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Phoenix RDC: “O que nós queremos é ouvir a verdade!”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Hélder White

 

Phoenix RDC é a verdade. The real deal, escreveríamos nós se estivéssemos na América. Mas não, Phoenix não é de Nova Iorque, nem sequer de Compton, mas de uma terra igualmente distante chamada Vialonga, bem à saída de Lisboa, mas bem que podia ser noutro planeta tal a diferente realidade que os seus olhos testemunharam ao crescer. É isso que se lê nas entrelinhas desta conversa. E o hip hop que Phoenix RDC faz é um hip hop que reage e comenta a essa realidade, mas que também vive dela e para ela. O hip hop é uma forma de a traduzir. Caos, primeiro, e Renegado, lançado agora na forma de uma pen drive, são duas mixtapes que Phoenix RDC entregou às ruas com a sua visão de uma vida nem sempre levada do lado certo das normas, facto pelo qual o rapper não pede desculpa, mas antes assume como condição inevitável. Mas há uma esperança no seu discurso: “daqui a 20 anos vai ser muito melhor”, garante ele. Terá mesmo que ser.

 


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Tu em tempos contaste-me que ainda jogaste à bola e tentaste outros caminhos na vida. Diz-se na América que para um jovem negro dos subúrbios das grandes cidades os únicos escapes são o desporto ou a música. A música em Portugal ainda não é propriamente a via para o sucesso. O que é que te fez escolher isto? O que é que te fez pensar que o hip hop podia ser um caminho para ti?

O meu irmão mais velho já cantava e não teve assim grande saída. Primeiro foi o futebol porque todos os putos jogavam e eu também joguei, mas sem grande interesse. Fazia porque seguia modas. E o hip hop foi mais pelo irmão mais velho. Na altura, ele trazia os CDs de Das Efx e M.O.P. e eu fui ganhando aquele gosto mesmo novo. Eu fui logo directamente ao rap porque tinha alguém que me instruía nessa parte. Foi mais ou menos isso.

Portanto, a tua ligação com esta cultura nasce em casa com o teu irmão mais velho. O que é que lhe aconteceu? Deixou a música?

O meu irmão mais velho sofreu um acidente de comboio, foi para debaixo da linha e cortaram-lhe as pernas. A partir daí já não quis mais. Desligou-se do mundo.

Esses CDs que ele trazia para casa eram sobretudo de hip hop americano?

Sim. E quando ele trazia naquela altura era muito difícil e mesmo nas lojas Fnac não chegava essa música.

Estamos a falar de inícios dos anos 90 e meados de anos 90?

Quando familiares que estavam no estrangeiro mandavam aquilo era já a febre. Ficávamos lá a ouvir. Eu também não percebia a coisa. Ele tinha lá o grupo dele e eu queria fazer parte daquele grupo, mas ainda não tinha apanhado a cena, o bichinho, mas ia sempre treinando – quando eles não estavam ia lá e agarrava o microfone e ficava a tentar.

Quando é que tomaste consciência que havia gente em Portugal a tentar construir algo com essa forma de expressão?

Não foi logo. Porque depois, eu ganhei alguma experiência e algum tempo mais tarde é  que veio o Boss Ac e os Black Company, mas aí eu já gostava de hip hop. Os álbuns iam saindo e eu ia-me abastecendo. Tive ali aquela base, mas depois tive que ir à procura de outros nomes para não ficar nos mesmos sons.

Quando é que aconteceu tu pegares finalmente num caderno e dizeres “vou fazer qualquer coisa com pés e cabeça”?

Isso tem muito a ver com o meu nome: renascer das cinzas. Eu cantava… Eram aquelas rimas mesmo muito simples. Então eu fazia, mas como era puto os mais velhos achavam engraçado. Fiz uma pausa mas o people dizia sempre: “quando é que lanças uma cena nova?”. “Já que o people me vê como um rapper vou apostar na cena”, pensei eu. Na altura na escola nós tínhamos uma rádio e levei a música para a rádio da escola.

Gravaste em casa?

Nós tínhamos um engenhocas. Que ele tinha mesmo um rádio, um leitor de cassetes. Ele metia a repetir os beats de Wu-Tang. Fazia loops na cassete. Ele cortava na cassete e rodava sempre a mesma parte. Até que eu gravei o som e resultou. Aquilo foi para a rádio da escola e começou a passar. Aí começaram a cobrar e a dizer “o gajo é o rapper da zona”. Vem daí o renascer das cinzas. Aí já comecei a ser mais exigente comigo. Já queria algo melhor. Já queria um produtor. Já não queria fazer música a brincar. Trouxe outras pessoas, né? Outros rapazes da minha idade. Então eles também começaram a fazer e eu não queria ficar para trás. Aquela competição saudável fez com que eu gostasse mais disto.

 


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“Eu não sou agressivo. O mundo é que é agressivo. Não vamos mentir e dizer que as prisões não estão cheias. Até em Hollywood existem filmes violentos. Porque é que eu não posso meter essa arte violenta se eu vivo assim?”


Estamos localizados no tempo na altura do secundário. Como é que tu eras enquanto aluno? Eras um bom aluno? O rapper é alguém que usa as palavras como o escultor usa a pedra para esculpir  ou como o pintor usa as tintas para pintar. Como é que tu eras com as aulas de português, com as palavras? Eras atento? Eras bom aluno? Eras daqueles que tinha potencial mas nunca o realizou?

Eu tinha jeito para a coisa mas era muito desinteressado. Na altura havia muitas dificuldades – nós éramos bué irmãos – e eu não tinha um livro. Ia sempre para a rua e começou a ser rotina. Perdi o interesse nas aulas e quando ia ficava escrever rimas.

Houve algum professor que tenha percebido essa inclinação?        

Nada. Não porque eu não mostrava. Quando eles me pegavam uns desenhos ou os “rapzitos” pegavam, rasgavam e diziam que iam mostrar à minha mãe. Eu era desinteressado.

A escola tem que mudar, não tem?

Sim, acho que sim. Eles conseguiam apanhar o meu rascunho podiam se calhar ler aquele rascunho e dizer “já que ele tem jeito, vamos ter uma matéria dessa forma”. Em vez de contarem uma história de uma menina que gostava de matemática falavam do rapper na altura, o Boss Ac, que inspirasse os miúdos. Mas é tudo a despachar…

Quando é que tu dirias que começa a carreira que nós conhecemos? Quais é que achas que foram os passos importantes antes do Renegado e do Caos?

Aquilo foi basicamente assim: eu ia começar normalmente, quando nós estamos a fazer qualquer coisa e nós não temos aquela projecção não é? Logo de imediato as pessoas que nos rodeiam lançam as críticas. Dizem: “tens que mudar o estilo, tens que fazer música mais comercial”. Isso aí chocou-me bastante. Eu também disse para mim que eu queria fazer intervenção do meu meio. Eu sempre vivi no bairro e quis expor aquilo. Acharam que eu era um rapper muito violento. Não trazia temas que fossem mais leves. E eu pensei se eu fizesse coisas mais leves não ia de encontro comigo e com aquilo que eu vivia. Eu podia dizer “abrir garrafas de Moet”, mas não estava a ser eu. Não estava a ser eu. Eu não sou agressivo. O mundo é que é agressivo. Não vamos mentir e dizer que as prisões não estão cheias. Até em Hollywood existem filmes violentos. Porque é que eu não posso meter essa arte violenta no meu rap se eu vivo assim?

 



Vamos falar um bocadinho disso. Crescer em Vialonga na sombra da grande cidade. Como é que era essa dinâmica de crescer na rua? Existe uma expressão  no rap americano que é “hood pass”, o tipo que tem skills e por causa disso os thugs deixam-no cicular. Alguma vez sentiste que o rap te dava uma armadura/segurança para viveres no bairro?

Isso não, porque eu fazia parte dos malandros. E eu sempre ouvia rappers de outro bairro quando retratavam o rap e faltava sempre qualquer coisa. Não viviam ou queriam escrever algo que não batia certo. Não, eu é que tenho ser o porta-voz. Eu tive uma fase má. Eu não cresci com o meu pai e a minha mãe morreu cedo. Eu tive que me virar, não foi moda. Foi sobrevivência. Não é certo e quem tá nesse caminho não apoio. Hoje em dia vejo que não era das melhores coisas que estava a fazer na altura.

Mas também não te foram dadas opções…

Não, não me foram dadas opções. Eu hoje considero-me o rapper que retrata melhor as vivências de um bairro.

Quando tu ouves algumas figuras no hip hop nacional que se afirmam/promovem/ dizem ser mais desse lado da “thug life”. Tu vês casos genuínos ou vês muita gente que tem uma imaginação prodigiosa?

Eu vejo muito isso. Quem não vive no bairro quer saber o que é que se passa. E isso vende. Então há pessoas que têm mais visibilidade. Normalmente o público pede. Esses rappers têm essa procura. Não porque sintam. Contam histórias e não vão de encontro com o que eles dizem nas músicas. É bué diferente…

 


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Podemos falar agora de um Phoenix RDC  cuja história que é mais visível começa com o Caos. Como é que foi a reacção ao Caos e como é que foi surgir com nomes como o Valete ao lado?

Eu sou fã dos trabalhos do Valete e quando comecei a gravar o Caos. Eu gravei na Big Bit –  que é a casa do Valete – e aí comecei a ver artistas que ouvia apenas na rádio. E das muitas vezes que ia ao estúdio começámos a conviver. Identificamo-nos e decidimos fazer o som.

Explica-nos como é que aconteceu: foste largando os sons na rua e a coisa foi crescendo?

Decidi fazer uma cena mais elaborada. Estava a gravar no estúdio que era o Big Bit e foi nesse processo que conheci o Valete, o SP também já conhecia.

Com o disco já gravado, com coisas no Youtube, com passagens na rádio, o que é que sentes que mudou nomeadamente naquelas pessoas que te viram a crescer como rapper na rua? O que é que eles te dizem hoje? 

Epá, eles dizem: “tu tens que ser forte porque vais ouvir muitas críticas porque a sociedade não está habituada a ouvir esse tipo de música. Ya, tens que ser forte só por estares a meter a realidade na música tu já és um criminoso.” Se calhar não vou ter tantos shows como outro artista porque as pessoas organizam acham que eu vou estar no palco com granadas por estar a fazer uma música assim. Fecham-me as portas.

 



Isso é uma parvoíce. Tu sentes que aquilo que fazes é arte? É a tua maneira de lidares com a realidade?

Sinto. Sinto mesmo que é arte. Fazer aqueles trocadilhos, meter o bairro numa música com tanto trocadilho, rimas. É arte.

Há uma moral naquilo que tu fazes? Tu sentes que hoje aprovas ou condenas as coisas que estás a retratar?

Eu recebo vários elogios da minha música porque não estou a condenar ninguém. Hoje vejo que existem bastantes pessoas que viveram e vivem aquilo que vivi. Muita gente identifica-se com aquilo que eu meto nas músicas.

Não te preocupas, por exemplo com um miúdo de 15 ou 16 anos que chega ao pé de ti e diz “eu quero quer ter uma vida igual à tua”?

Eu quero era puto cheguei a ver filmes do Al Pacino e se calhar até fiquei mais atento porque no fim ele levava um tiro ou morria, né? É por isso que eu digo que muita gente não está de acordo, mas a minha música é pedagógica. Não é por fazermos um filme criminal que as pessoas vão ser criminosas a partir daí. Quem tiver a mente fraca, até pode ser que seja influenciado. Até existem pessoas que não ouvem esse tipo de música e tornam-se criminosos. Não é a música que tem a culpa.

Vamos falar do Renegado. O que é que é o significado mais profundo do título?

Tudo o que eu quis, tudo o que tentei, todas as portas que eu bati. Tem tudo a ver com as faixas do trabalho. Não foi tudo tão positivo como eu sempre pensei que ia ser. Sinto-me um renegado.

Sentiste muitas portas a fechar…

Por isso é que eu meti esse título, Renegado. Ya…

É um disco em que tu expressas uma certa amargura com esta sociedade?

Pois, ya…

Continuam a obrigar-te a viver no subúrbio – de fora a olhar para dentro. Achas que a sociedade vai-te negando oportunidades, nomeadamente como artista?

Acho! Como artista acho que nega muito. Visualizações não são nada, mas temos que ter algo onde podemos fazer o balanço, não é e comparar. Muita gente diz que as views dão para comprar, mas se não for isso onde é que nós vamos ver o balanço e qual é o artista mais projectado.

Quais são os teus melhores números?

Os meus melhores números são 250 (mil views). E eu vejo muito abaixo disso artistas a darem concertos. O que faz o artista é o agente.

Se fôssemos a fazer as playlists de acordo com aquilo que realmente as pessoas estão a ouvir, achas que aquilo que se ouvia na rádio era totalmente diferente?

Seria, porque o que nós queremos é ouvir a verdade. Porque se nós quisermos ouvir mentira nós vamos ao Canal Panda. O Canal Panda é que tem mentiras. Eu vejo muitas vezes quando ligo a rádio e só falam amor, de músicas de amor. Músicas de amor para mim é Roberto Carlos (risos). Eu também não quero que fique tudo azul. “Ah, agora vamos só falar de criminalidade”. Não. A rádio só pode aceitar  sempre músicas de amor. Porque é só amor. Eu dou-me bem com o Regula, mas uma das músicas que passou na rádio com os Orelha Negra – o “Solteiro”- passou porque é love. Existem músicas mais bonitas e mais verdadeiras que ficariam melhor na rádio. Eu quando ’tou no carro, ’tou a passear, ’tou a ir de férias e gostava de ouvir música diversificada. Neste trabalho, o Renegado, a música em que eu ’tou a apostar é com o NBC porque é de love. Tentei fazer uma mistura com amor e falar bairro. O Jimmy P, ele é um bom artista, “props” para o Jimmy P, é um ganda tropa também.  Mas eu sei que ele tem mais do que love. A sociedade quer isto, senão és podre. Não cantas nada.

 


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Disseste-me que o trabalho foi feito a partir de type beats que arranjaste na net. Quais é que foram as tuas coordenadas. O que é que te inspira neste momento?

Eu fui mais à procura de boom-bap. Eu sou muito complicado em termos de beats. Não quero fugir muito à essência. Fui à procura de cenas da onda do J.Cole, de Kendrick, de Joey Badass também. Ya, essa linha. Eu não gosto de instrumentais com muito barulho.

O Kendrick vem de um bairro complicado – do South Central de LA cheio de thugs –  e é convidado pelo Presidente a ir jantar à Casa Branca. Achas que um dia o Phoenix RDC podia ser convidado pelo Marcelo para ir jantar a Belém? Tu vês Portugal a evoluir nessa direcção?

Acho que não. Depende. Se lá fora no estrangeiro reconhecerem o meu talento, o presidente vai abraçar. Até vou ser condecorado e tudo. Porque só com o brilho que o rap tuga me der não vou por aí além. Não acompanhei bem o percurso do Vhils, mas sei que ele foi reconhecido na China e no estrangeiro e agora não sei se abraçaram e deram-lhe esse apoio todo depois… A gente brilha, mas pronto… É só assim que as coisas funcionam. Aqui não há nada que eles possam vir e ouvir o gajo que faz música no bairro e valorizar isso também. Também há pessoas que não são do bairro a fazer esta música. Tudo atrás da guita, né?

Uma das coisas sobre as quais tenho escrito com alguma insistência prende-se com o facto de eu acreditar que na América o hip hop foi uma das grandes forças de transformação da sociedade. Se foi possível eleger um presidente negro, se foi possível ter um presidente que instaurou políticas sociais, saúde pública, apoio aos mais pobres, eu acho que o hip hop representou aí um papel. Aliás, ele manifesta isso quando no jantar de despedida da Casa Branca ele convida o Frank Ocean e o Chance The Rapper a estarem presentes, num jantar de estado. Achas que o hip hop vai conseguir também mudar qualquer coisa em Portugal?

Já mudou muito. Hoje em dia o hip hop é das músicas mais ouvidas cá em Portugal.

E achas que o hip hop transformou qualquer coisa?

No tempo dos meus pais era normal haver resistência a quem era diferente. Temos que aceitar isso. Quem tem tipo 60 anos, eles não tiveram colegas africanos na escola. E depois do 25 de abril, depois de muitos terem vindo de Angola/Moçambique, isso foi um choque repentino. “Vamos ter que lidar agora com blacks”. É bué normal um velhote ser racista. Não consigo ser racista porque vivi e convivi com todos.

Aquele miúdo que eu te falei – lá do Forte da Casa – dizia-me: “oh primo, tu se calhar não tiveste heróis pretos, mas eu tenho”. E quando ele fala do Gson, do Nga, do Valete ou do Halloween são referências que um miúdo branco hoje aponta como heróis. Eu não tive. A minha geração não teve.

E quando ele crescer, se ele for presidente, isso vai ser bué normal. Quando nós emigrámos para cá foi o choque. Daqui a 20 anos – que é pouco – vai ser muito melhor.

 


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