LP / CD / Digital

Perfume Genius

Set My Heart on Fire Immediately

Matador Records / 2020

Texto de Pedro João Santos

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É a primeira vez que Mike Hadreas nos fita de frente. Nos álbuns anteriores de Perfume Genius, metamorfoses de pop barroca e queer, a linguagem ocular desmentia sempre o resto do corpo. As capas podiam mostrá-lo despido ou forrado a lantejoulas: pouco significado tinha, porque os seus olhos fugiam à lente, incapaz de devolverem à câmara o intimismo da música. Ao seu quinto álbum, oferece-nos o tronco nu sem barreiras nem adornos; os olhos a quem o queira ouvir.

À beira dos 40 anos, distante do período em que lutava contra o álcool e a agonia de viver, tudo nele parece brilhar. Essas dores pareciam ter prescrevido no primeiro par de álbuns, mas voltaram para assombrar o faustoso Too Bright, de 2014, em que Hadreas antepôs às baladas de enjeitado – canções perfeitas, de cunho gutural – uma nova atitude. Ainda não era amor-próprio, mas era uma posição intransigente sobre a sua homossexualidade e performance de género. “Queen” foi uma descoberta: uma música que pega no terror conservador, respira-lhe ao pescoço, passa-lhe um verniz, empresta-lhe uns saltos altos. 2016 trouxe as explosões–revoluções de No Shape, cheio de luz. Perfume Genius renascia através da possibilidade de se ligar a alguém, e só depois lutava contra o vilão. As músicas eram grandes combustões de si próprio, uma metáfora perigosa que é matricial no seu trabalho. Apenas a vontade de continuar a viver separa um verso como “Burn off every trace/ I wanna hover with no shape” dos seus primeiros temas. Das elegias a um corpo feio e disforme (“17”, “Too Bright”) até hinos cheios de oxigénio (“Slip Away”, “Wreath”), passou anos a enriquecer o seu som, mas continuou a escrever sobre querer desaparecer fisicamente, essa aversão crónica à matéria que o prende ao chão.

Set My Heart on Fire Immediately, contra todas as probabilidades, é o assumir de um corpo. Para começar, o autor respira fundo e percebe que metade do seu caminho está feito: a partir daí, apenas a “luz tenra” o pode documentar, as sombras ficam para trás. É um tema para convalescer, uma primeira pedra, esta “Whole Life”: um murmúrio que salta do piano para a orquestra – o único ponto, aliás, em que a direcção musical não dá uma vida brutal ao já enorme valor da canção. Nunca seria um single, o que se aceita mediante uma clara visão holística a que cada canto deste quinto álbum de Hadreas está obrigado.  Se cada membro cicatriza, então o corpo está vivo. Fica livre para embater em tudo o que seja desejo: “Describe” – um bordado em violentos acordes de guitarra, shoegaze para varejar as oliveiras – tece uma encruzilhada. Entre a breve canção sublimada e a vontade de errar pela vegetação, venha Hadreas e condense-as, ambas no mesmo ecossistema, porque tem todo o arsenal para o fazer. Algumas melodias parecem ter alcance mundial, outros estribilhos são desenhados com a preocupação de não engolir o resto da música. As imagens são colisões suaves, céus abertos, lama, cuspo, joelhos esfolados. Há um odor campestre que dá forma expedita a “Without You”, menos de três minutos de pandeiretas e Motown. É o mesmo cheiro que perfuma o alvor carente de “Just a Touch”, e que ajuda “Jason” e “Moonbend” (uma espécie de “Chiquitita” dos ABBA, só que sem alegria) a escreverem as suas memórias à beira de um riacho triste. Cada tema sabe que lugar deve ocupar, para mais facilmente poder sair dele, e transgredir a galope.  As meditações de ambiente fundem-se em rapsódias rock, as influências clássicas estendem-se aos grandes números pop. A escola expressionista de um compositor como Schoenberg encontra as sensações de um romântico como Brahms; a fusão é como se fosse lida na pauta minimalista de Terry Riley… mas esqueçam as referências. Oiçam apenas o crescendo hemorrágico de “Leave” – harpa, violino, drama, sim! – e o ataque staccato de alta voltagem em “Your Body Changes Everything”. Não vos soa à electricidade da vida?

“On the Floor” não se divide em movimentos, mas equivale a uma sinfonia. Um teatro em não-sei-quantos actos. Todos devíamos sonhar com esta capacidade de pintar, escrever, aflorar algo que sonhamos com tanta dor. Não precisamos de lhe tocar. Basta dar-lhe alguma concretização, para que o possamos arrumar, fazendo-o de forma tão espástica como é a sua natureza, tão virtuosa como aspiramos a ser. Esta canção é isso e tanto mais. Mil refrões que germinam com máxima luz, acordes que pulsam por todo o tórax; a voz de Hadreas bebe o ar em tragos sucessivos, fareja a glória até na mais triste ilusão. Movimentos que fluem de um para outro, até que a canção se esvai. Sim, esta fica como bitola para toda a música que ainda venha a ser ouvida em 2020. Set My Heart on Fire Immediately, esta tela fauvista de sons e paixões, não é sempre uma ordem. É, mais vezes, um murmúrio de um homem aos homens que já foi e que já quis ser, os que teve e quis ter. E é um paradoxo: a cada milissegundo, um novo coração é roubado, em qualquer parte do mundo. É fogo posto, imediato, irreproduzível. Mas o que Hadreas faz é colocar essa partícula sob um microscópio, esticá-la como massa, descortinar os mecanismos desse momento. A découpage dos amores: aquele que lhe deixou marcas no tronco, o outro que agita o seu interior, as suas mãos seguradas por alguém que chora enquanto o despe, costelas que se dobram “como veludo”, a mão dada a quem respira ao seu compasso. Não basta ser um vapor a pairar: o corpo não é uma masmorra de carne e peles, é um veículo que o leva até outros como o seu. E que lhe permite fazer música com as próprias mãos.  Perfume Genius lutou, durante tanto tempo, para se destruir. Hoje, aceita-se em pleno. Só tem de comer mais sopa, até que o corpo seja tão grande quanto a alma que dança lá dentro.

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