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Pete Rock & CL Smooth no Plano B: Reminiscências da Golden Age

[TEXTO] Rui Correia [FOTOS] Pedro Mkk

A promotora Versus tem-nos habituado a uma curadoria de eventos cuidadosamente seleccionada à volta da premissa que dá nome à nossa publicação: rimas e batidas. Passando por Mobb Deep, M.O.P., Pharoahe Monch, Talib Kweli ou Kirk Knight, encontrámos um padrão geográfico que nos leva à Meca do hip hop que é Nova Iorque. Poder-se-á dizer que fomos mais longe na linha cronológica da costa Este americana, até ao ano da “Meca” construída por Pete Rock & CL Smooth, em 1992, e que tanto contribuiu para a criação ecléctica do rap nova-iorquino e dos artistas (anteriormente mencionados) que lhes seguiram os passos.

Num Plano B esgotado, encontramos naturalmente um espaço a abarrotar de fãs multigeracionais com letras decoradas, sorrisos de orelha a orelha, mãos esticadas no ar representando um “L” (por razões amorosas, como aconteceu durante a música “Lots of Lovin’”). Energia positiva em comunhão, para (re)viver uma época dourada do rap americano, algo muito próximo do que acontecera recentemente no Musicbox, em Lisboa, na data de Alchemist, – em mais uma produção da Versus -, por onde se contavam também caras conhecidas do rap português atentas ao programa inédito desta noite: desde nomes associados à editora portuense Monster Jinx -, como é o caso do Tiago Lessa, da dupla Roger Plexico (com Slimcutz e Taseh ambos presentes) e EARL -, os rappers Cálculo, Barrako 27 e verdadeiros aficionados do movimento [hip hop] como Madflava (membro do extinto grupo 7PM) e DJ Bomberjack, um dos “pais disto tudo”, que veio directamente de Lisboa para o Porto.

 


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Dado um pequeno compasso de espera, relativamente à hora prevista para início de concerto, a dupla Pete Rock & CL Smooth subiu a palco com escolta de seguranças por entre o público, – prática desnecessária, se conhecessem previamente o povo português afectuoso que os aguardava de alma aberta. Pete Rock na função de DJ e host, incitou os presentes à festa, abrindo caminho para o reconhecimento ao jazz, à soul e ao funk (passando, por exemplo, “Lovely Day” de Bill Withers e “Love and Happiness” de Al Green), que de resto, foi algo que intercalou durante todo o espectáculo da dupla, iluminando-nos para a cultura afro-americana e a sua consequente redefinição através da arte infinita do sampling. “Who likes real hip hop music? Make some noise!”, Pete Rock aproveita para relembrar acerca dos 25 anos feitos pelo álbum de estreia da dupla Mecca and the Soul Brother e introduz CL Smooth que se lança rapidamente para a frente de palco com a faixa que inicia esse disco “Return of the Mecca”, tema que mereceu ainda acappella de Pete Rock. A performance decorreu bem ensaiada e enérgica, entre exercícios de MCing e DJing intocáveis e sempre correspondidos pelo público. CL e Pete Rock souberam alternar-se no foco de palco e garantiram um espectáculo fluído que apresentou alguns dos melhores momentos da sua curta carreira enquanto dupla: foram rodadas várias faixas do segundo álbum The Main Ingredient, como “I Get Physical” – e, de repente, vimos CL Smooth colocar uma toalha sobre a sua bebida derramada ao chão (não poderia ter sido mais literal, no sentido do tema) -, “Searching” (voltando ao exercício de comemorar os originais samplados, neste caso Roy Ayers), “I Got a Love”, “It’s On You” (a meio do set, já com CL Smooth a pingar como uma torneira em palco) ou “Take You There”; passaram por temas fora dos álbuns como “Down With The King” (faixa dos Run-DMC em que a dupla participa) e “One In a Million” (tema da banda-sonora para o filme “Poetic Justice”); do álbum de estreia foram até aos singles “Lots of Lovin’” (que resultou numa de várias coreografias planeadas entre os dois, com CL a figurar cuts de Pete Rock nos discos de vinil), “Straighten It Out” (em que Pete Rock, revelou mais um dos seus dotes, brilhando como beatboxer) e, claro, “They Reminisce Over You (T.R.O.Y.)” reservado para o fim.

“Do you know that we’re from America?” – como se houvesse dúvidas – questionou Pete Rock já na recta final do concerto, fazendo questão de sublinhar que os americanos não são representados por esse homem-entretenimento de mãos minúsculas e voz aguçada. É notória a vontade de vincar o afastamento da cultura americana relativamente ao actual presidente dos EUA ao ponto de sermos incitados a berrar em uníssono “Fuck Donald Trump!”. Para afastar o demónio, relembraram-se os santos da casa “R.I.P Phife Dawg, R.I.P. J Dilla…”, idos, mas nunca esquecidos. Estava dado o mote para nos lançarmos no momento mais aguardado da noite: “They Reminisce Over You (T.R.O.Y.)” arrancou com um cântico generalizado de criar inveja à claque dos Super Dragões, imitando o saxofone samplado do tema “Today” de Tom Scott que define primeiramente a música em questão e representa uma das escolhas instrumentais principais exploradas por Pete Rock na sua produção.

 


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“More music! More music!”, embora satisfeito, o público exigiu mais um pouco de um momento que sabia ser irrepetível. A dupla despediu-se sem ceder, mas sentia-se o dever cumprido de um grupo que ofereceu aos portugueses um resumo conservado da colheita rap anos 90. Rap em que a mensagem vem em primeiro lugar. O “soul survivor” Pete Rock viria mais tarde até palco, desta vez sozinho e em formato DJ set, para completar o certame e dar uma segunda chance a quem não teve possibilidade de comprar bilhete para o concerto.

 


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