Pierre Kwenders: “Apaixonei-me por Lisboa”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Philippe Richelet

Pierre Kwenders acaba de ser anunciado como mais uma valorosa adição ao cartaz do Super Bock Super Rock. O cantor canadiano e ascendência congolesa tem vindo a causar justificadas ondas de entusiasmo onde quer que se apresente ao vivo: passou recentemente pelo South By Southwest, em Austin, no Texas, e no passado mês de Fevereiro integrou a mostra de cultura francófona levada a palco no festival Bourse Rideau que decorreu em Quebec City, bem perto de Montréal, Canadá, onde reside.

Dono de uma insuperável energia em palco, com uma abordagem bastante original à performance musical graças a uma excelente banda, Kwenders faz valer os argumentos que já espalhou por dois trabalhos de originais, Le Dernier Empereur Bantou, de 2014, e o muito recente e excelente MAKANDA at the End of Space, The Beginning of Time, ambos lançados pela indie canadiana Bonsound e o último com a mais valia extra da produção de Tendai Maraire, dos Shabazz Palaces, e da participação do Palaceer Lazaro no tema título.

O artista que vamos poder ver no SBSR não é completamente desconhecido da cena portuguesa: participou em “Capuca” dos Throes + The Shine e foi igualmente convocado para a nova série televisiva de Branko.

Foi no Canadá, ainda antes de se saber da sua vinda a Portugal, que acedeu a conversar com o Rimas e Batidas.

 



Há alguns anos, Nneka, a cantora nigeriana, disse-me numa entrevista algo como “África é o futuro”. Bem, olhando para a maneira como a música africana e a música inspirada por África cresceu nos últimos anos parece que África é o presente. Tu sentes essa força, quando viajas e tocas a tua música, tu sentes que existe um novo nível de reconhecimento pela música africana hoje em dia?

Eu sinto cada vez mais a força e o reconhecimento da música africana. Existe definitivamente uma nova onda que levou a música africana para a popularidade. Temos a ascensão do afrobeat na Nigéria e o takeover congolês no rap em França. É óptimo. Eu não diria que África é o futuro ou o presente, mas diria que África sempre esteve lá e vai continuar lá. Hoje em dia existem mais plataformas do que nunca para ter acesso a todos géneros de música africana. Estou contente por ser um de muitos que teve a possibilidade de actuar pelo mundo inteiro para África brilhar ainda mais.

Podes-me dizer o que mudou entre Le Dernier Emperour Bantou e Makanda?

Eu acredito mais que seja uma evolução do que uma mudança. Eu evolui. Eu cresci, amadureci e expressei-me de maneira diferente e mais aberta com Makanda, ao contrário de Le Dernier Empereur Bantou. Musicalmente e pessoalmente, Makanda leva a minha jornada mais longe, quebrando mais barreiras do que eu alguma vez achei possível.

Makanda foi produzido por Tendai Maraire. Conta-me mais sobre trabalhar com ele, onde é que a produção e a gravação aconteceram, que tipo de influência ele teve na tua música?

Musicalidade. Esse é o seu batimento do coração. A musicalidade do Tendai completou a minha música. Eu acredito que juntos criámos uma linguagem que qualquer pessoa pode entender. Eu estava a tentar dizer algo e o Tendai vinha e ajudava-me a expressar o que eu imaginava na minha cabeça. Ele levou-me mais longe como cantor e desafiou-me de uma maneira que torna este álbum único.

Ver-te ao vivo é uma experiência incrível: o teu baterista soa como uma drum machine, um dos teus guitarristas soa como um sintetizador, o outro parece condensar todos os guitarristas de África Ocidental num som de guitarra moderno. Onde é que encontraste estas pessoas e eles são apenas a tua banda ao vivo ou também estão envolvidos no álbum?

Estou muito agradecido por estar rodeado por músicos tão talentosos. A complexidade do álbum fez com que eu precisasse de grandes músicos e eu não poderia ter pedido melhor. Toda a música do álbum Makanda foi produzida pelo Tendai e os instrumentos adicionais (como guitarra, saxofone, trompete, etc.) foram tocados por músicos de Seattle. A minha banda que toca ao vivo não esteve envolvida no álbum, mas eles conseguem fazer-te sentir que fizeram parte da sua criação.

Existe alguma temática dominante nas tuas canções, conta-me mais sobre o lado poético da tua música, se faz favor. Quais são os assuntos sobre os quais cantas?

Amor, Amor e mais Amor. Esse é o assunto dominante. Eu falo sobre o que me interessa. Sou de Kinshasa, Congo, e todos sabemos que o meu país tem passado por tempos difíceis nos últimos 20 anos. Na música, eu envio-lhes mensagens de paz, esperança e que se unam para tornar as coisas melhores. Mas acima de tudo, eu gosto de puxar as pessoas para cima, e dizer-lhes que só eles é que podem ter o controlo das suas vidas. Seja sobre amor, trabalho ou pequenas coisas, mantém a alegria viva.

Tu expressas-te em diferentes línguas e eu penso que a herança congolesa e a educação canadiana ajuda a explicar isso. Mas isso também é uma forma de te libertares das fronteiras nacionais, de reclamar o teu lugar num mundo global?

Definitivamente. Para mim, música é uma expressão artística que não conhece limites. A linguagem mais comum da humanidade é a música. Eu acredito que não temos que falar uma língua específica para entender a mensagem que canção transmite. Isso é o que eu espero que as pessoas sintam quando ouvem a minha música. Eu quero que elas sintam primeiro. Assim que o façam, elas podem procurar as letras para perceber o significado. É aí que elas vão descobrir que já sabiam.

Tu gravaste com os portugueses Throes + The Shine e apareces no Club Atlas, a nova série documental do Branko. Como é que os conheceste e o que é que pensas dos seus trabalhos? 

Eu conheci os Throes + The Shine durante uma digressão em França em 2015. Eu adorei o concerto e mantivemos o contacto. Eles contactaram-me quando estavam a trabalhar no álbum Wanga. Sem qualquer tipo de dúvida, respondi que sim.

Eu e o Branko conhecemo-nos em Montreal há 3 anos. Eu acredito que vim por um espectáculo e nós arranjámos uma maneira de nos encontrarmos no dia a seguir. Eu era um grande fã de Buraka Som Sistema e daquilo que eles fizeram para mostrar a música portuguesa e angolana. Nós encontrámo-nos no estúdio para trabalhar numa canção (que ainda precisamos de terminar) e ficámos amigos desde aí. Quando estive em Lisboa em Outubro passado, nós gravámos outra canção e espero que vocês possam ouvi-la brevemente.

Existem alguns artistas portugueses que andes a ouvir? 

Tenho andado a ouvir DJ Firmeza ultimamente. A sua originalidade e o seu background deixam-me realmente intrigado. Eu amo o que ele faz e como o faz. Ele é um artista auto-didacta que se quis expressar da melhor maneira que podia sem seguir as regras. Eu admiro isso.

Actualmente estás em tour: é óbvio que estás muito confortável no palco. Qual é a tua forma de abordar a performance ao vivo — é uma maneira de levar a tua arte ainda mais longe?

A performance ao vivo é, definitivamente, uma maneira de levar a minha arte mais longe. No palco, a interpretação vocal de uma canção tem que estar alinhada com o físico e o emocional para contar a história. Existe esta expressão de energia contagiosa que vem do artista e que passa para a audiência. É mágico.

Gostavas de tocar em Portugal?

Recentemente, eu visitei Portugal pela primeira vez. Eu estive a fazer férias em Lisboa durante alguns dias e apaixonei-me. Claro que gostava de tocar em Portugal, em Lisboa ou noutras cidade. Eu sinto que muitas pessoas se iam ligar à minha música e a energia que vem com ela.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu