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Fotografia: Paulo Antunes
Publicado a: 26/03/2026

As palavras na fruição do evento a sul.

Periférico’26: actos de existência como resistência

Fotografia: Paulo Antunes
Publicado a: 26/03/2026

Na cidade exponente do barrocal algarvio, em pleno dia de mercado semanal extravasando do recinto das cúpulas rubras arabescas, parece haver um duplo sentido periférico à chegada. O motivo é alcançar Loulé no dia (21 de Março) nevrálgico da terceira edição do Periférico – Mercado de Música Independente, e que desde a noite anterior (sexta) iniciara o programa. No contexto económico-mercantil do termo, “periférico” refere-se a cenários emergentes ou não-centralizados, fora do negócio predominante. A ideia relacionada com editoras musicais surgira na cabeça duns quantos, formalizando a Associação Vencidos da Vida, implicados na música como programadores e entusiastas do micro-universo editorial independente português. 

Como o mercado dos horticultores, também os cultores musicais se reunem em torno de bancas onde quem produz e edita faz primor na mostra do mais fresco e cativante para quem vem à procura das novidades e do produto genuíno. Este mecanismo de consumo e produção — ainda que na esfera alternativa — é o núcleo da programação do Periférico. Na ampla sala da Casa do Meio-Dia (casa da editora Sul, Sol e Sal) estão ao longo da tarde as editoras Russian Library, Groovie Records, Ovo Estrelado, Nariz Entupido, ATR – Associação Terapêutica do Ruído, Saliva Diva, Lovers & Lollypops e Epopeia Records, cabendo ainda a Traça como editora de livros (alguns bem relacionados com música). De norte a sul do território português há uma generosa representação do panorama editorial no que à musica independente e a sua edição diz respeito. É o terceiro ano que acontece e estamos em crer que outras tantas mais deveriam estar presentes, porque delas sabemos existência ou simplesmente da vontade que sejam ainda mais a mostrarem-se. Há, no entanto, lugar da descoberta, de um ou outro projecto musical editado ou mesmo de um selo que se desconhece o catálogo na integra. A oportunidade é soberana para mergulhar em capas e tomar nas mãos os formatos editados. A mostra e mercado decorre ao som de uma das mais bonitas formas que soubemos de partilha de música numa tarde sabatina. Com “Bring Your Own Vinyl: Open Decks”, DJ Discossauro (Miguel Neto) que conhecemos do projecto Boris Chimp 504, dispôs-se a passar o que cada um lhe apeteceu trazer. Acabou por ser melhor a ideia que o resultado, dada a escassa e efectiva participação plural e diversa. Ainda assim, a possibilidade estava criada. 

A tarde que prontamente fez reunir o painel que cobramor, enquanto cultor do podcast Antitudo — “Um programa do contra, gravado irregularmente ao vivo” —, reuniu para debater a música independente para ouvintes dependentes. Contando com João Castro (programador e editor, Nariz Entupido), João Desmarques (da ATR), Marta San (pela Groovie Records e programadora no Bus – Paragem Cultural e Desterro) e Tiago Castro (editor da Ovo Estrelado). Qualificar versus quantificar na música. Será que se consome menos música hoje? Ou quais as maneiras certas de se ouvir (e não tanto consumir) música hoje? Escalas e suportes vendáveis no universo alternativo da edição. A musica e a sua publicação como forma de resistência. O enquadramento dos princípios éticos enquanto programadores(as) e editores(as). Ou como boas práticas (como o Record Store Day), com origem em movimentos alternativos são prontamente co-optadas pelo sistema dominate na razão do consumo da música. A necessidade e razão de criar um campo próprio (seja qual for). Será que se perdeu na música a espontaneidade e se ganhou uma procura estratégica sobre isso? No fundo, o acto de existência como soberana forma de existência. A emissão está disponível e permite usufruir na integra da conversa nem sempre consensual em torno do(s) tema(s). cobramor foi acicatando quanto bastasse o dar à língua dos intervenientes. Ele que na manhã já havia organizado uma oficina da palavra sob o auspicioso título: “Zombies Musicais: A Procura de Significado na Escrita Sobre a Música na Era da IA.”

O final de tarde haveria de trazer dois momentos musicais, ternos e distintos. Sem sair da sala (Casa do Meio-Dia), a guitarra portuguesa trabalhada de Desmarques fez-se escutar numa curadoria da ATR. Assumido pseudónimo de João Marques, guitarrista sabido em dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS. Contudo e em simultâneo (para desgraça de vontade obrigatoriamente optativa), apresentou-se Joana de Sá na muito cuidada acústica do Auditório do Solar da Música Nova. Numa curadoria da Nariz Entupido, Joana de Sá marcou de presença aural o espaço em torno de uma ideia concreta com “três sombras e um aceno”. Dóceis projecções de recolhas sonoras de campo sucediam-se, assim como outras paisagens posteriormente modeladas. Até alcançar o momento da palavra. “Tenderness is revealed through the tone of the voice / It’s an empty aspect to not believe in apparitions” começava por principiar na junção das palavras à música. Numa récita entre a fonética e o canto lírico, sobre tapetes sonoros que ora levantavam de puras recolhas sonoras à mais perdurada nota pedal. Aliás, saboreou-se nesse contraste do drone e do lírico um requinte suplementar até final. 

Depois, a primeira proposta da noite, já no emblemático Cineteatro Louletano para uma total surpresa. Mirage People (e nada de confusões com Mirror People) é um duo de electrónica que opera desde o Algarve, composto por Alfaro e Echrum, alter egos de Luís Caracinha e Miguel Guerreiro, respectivamente. No palco do Periférico foram uma proposta com curadoria da editora Epopeia, casa que se confunde com estes próprios músicos. A ocasião serve para assinalar o lançamento do muito recente EP Beyond The River. O novo registo traz o primeiro impacto, e neste caso deixa muita água na boca pela vívida experiência de palco. Fica a ideia de tentarem fazer caminho até à música electrónica de um seminal Jean-Michel Jarre (na batida enquadrada pelos fraseados dos sintetizadores) enquanto espreitam o legado deixado pelas aventuras na electrónica de João Aguardela em Megafone (na medida que se servem de recolhas vocais populares alentejanas). Contudo, e sem trilhar com efectiva propriedade emotiva novas vias, ficam-se num desprender sonoro resvés das influencias apontadas. Confrangedor chegou mesmo a ser a participação vocal especial em palco, lugar de pedestal só mesmo pela elevação física que lhes sobressaia na disposição cénica, onde nem a luminotecnia soube ajudar.

Era o momento de por à prova uma certa limpeza de palato gustativo-sonoro e a mudança de cenário passando ao Bar Bafo de Baco, onde já no dia anterior tinha feito honras de abertura do programa com o trio El Saguaru. Nesta noite, a proposta era dupla e passava pelas curadorias dos selos Saliva Diva e Lovers & Lollypops. A primeira banda a actuar foi Mordo Mia, formada por João Roque na frente de cena, na voz e teclado, Ana Eduarda no violino, Simão Bárcia na guitarra, António Pinto no baixo e Bernardo Pereira na bateria. Prontamente se entra numa atmosfera à filme de Murnau, transportados pela expressividade dos temas e na lírica da palavra. Chumbo Côncavo é o segundo trabalho discográfico, editado pela Saliva Diva no Outono de 2025. Primam pela abordagem disruptiva no ritmo e intensidade no decurso dos temas, que gravitam entre um primevo rock sinfónico e a arte pop. Nesse universo sonoro cabem as narrativas de temas com toadas beckettianas, pelo absurdo, numa postura teatral que os aproxima em palco como se de uma opereta fosse. Refresca-nos a memória de uma daquelas bandas que criativamente rompe com a matéria dada até então, como no tempo em que num concurso de nome Rock Rendez Vous havia um prémio de originalidade. Teriam beneficiado mais ainda de um palco em contexto com mais de teatro e menos ambiente de club, como foi o caso. 

A noite que se acumulava em estímulos ainda reservava um último fôlego, e sem sair do lugar, para Ideal Victim — fomos todas e todos dispostos a levar com a jarda sonora do quarteto punk-hardcore vindo pela mão curatorial da Lovers & Lollypops até ao Periférico. Ideal Victim têm menos de quatro anos e são Mariana Moreira na voz e nas palavras incendiárias, Pedro Marques na guitarra abrasiva, Alex Vieira no baixo condutor e Bruno Esteves na bateria propulsora. Têm no sete polegadas Rage Letters (2025), editado pela L&L, meia dúzia de temas pujantes e bem curtinhos. Aliás, seis faixas parece ser a conta certa no seu entender, já que Demo (2023) assim o mostra em igual modo. Avisam-nos, prontamente, que devemos aproveitar para dançar (curiosamente nem um salto no ar, nem um vislumbre de mosh é esboçado) entre a plateia do Bar, já que trazem preparada uma actuação curta. Tivéssemos a olhar para o relógio e a cronometrar cada tema e seguramente quase nem olharíamos para o palco dada a fugacidade de cada um. É esse o espirito aqui, e para apontar tudo ao machismo e ao patriarcado não são precisas muitas delongas, antes mais muitos actos destes e um nunca baixar os braços. Pese embora a postura de palco de Mariana seja de curvatura ao chão enquanto canta o rastilho — é efectivo e soa a Jello Biafra (Dead Kennedys) na voz feminina. O baixista residente esteve ausente, e o baterista fez-lhe a vez sem desprimor. Na bateria trouxeram de outro colectivo hardcore portuense um eficaz substituto. Existir e resistir assentas-lhe bem. Na próxima há que não esquecer protectores auriculares, pois a sua prestação perdurou no tímpano bem para lá do tempo que estiveram no palco. A noite prossegui com Tiago Castro (editor na Ovo Estrelado) aos comandos da cabine de som. Arrancou com um promissor “Beat on the Brat” do Ramones, e mais não saberemos contar… mas suspeitamos como deve ter sido.

Uma das razoes para o adicar das festividades noite adentro respeitava a manhã seguinte para “Coro-paisagem”. Uma proposta de de improvisação vocal em conjunto com Joana de Sá e aberta à participação. Apareceram setes pessoas à chamada até ao retemperador pátio do Solar da Música Nova. Os exercícios postos em prática colectiva abordam a escuta e a emissão consciente vocal. Onomatopeias e vogais em vocalizações. Sentindo e idealizando o ponto emissor no corpo. Não estamos isolado na paisagem sonora e a manhã, composta por todos os seres em redor na cidade interagem sem dar conta. De Sá parte das bases do “Canti Spazializzati: Acousmatic Mapping”, desenvolvido pelo polaco Leoncjusz Ciuciura — para quem de forma sábia não havia divisão entre corpos performantes e auditivos nos seus trabalhos. A leitura e contraponto no espaço acústico, numa ecologia dos sons matinais. Da lonjura e da proximidade se fizeram ligações precisas e de ecos efectivos. O modo aberto e de partilha levou-nos também, através dos exercícios vocais, a remediar meditativamente o eu de cada um. O final foi corolário no esboçar de uma partitura gráfica que ilustrasse para cada participante o vivido acústico. O ouvir involuntário e a escuta consciente dos sons, os nosso e os dos outros, como nos ensinava a percepcionar esse mundo com a planta dos pés num certo dia Pauline Oliveros. 

Para o último bloco, do último dia de Periférico para a tarde domingueira em modo matiné. Primeiro com a ida até à Galeria Alfaia, para na frescura do lugar, ver e ouvir o documentário Já Estou Farto (2021) de Paulo Antunes em torno da figura de João Paulo Almendra. Homem da frente de palco em bandas como Ku de Judas e mais tarde Peste & Sida. Almendra afirmando: “Eu estou aqui e vou dar tudo e vocês não se vão esquecer”. Punk até à medula — além da música, na irreverência e no combate. Podia já cá não estar… mas soubemos que voltou ao activo numa recente banda. Antunes deu-lhe todo o espaço de actuação no documentário. É Almendra por ele próprio, ainda que muitos que o acompanharam e acompanham deixem depoimentos complementares. A mãe não se lembra de lhe ter visto um concerto que fosse, mas não parece fazer falta para saber da sua importância no cultura alternativa lisboeta. É do tema “Já estou farto” de Ku de Judas que vem o título do documentário, mas também podia ter sido “Furo na cabeça” dos Peste & Sida. Almendra foi ainda primeiro letrista em Censurados. Depois seguiram-se Pink Sinatra, que marcou o regresso de Almendra ao microfone e às letras em 2010, e ainda Os Filhos de Hannibal Lecter. No fundo (e não por fim) — “há sempre algo para dizer, sempre algo”, como deixa em aberto o próprio na leitura do panorama que ainda conta com ele. 

E o fim do Periférico fez-se no regresso ao Solar da Musica Nova para um tríptico de cantautores que dá pelo sugestivo nome de Arde. Uma proposta de remate com dedo em curadoria do próprio Periférico, reservando espaço para promover projectos ainda não editados ou de cunho bem autoral na edição. É o caso, onde Arde são Pedro-o-Velho (aka Fast Eddie Nelson), Tio Rex e Maio. Três cantautores, munidos de três guitarras, num concerto tripartido. Uma tarde domingueira a fazer-se correr lenta, como contraponto à “Era dos Milagres”, como o primeiro dos três começa por cantar acerca da validação feita nos ecrãs de tudo o que parece ter lugar, mas em nada fora deles. É assim que escutamos d’”O Homem Possível” e da sua música de análise sempre na esfera de cantar sobre o que  se viveu, como relembra, aliás, do principio um dia supostamente aprendido. Leva-nos até esse “Cantar de Emigração” sobre um poema de Rosalía de Castro que José Niza musicou para a eternidade. E retomou-se: “Este parte, aquele parte / e todos, todos se vão / Galiza ficas sem homens / que possam cortar teu pão”. Seguiu-se Tio Rex e nisso uma delicada voz barítono, embalada pelo dedilhar hábil e envolvente, transporta-nos numa atmosfera que convoca para perto auras de um Bill Callahan. O cantautor em função situa-nos no seu lugar “entre a harmonia e a neurose” como melhor define. Tio Rex é o alter-ego de Miguel Reis, feito músico na ruralidade da Arrábida e transportado agora para fora do lugar — um lugar para melhor, como (en)cantou em “The Kingdom”. Foi parte mediana de Arde abrindo a porta para as derradeiras cantigas do Maio. Não que fosse a música de José Afonso a chegar, mas antes Maio como autor de músicas. Maio é como que algo mais oculto e a quem não se acede à primeira pesquisa, como relembrou, mas está aqui e existe. Um estilo mais bluesman que os seus companheiros de viagem ardente. João Maio Pinto, para que se saiba e conste, é também ilustrador e designer gráfico com obra feita. O dedilhar das cordas de aço ou até mais rasgadas como se escutam é uma faceta de palco mas que chama para a leitura de Confissões de um Travesti levado à estampa pela Orfeu Negro. 

Assim foi este Periférico — muito feito de música, mas onde as palavras e os grafismos de capas (sejam de discos ou de livros) se juntam em tamanha medida e razão. Pode nem haver uma corrente estética de curadoria hermética, mas antes este aroma plural e diverso, como de um potpourri feito, e neste caso bem a propósito, de pétalas de flores próprias. Entidades como exemplos de existência em tempos que se precisam de consumadas (e nada consumidas) resistências para melhor sobrevivência.


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