pioneer DJ e de imediato arremessou-nos na direcção de uma house expansiva, sequenciada com brio (não espanta, sendo residente na discoteca Pistil em Seoul) e inteligência. Na recta final, mune-se de um microfone para pôr em evidência o belíssimo EP IF U WANT IT: o som de um raio de luz, um laser cândido a bater nos vidros, a entrar pela discoteca. A assertividade da faixa-título, o minimalismo eufórico de “I DON’T CARE” e a piano house de “ABC” que é reinventada pelo ângulo da felicidade. “A: I love you/ B: I want you/ C: I miss you” — quem esteve no Musicbox nesta noite recordará um dos mais plenos, perfeitos e egrégios sets de todo o ano.


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