Phoenix R.D.C: “O hip hop nasceu interventivo e eu acho que também tem que morrer interventivo”

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Direitos Reservados

“Já nem preciso caderno / Oh god , god is big / Separou o joio do trigo / E eu hoje colho o cash em gigs / E dou educação a kids”. As rimas são de Phoenix R.D.C na música “What the F***”, do LP dos Beatbombers, e não podiam ilustrar melhor a conversa que tivemos com o rapper de Vialonga à saída de uma aula do curso de Produção e Criação de Hip Hop na ETIC.

Foi até à escola passar àqueles alunos aquilo que tem aprendido nestes já 20 anos de percurso no rap e aproveitámos para o questionar sobre a recepção de American Express, álbum que lançou no final deste verão de 2017, e em que se aproximou de sonoridades que não costumava usar, como o trap. O crescimento de público do hip hop também fez parte dos temas da conversa: o rapper acredita que em Portugal ainda existem poucos rappers a serem ouvidos, “para aí uns 20”, e espera “que venham mais artistas com talento” a surgir no futuro que se desenha à frente de todos nós.

 

 



Como correu a aula?

A aula que vim dar aqui, não é bem aula é mais uma conversa aberta, é bom porque são experiências que a gente vive e as quais às vezes queremos passar. Foi uma boa oportunidade e foi no sítio certo. São alunos que serão os futuros a contribuir para o hip hop nacional e por isso a palavra foi bem entregue, às pessoas certas.

O que é que lhes disseste?

Falei com eles sobre os meus métodos de trabalho. Disse-lhes que hoje em dia a música mais consumida no mundo é o hip hop e disse-lhes que não mudassem isso, mas que mostrassem que o hip hop também tem conteúdo, que não é só “skrrrt” e essas cenas. Tudo é bom. Há pessoas que podem dizer assim: o Phoenix critica, diz que isso não se pode. Não, pode-se tudo, tudo é válido, mas q.b. Porque o hip hop nasceu interventivo e eu acho que também tem que morrer interventivo, com coisas importantes.

E a nível prático? Claro que tudo isso é prático, mas a nível da escrita e ao nível das tuas vivências qual foi o ensinamento que lhes transmitiste?

Também já estou nisto há 20 e já adquiri formas de gravar e formas de estar em palco que o tempo e o calo me deram. Por isso não posso dizer às pessoas “façam isto, façam aquilo” porque o que é fácil para mim pode não ser fácil para outras pessoas. Mas eu tentei passar que eu não escrevo as minhas rimas, tenho logo um contacto directo com o microfone, com o instrumental, caso logo em vez de ir para o papel. Oiço o instrumental, vou escrevendo as rimas e de repente quando vou para estúdio para gravar há coisas que não encaixam. Isso já me aconteceu no passado. Escrevi uma cena, mas afinal a palavra e a frase eram maiores. No ensaio tudo correu bem porque às vezes quando estamos no ensaio às vezes cuspimos, as palavras saem e às vezes não se ouve bem, não se percebem bem. Quando estamos a gravar queremos que fique tudo bem explícito e às vezes o técnico diz “não, não, não se está a perceber”. Assim quando vou gravar caso logo com o beat e fica como quero que se perceba. Já não há que fazer emendas porque gravaste directo e o que ficar é o que gostaste.

Estavas a dizer há pouco que não há certo nem errado, que tudo se pode fazer, mas q.b. Neste novo álbum, o American Express, experimentaste novas sonoridades como o trap. Porque é que o quiseste fazer e como é que correu?

Dando continuidade ao q.b., eu decidi nadar noutras águas porque eu também estava a ser muito egoísta. Há pessoas que gostam dessa sonoridade e, visto que é uma sonoridade que não foge ao hip hop, eu tentei trazer nesses beats de trap o conteúdo, aquela melodia e é essa melodia que está mais catchy. E fi-lo porquê? Porque eu achei que era a forma de eu poder passar a minha mensagem à nova geração, estando assim embelezado da forma que eles gostam. Correu bem, o feedback tem sido positivo.

Mas ainda assim, como estavas a dizer, não deixaste o teu lado interventivo e aquele que consideras que é o hip hop mais das raízes e de que gostas. Achas que esta geração se senta a ouvir as tuas letras e a reflectir sobre elas?

Ya, sentam. Porque a maior parte dos elogios que eu recebo são “epa, as tuas letras são motivadoras”. Eu tenho um som em que fiz um refrão mais catchy, “tu nunca vais ser alguém se não tentares, sabes muito bem tens que lutar/ Não és menos que ninguém, hey what up / Só se vive uma vez, boy, wake up”, em que estou a falar de “levanta a cabeça, não desistas” e ao mesmo tempo tem um beat com que eles se identificam. É um beat fresh, da moda. Dessa forma consegui passar essa mensagem. Eu também não quero que o rap seja tipo assembleia, quero que tenha um bocado de tudo. Até pode ser intervenção, mas não esses temas assim políticos. Cenas do dia-a-dia, mas também ter um som de amor e não ser só gajas, garrafas, dinheiro, eu tenho carros. Porque nem é bonito. E eu trazendo temas mais educativos, temas do que é que se vive dentro do bairro. Há muita gente que confunde e pensa que eu estou a trazer a criminalidade, mas não! Eu estou a fazer chegar a pessoas que não viveram dentro desse meio, para saberem e verem o que se passa no mundo em geral. Eu acho muito bom porque as pessoas também seguem bala, o que a multidão está a ouvir é o que toda a gente ouve porque está na moda. O que eu quero é que nós, os artistas, tragamos essas músicas plástico, essas músicas mais bacanas com mais conteúdo e que eles possam escolher. Não só o “está a bater aquilo e também vou fazer para ganhar dinheiro” porque antes de a gente alimentar os outros temos que nos alimentar.

Qual foi a mensagem que quiseste trazer com este último álbum?

Este novo álbum é para dizer às pessoas para acreditarem. A faixa número um é uma faixa em que eu digo que muita gente quis que eu mudasse o meu estilo, é uma faixa que retrata o American Express. A faixa número dois chama-se “Miséria” em que eu falo sobre como é que cresci no bairro e essas cenas. “Ingratidão” é sobre pessoas que eu achava que eram meus irmãos e que falharam comigo. “Lição de vida” é a vida de pessoas que querem vencer na vida com criminalidade, corre mal, vão presos. “Everyday” é uma faixa em que falo do dia-a-dia no bairro. “12:00” é uma faixa que mostra a ganância das pessoas, sobre um gajo que estava bem, tinha uma boa casa, bom carro, mas ainda tentou fazer mais e acabou por morrer. É a história verídica de um amigo. O “Papo Recto” volta a mostrar aquela parte agressiva do bairro. “Savage” é aquela faixa que vai mais ao encontro com a sonoridade de hoje. “Soulmate” é amor. “Sobreviventes” é bairro. “Moneycómio” é mostrar um bocado da minha maluquice dentro do rap. “Luta” é essa para as pessoas levantarem a cabeça e não desistirem. “Groupie” fala de mulheres independentes, de mulheres que não querem saber da opinião dos outros. Fumam coca, vão buscar drogas, prostituem-se, mas estão sempre em altas, têm o melhor carro, têm a melhor casa. Porque não são só os homens que fazem isso. “Woman Independent” também é sobre isso. “Vidas” é sobre essas raparigas que querem de estar com os gajos mais badalados e que quando eles estão na merda elas desaparecem. “Nostalgia”, com que fecho o meu trabalho, é sobre lembranças, cenas que aconteceram comigo.

Qual foi o melhor comentário que recebeste sobre o álbum?

O que eu recebo mais é “Phoenix, mudaste a minha vida”. Existem pessoas que cresceram lá na minha zona, mas foram viver para fora, emigraram, e quando vêm dizem “Phoenix, eu não sabia que tu cantavas dessa forma”.

Achas que ficam a conhecer-te quando saem do bairro onde vives ou lá também és conhecido?

O que está ao lado de nós às vezes não damos muita importância e às vezes essas pessoas que cresceram comigo vão conhecer o Phoenix através de outras pessoas de outros bairros. Acontece mais ou menos assim: “Epa, este gajo canta mesmo bacano” / “Eu cresci com ele. Gostas da música dele?”. E aí é que eles ficam mesmo curiosos, vão ouvir e depois chegam e dizem “Phoenix, um amigo apresentou-me”. E eu digo “então tu estavas aqui, tiveste de ir para fora, para Inglaterra, para ouvires a minha música?”. Eu também já fiz isso às vezes com o que está ao lado, nem perco tempo a ouvir a ver se está bom.

Mas agora o hip hop está diferente, é ouvido por mais gente. Sentes isso na tua carreira?

Bué. Porque eu estive 20 anos mesmo… enxerga-te. People que convivia comigo lançou-se, já não me atendiam o telefone como se eu quisesse a cena deles. E hoje eu vejo bué facilidade, mesmo pessoas que começam a cantar ontem já têm números e são ouvidos bué rápido. Nós somos poucos para os ouvintes, somos poucos, os que estão a ser ouvidos são para aí uns 20. Se nós olharmos para outros países, se bem que são maiores, é muito artista. Nós somos poucos mesmo e por isso que venham mais artistas com talento.

 


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