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Fotografia: Vera Marmelo

A crescer bem.

Peter Evans com Demian Cabaud na ZDB: encontrar a harmonia no meio da agitação

Fotografia: Vera Marmelo

O ambiente era acolhedor para receber aqueles que iam chegando à sala de concertos da Galeria Zé dos Bois: esperavam-nos cinco filas de cadeiras, vários instrumentos em palco e música ambiente. O motivo das pessoas lá estarem era óbvio: assistir a mais uma sessão de Som Crescente, a curadoria de Peter Evans que o junta a um convidado especial (diferente em cada sessão) e a diferentes músicos do panorama português para apresentarem neste espaço lisboeta o trabalho que construíram num workshop intensivo de dois dias.

Os alunos desta sessão foram João Gato no saxofone alto, João Carlos Pinto nas texturas electrónicas, João Sousa na bateria, José Almeida no contrabaixo, Diogo Martins no piano e ainda Nazaré Silva na voz. O “parceiro” de Evans foi o contrabaixista argentino, sediado em Portugal, Demian Cabaud, que pertence há vários anos ao elenco da Orquestra Jazz de Matosinhos. O espectáculo dividiu os músicos pelas sete faixas que compuseram o repertório, tocando todos juntos apenas em algumas peças. O início foi lento, com o piano, o saxofone, bateria, voz e contrabaixo a serem dirigidos por Cabaud. De seguida, Almeida entrou para substituir o argentino no contrabaixo; seguiram-se Evans, no trompete, e Pinto, que introduziu uma componente electrónica que, apesar de não ser dominante, empurrou o espectáculo para outra dimensão sonora, sem que fugisse à fórmula do free jazz que se espalhou por todo o concerto. Com o passar do tempo, a música tornou-se mais frenética e ligada ao improviso, mas rapidamente ganhou uma estrutura mais sólida à medida que os músicos voltavam a atentar às pautas que tinham à sua frente. Foi esta a orientação, focando-se na reestruturação e nos rearranjos de material de diferentes autores — Charlie Parker, Jackie McLean, Ornette Coleman e os próprios executantes “cederam” a matéria-prima. Toda essa confluência de linguagens e abordagens traduziu-se num projecto híbrido ou, trocando para uma versão mais contemporânea, uma espécie de processo de remistura ao vivo. A barreira entre o que pertencia ao autor e aos intérpretes desapareceu e concentrámo-nos apenas no momento único que estava a acontecer em palco, sendo possível apreciar as várias junções de instrumentos nas mesmas melodias, fosse o saxofone e a voz, o trompete e a electrónica, a voz e o contrabaixo. As dinâmicas flutuaram entre momentos a solo — todos tiveram a sua oportunidade de brilhar –, duetos e explosões que uniam todos os músicos. No meio do “caos” e arritmia criados na atonalidade encontravam-se também harmonias que, ora nos deixavam meramente a contemplar, ora nos faziam mexer a um ritmo que, apesar de difícil de compreender, parecia intuitivo para o corpo. Num ambiente de grande abertura para o que se passava em cima do palco, o público brindou, no final, a banda com aplausos e pedidos de encore; e as expectativas ficaram altíssimas para a próxima sessão de Som Crescente e para o rumo que Peter Evans irá tomar nesta necessária (e obrigatória) exploração sónica na ZDB.

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