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Peter Zinovieff: um inventor de novos sons

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Electronic Calendar – The EMS Tapes é o título de um luxuoso duplo CD lançado agora pela Space Age Recordings de Peter Kember, também conhecido por Sonic Boom, ex-Spaceman 3, mentor dos projectos Spectrum e Experimental Audio Research e, claro, produtor dos mais recentes trabalhos de Panda Bear, por exemplo. Esta edição extraordinária reúne trabalho no âmbito da música electrónica realizado por Peter Zinovieff entre 1965, quando estabeleceu a companhia EMS, e 1979, ano em que a sua empresa declarou falência. Aqui encontra-se trabalho realizado por Peter Zinovieff com compositores como Harrison Birtwistle ou Hans Werner Henze, dois dos nomes que procuraram o descendente de aristocratas russos para poderem usufruir da sua visão. Não foram os únicos.

Zinovieff nasceu em 1933, filho de dois aristocratas russos que fugiram da revolução soviética e se estabeleceram em Inglaterra, onde o futuro inventor e compositor frequentou a universidade de Oxford onde se viria a cruzar com Daphne Oram, outra importante pioneira da música electrónica britânica. Peter Zinovieff foi um verdadeiro visionário: em meados dos anos 60 vendeu a tiara da sua mulher, “muito rica”, como ele mesmo a descreveu, para adquirir o primeiro computador instalado numa casa particular. As detalhadas notas de capa de Electronic Caldendar descrevem como o estúdio de Peter Zinovieff se tornou o mais avançado do mundo, “com 384 osciladores, bem como uma colecção de filtros, geradores de ruído, moduladores, analisadores de sinal e amplificadores”. Tudo construído com a ajuda de técnicos como David Cockerall. A filha de Peter Zinovieff, Sofka, recorda o ambiente especial do estúdio do seu pai onde eram frequentes as visitas de gente como David Bowie, Paul McCartney ou os Pink Floyd. Ao longo dos anos, muitos outros nomes importantes procuraram Zinovieff para se inspirarem e adquirirem os equipamentos que entretanto começou a criar, como o famoso sintetizador VCS3, usado por gente como Brian Eno ou Aphex Twin: de Karlheinz Stockhausen aos Kraftwerk e Klaus Schulze, dos King Crimson a Alan Sutcliffe, muitos foram os ilustres músicos que buscaram inspiração no laboratório de Peter Zinovieff.

A presente compilação lançada por Peter Kember é a primeira amostra real e importante do trabalho deste compositor após a recente edição de Cybernetic Serendipity Music onde se incluía uma das suas peças, “January Tensions”. Em 2010, Peter Zinovieff juntou-se a uma galeria de outros notáveis pioneiros, como Bob Moog ou Don Buchla, como orador na Red Bull Music Academy que nesse ano teve lugar em Londres. Foi nessa altura que esta entrevista foi realizada. A edição de Electronic Calendar oferece, finalmente, o pretexto exacto para a publicarmos. 


 


A sua formação é na área da geologia, mas algo lhe orientou os passos na direcção da música. O quê, exactamente?

Quando frequentava a universidade, em Oxford, tocava muito piano e tinha um pequeno grupo musical de vanguarda. Passávamos o tempo a inventar instrumentos a partir de qualquer coisa em que pudéssemos pegar, pedaços de madeira, qualquer coisa que gerasse um som interessante…

Qual era a vossa inspiração? A música de Harry Partch?

Nem sei se já o conhecíamos… acho que o que nos movia era a vontade de inventar novos sons. Os meus estudos de geologia, entretanto, levaram-me a tornar-me um matemático. E a minha mulher, devo dizer, era muito rica. Eu, enquanto matemático, que trabalhava para o Ministério da Aviação, tinha um salário que era muito castigado pelos impostos, porque fazia a declaraçãoo conjuntamente com a minha mulher. O resultado era que não ganhava quase nada. E por isso decidi que mais valia ir fazer sons estranhos. Quando eu era criança costumava construir os meus próprios rádios, por isso percebia alguma coisa de sistemas eléctricos. A partir daí fui fazendo coisas, cada vez mais complexas, e juntei algum dinheiro para poder pagar a pessoas para trabalharem comigo, a fazer coisas electrónicas. E Londres, nesses tempos do pós-guerra, era muito interessante, porque havia ruas inteiras com lojas a venderem material descartado pelo exército. Falo do início dos anos 60, quando ainda era possível encontrar enormes máquinas que produziam sinewaves, squarewaves, e outras que analisavam o som, ou geradores de ruído, coisas enormes, desactualizadas na época, que eu comprei e comecei a ligar umas às outras, para gerarem sons interessantes. E foi aí que comecei a encontrar outras pessoas igualmente curiosas para me ajudarem.

É incrível o quanto a música electrónica está ligada a descobertas tecnológicas feitas no âmbito militar: a fita magnética criada pelo exército alemão, ou a tecnologia de sonar… Coisas criadas com o objectivo de destruir, mas que acabaram por ser usadas como ferramentas criativas…

É verdade. Muitas das coisas que eu usava vinham dos sistemas de radar, material usado para detectar, submarinos por exemplo. Muito desse material, que antecede a tecnologia transistorizada, feita de válvulas enormes, era muito grande, muito pesada. Hoje parecem máquinas incríveis, gigantes, com gigantescos botões que se rodavam e manivelas…


 


Nos anos 60, quando começou a fazer as suas experiências com electrónica, o que é que acha que actuava como catalisador para a curiosidade colectiva em relação a estes novos sons? A corrida das nações ao espaço? A televisão como um novo meio de comunicação?…

Havia de facto qualquer coisa no ar e eu penso que tinha a ver com as estações de rádio. Sobretudo os estúdios de Colónia (NR: a partir de onde trabalhava Karlheinz Stockhausen) e Utrecht (MR: onde estava instalado o Instituto de Sonologia onde trabalhou, entre outros compositores, Dick Raaymakers) que produziam muita música electrónica. Nesta altura, a minha pequena companhia, produziu um dos primeiros concertos de música electrónica em Londres, no Queen Elisabeth Hall, que levava 1100 pessoas. E nós conseguimos esgotar o espaço. Houve gente que não conseguiu entrar. E começamos a repetir isso todos os anos, com os mesmos resultados. Por isso, tem razão, havia de facto muito interesse por parte do público por estes novos sons electrónicos. E isso levou a que muita gente começasse a procurar responder à pergunta: “o que é que se pode fazer com sons gerados electricamente?”

Recentemente deparei-me com a ideia, ao ler um livro que ilustrava a longa relação existente entre a música popular alemã e a electrónica, de que parte da razão para as pessoas terem abraçado estes novos sons tinha que ver com o desejo de construir um novo mundo após toda a destruição imposta pela guerra. Um novo mundo precisava de uma nova música. Foi assim também em Inglaterra?

Talvez, mas esse desejo não se manifestava apenas na música electrónica, mas na música geral e nos outros campos da arte: depois dos terríveis anos da guerra, todas as artes foram revitalizadas e as pessoas tinham muito interesse nessas manifestações artísticas. Em Inglaterra, e suponho que fosse assim também noutros países, depois da guerra havia muito pouco dinheiro disponível e nos anos 50 éramos um país muito pobre. Nos anos 60 começou a haver mais algum dinheiro e as pessoas já conseguiam ir ver concertos. Foi uma época mais feliz e isso manifestou-se nas artes.


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“A língua francesa tem uma boa palavra – “animateur”. É como eu me vejo, não no sentido de profissional de filme de animação, mas alguém que gera uma faísca que despoleta coisas.”

 


Como é que se vê? Como um compositor? Um inventor? Um pensador? Tudo isso junto?

Não me vejo apenas como uma única coisa. Há tantas coisas que nos rodeiam que são interessantes e eu tive tanta sorte de ter encontrado tanta gente tão talentosa ao longo da minha vida. E eu penso que é isso que nos define, as pessoas com quem nos cruzamos. Quando conseguimos ter à nossa volta gente criativa e interessante, isso é maravilhoso.

Vê-se, então, como um potenciador de talentos, alguém capaz de reunir pessoas para juntos criarem coisas novas?…

Exacto. A língua francesa tem uma boa palavra – “animateur”. É como eu me vejo, não no sentido de profissional de filme de animação, mas alguém que gera uma faísca que despoleta coisas.

Hoje descreveu como os Pink Floyd foram dos seus primeiros clientes na EMS, comprando algumas das primeiras máquinas que vocês desenharam e produziram. O que é que eles vos diziam, quando iam ter com vocês, do que andavam eles à procura?

Penso que era algo semelhante ao que me perguntou antes: eles queriam saber que coisas novas poderiam criar, que novos sons poderiam gerar. Eles queriam sons que nunca ninguém tivesse ouvido antes. E o pequeno sintetizador que lhes mostrei (NR: o VCS3), podia de uma forma muito simples criar sons que nunca antes tinham sido ouvidos. E nem era preciso perceber alguma coisa de sintetizadores, bastava colocar aqueles pinos dentro dos buracos e um som estranho sairia. Penso que era isso que eles queriam. Eles podem não se ter tornado grandes especialistas no instrumento, mas fizeram alguns ritmos maravilhosos.


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Chegou a criar um grupo com o Brian Hodgson e a Delia Derbyshire… fizeram algumas apresentações ao vivo?

Infelizmente não. O grupo que criei com a Delia e o Brian do Radiophonic Workshop, os Unit Delta Plus, serviu simplesmente para criar jingles, música comercial. Eu desenvolvi o estúdio e eles pensaram que o meu estúdio seria ideal para esse propósito, porque era o estúdio mais avançado da Grã-Bretanha. Mas não era aí que residiam os meus principais interesses e a ideia acabou por se desvanecer.

Compositores como Delia Derbyshire chegaram a criar música para companhias de Library…

Que companhias eram essas?…

Companhias como a KPm, para que a Delia trabalhou, ou a De Wolfe que criavam música pensada especialmente para ser sincronizada em tv, para documentários por exemplo, para cinema ou publicidade. Nunca recebeu encomendas nesse sentido?

Não, no meu estúdio trabalhei com compositores, como Harrison Birtwistle ou Hans Werner Henze, que vinham passar temporadas comigo, às vezes meses, para trabalharem em peças. Era gente que me abordava com ideias interessantes que eu achava que mereciam ser desenvolvidas.


 


Nunca emergiram gravações suas em edições comerciais então?

Quase nada, mas sei que vão sair coisas em breve…

Na sua palestra fez questão de frisar que hoje em dia o que o maravilha são as novas possibilidades abertas pelos mais avançados computadores e que acha estranho toda a indústria que se ergueu em torno da memória e a romantização dos velhos sintetizadores analógicos. Não acha que estas velhas máquinas merecem ter um lugar no presente?

Entendo a sua pergunta e é verdade que apesar dos avanços na indústria automóvel continua a existir gente que adora carros antigos. Acho que com os sintetizadores se passa algo de semelhante. Em Inglaterra há uma corrida de carros antigos entre Londres e Brighton e aparece gente a conduzir carros de 1910 ou 1920 e essas pessoas garantem que apreciam muito mais a viagem do que se a fizessem num Mercedes moderno. Eu tenho que admitir que prefiro viajar num Mercedes moderno (risos)…

Manteve-se a par dos desenvolvimentos no campo da música electrónica?

Mais ou menos, mas não de uma forma muito próxima. Nos últimos anos comecei a trabalhar com computadores e devo dizer que entendo um pouco melhor as possibilidades que oferecem.

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