Percebes: “Ficámos à toa quando o Juan Atkins tocou um disco nosso”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Pedro Morais

A Percebes Música chegou ao seu primeiro ano de vida, momento entusiasmante em que se percebe que já se possui uma história, mas em que o futuro é ainda uma vasta possibilidade que a todos inspira.

Antes da celebração de hoje — que começa na Flur com Hélder Russo, Kaspar, Eduardo Martins e 2Jack4U e depois se prolonga no Lux com Early Jacker, Daino e Sheri Vari — pode ler-se o balanço destes primeiros 12 meses de intensa actividade, com direito a múltiplas edições, mas pode-se, sobretudo, captar um pouco dos sonhos para o futuro imediato que toda a equipa da Percebes quer transformar em realidade.



Um aniversário significa sempre o fechar de um ciclo e o abrir de outro. Há uma história até aqui, por isso é que se celebra esse aniversário. Façam, para já, o balanço possível disso.

[Kaspar] Sobrevivemos até ao primeiro aniversário [risos], no sentido em que havia muita coisa que era precisa ser feita quando começámos um projecto destes e sentimos que realizámos praticamente todos os objectivos que nos tínhamos propostos a fazer. E se calhar até ultrapassámos um bocado as expectativas…

[Pedro Caldeirão] De catálogo, de lançamentos, de feedback, de receptividade e empatia por parte das pessoas que nos foram recebendo. Acho que ficou acima das expectativas. Agora, acho que todos nós temos a noção que mais difícil do que fazer uma editora é manter uma editora. 

Este primeiro ano deu-vos esse ânimo para pensarem no futuro, não é…

[Kaspar] Sem dúvida. Em primeiro lugar fizemos isto por nós, e para nós. Eu nunca precisei da aprovação externa para ter a certeza que estávamos a lançar bons discos, e que o que estávamos a fazer encontrava o seu lugar natural no panorama artístico…

[Pedro Caldeirão] E porque já tinha sido bastante pensado. Há uma parte pré-Percebes… foram muitas as horas de conversa em que se estava a decidir se devíamos avançar ou não. Porque já todos nós tínhamos estado metidos noutros projectos e sabíamos que trabalhar em equipa a corresponder às expectativas de toda a gente (incluindo às nossas) podia ser um bocado complicado. Quando nós partimos, já com um plano muito traçado, se calhar está traçado até ao final deste ano de 2019, isso deu-nos uma base de trabalho muito mais sólida do que ter só ideia de fazer uma editora, começar e andar a acender uma luz atrás da outra. Quando se ia andando no meio de uma casa qualquer, nós já íamos com um bocado do caminho traçado e ajudou a que as coisas fossem fluindo. Obviamente que fomos encontrando algumas barreiras, mas já sabíamos para onde é que queríamos ir. 

Não há tutoriais no YouTube? De como ter uma editora e como a gerir?

[Kaspar] Acho que é um bocado como uma família. Há sempre coisas que exigem o nosso apreço uns pelos outros para saber ultrapassar e depois acho que também escolhemos estar rodeados de pessoas em que a questão do ego não é um problema tão grande, acho eu. Não quero estar a precipitar-me, sou conhecido dentro do grupo por ser um gajo precipitado no que diz [risos]. Acho que nos rodeámos de pessoas em que pelo menos essa questão não era tão relevante. Era mais a questão de querer fazer tudo tão bem, que às tantas estamos a exigir imenso uns dos outros. 

[Pedro Caldeirão] Acho que essa questão dos egos é mais problemática quando uma editora é só constituído por um grupo de artistas em que eles acabam por entrar ali em rivalidade ou pensar que um pode tirar o lugar ao outro. E aqui talvez, puxando aqui a brasa ao meu percebe, ao meu e o da Sara, nós não sendo artistas, e não estando a concorrer por datas nem por edição de discos, mas querendo fazer parte deles, de outra forma, tentamos sempre ao mesmo tempo que metemos uma acha na fogueira também vamos pondo água. E aquilo vai andando ali em lume brando e vamos tentando gerir esta mentalidade mais artista que esta pessoa mais criativa…

Ou seja, contrapõem o delírio com o pragmatismo.

[Pedro Caldeirão] [Risos] Sim, vamos tentando fazer isso. A nível interno, a nossa maior qualidade acaba por ser o nosso maior defeito também, que é: nós somos muito diferentes entre nós. E quando estas diferenças acabam por gerar uma erupção vulcânica em que estamos todos coincidentes no momento exacto a fazer… 

[Kaspar] É frequente acontecer estarmos a pensar exactamente na mesma coisa, com as mesmas ideias, o mesmo feeling, e nem falámos sobre isso. 

[Pedro Caldeirão] Mas às vezes quando chocamos, também chocamos mesmo a sério. 

Sou casado há 20 e tal anos, bem sei.

[Pedro Caldeirão] Pronto, está bem, mas isso é diferente…



É a mesma coisa, uma editora é um casamento, não é?

[Sara Sirvoicar] É uma relação, sim. 

[Pedro Caldeirão] Isso até leva a outro ponto. Apesar de sermos dois casais, estávamos numa questão muito monogâmica, porque o Kaspar e a Mariana [são] um casal de artistas/produtores, eu e a Sara dando o nosso contributo noutras áreas, mas às vezes chocamos um bocado. 

Casal contra casal? 

[Pedro Caldeirão] Sendo um número par, havia muitos empates. O que é que aconteceu? Este senhor [falando de Hélder Russo] que aqui está acabou por ser adoptado [risos].

Neste ano, o que é que vocês diriam que foram os três ou quatro marcos que definem o vosso percurso que agora está a ser celebrado?

[Pedro Caldeirão] Sem dúvida alguma que, para mim, foi ver o primeiro disco cá fora e a receptividade do mesmo. E todo o trabalhar da imagem, da identidade gráfica, da forma de comunicar, de como é que nos iríamos apresentar. Isso é estares quase a construir um filme. Portanto, para mim, esse é o grande ponto positivo. 

[Sara Sirvoicar] Sim, mas para nós foi mesmo… Tivemos a ideia, e uma ideia toda a gente pode ter, e nós já tivemos imensas. Mas quando tivemos o objecto na mão, e vimos que era uma coisa real, e que estava mesmo como nós queríamos… 

[Pedro Caldeirão] Depois, para mim, acho que o segundo marco não é um dia nem um momento, é quando começas a perceber que as pessoas estão a ligar ao que tu dizes e que tu consegues ir a vários sítios falar sobre aquilo. Nós termos ido a Faro, Peniche ou Ericeira, fora dos grandes clubes e epicentros onde toda a gente quer estar, e sermos bem recebido e termos pessoas à nossa volta que querem comprar t-shirts, saber dos discos e conhecer os artistas… Isso para mim é um marco importante. É quase um descentralizar aquilo que está mais institucionalizado e conseguires ir a outros sítios. Acho que a Percebes é um bocado isso. A Percebes é um colectivo que, ok, gosta de estar no centro das atenções, mas também gosta de fazer coisas mais pequenas. 

Nós sabemos muito bem a nossa capacidade de mobilizar pessoas e a nossa forma de estar no meio. E agrada-nos mais fazer estas pequenas coisas mais intimistas, e ter pessoas em sítios mais se calhar improváveis, do que fazer só uma coisa sempre no mesmo sítio. E isso para mim é um marco importante: é perceber que aquilo que nós tentávamos passar como uma mensagem de música descomprometida depois se via nestas primeiras viagens que fazíamos aqui e ali. 

[Kaspar] Sim, houve situações, por exemplo, em que nós chegávamos a um sítio e alguém tinha trazido um prato de percebes porque sabia que nós íamos. 

Vou criar uma editora chamada Lagosta…

[Kaspar] [Risos] Para mim, um momento que me deixou à toa foi quando eu vi o Juan Atkins a tocar o disco da Mariana num evento paralelo ao ADE. Eu clico para ver o set do gajo e ele toca aquilo, o remix do Carlos Nilmmns. Estamos aqui com o pai do techno a tocar o nosso disco. E depois quando eles fizeram a promo do set, meteram aquele momento em que ele tocou aquilo. Isto não foi nada propositado… Então de repente estava muita gente a ouvir. 

O que é que é isso? Alinhamento cósmico?

[Kaspar] Eu senti que tínhamos furado qualquer coisa ali, pelo menos para nós próprios. 



A cena de electrónica de dança já foi muito unidimensional, no início, mas hoje dá-me a impressão que é um prisma com muitas faces. Digam-me: o que é que acham que distingue a Percebes neste momento? O que é que são no meio deste “caos”?

[Kaspar] Eu nunca tive problemas em encontrar resposta a essa pergunta. Porque eu, pelo menos do que era o conteúdo artístico e musical da Percebes, estava esclarecido sobre o que é que eu gostava de sentir ao ver manifesta esta ideia. O que eu quero dizer com isto é que não era tanto uma questão estética, era mais uma questão de feeling. 

Mas também é estética ou não? 

[Kaspar] Acho que vais ser surpreendido com as ambições futuras nesse sentido. Porque nós não queríamos repetir a ideia no segundo ano e tentar talvez ambicionar ter uma linguagem ainda mais específica, que seja uma síntese do que define a nossa cena portuguesa a este nível. 

Mas falavas então sobre a vossa atitude…

[Kaspar] Sim, para já estamos sempre abertos ao input uns dos outros, nos vários níveis, inclusive na música. Mas tipo eu simplesmente só queria encontrar autenticidade nas coisas, não estava à procura de ir mais para o house ou para o techno… Eu tentava era ouvir música que me parecesse sincera e despida de manias. Que fosse mesmo transparente. 

O chamado “sem merdas”…

[Kaspar] Exactamente, que fosse música sem merdas. E que fosse verídica às raízes que me revia, que tem a ver com a minha história no Frágil, tem a ver com o que é o Frágil tem em comum com outros projectos mais antigos ainda, e se calhar noutros países, que tornou isto tudo um continuum que para mim era identificável. Imaginar o que é que eram discos que batiam no Paradise Garage e batiam no Frágil. E batem no Lux. Há qualidades nesses discos que são intemporais e eu acho que nós estamos à procura um bocado dessa veia, de saber que os discos que estamos a lançar daqui a 10 anos vão-nos dar prazer de ouvir outra vez. 

[Pedro Caldeirão] Mas também é acreditar nas pessoas e nos projectos artísticos. O grupo já estava reunido. Tendo em conta que eu e a Sara também já vínhamos de outros projectos e havia artistas nos quais acreditávamos. O caso do Early Jacker, por exemplo. Eu e a Sara achámos que os 2Jack4U e o Early Jacker faziam sentido aqui. E tentámos construir um grupo de pessoas. E nós tínhamos aqui uma vontade conjunta de apostar num grupo de pessoas antes de apostar num estilo ou numa estética. 

[Sara Sirvoicar] Pessoas que em princípio tenham os mesmos princípios que nós. 

[Pedro Caldeirão] Obviamente que isto não está fechado, não nos negamos a ouvir uma demo, mas não somos uma editora muito aberta neste momento. Eu, se pudesse, estava sempre a editar música, mas não tenho capacidade para isso. Há discos novos todas as semanas e não tenho uma capacidade de conseguir aglutinar em mim um grupo de artistas maior do que aquele que tenho. Se é com estes que eu estou, é com estes que eu trabalho. E é isso, essa parte humana, que nos distingue dos outros todos porque trabalhamos com estes e não trabalhamos com mais ninguém. Para mim é isso. 

[Sara Sirvoicar] Estamos mais à procura de fazer o máximo por aqueles poucos que temos do que estar à procura de mais pessoas. 



E o que é que as pessoas vão dançar no próximo ano?

[Kaspar] Neste momento, “só” temos duas edições praticamente finalizadas. O Hélder [Russo] fez o seu terceiro EP. Fala um bocadinho deste disco, por favor. 

[Hélder Russo] Não sei explicar muito bem a música que eu faço. O que sai é o que sai. 

Mas dá para dançar? 

[Hélder Russo] Há uns quatro anos que eu não fazia um disco 4/4. Porque ultimamente faço sempre uma cena mais quebrada, mas desta vez tentei simplificar. 

[Kaspar] Mas não foi por indicação nossa…

[Hélder Russo] E fazer música para os DJs tocarem. Mas sempre com aquela referência mais soul que eu gosto. 

[Kaspar] É engraçado ver a perspectiva dele porque na verdade o disco dele é mais interessante do que ele está a descrever [risos]. Porque tem músicos convidados, tem partes de piano… O disco do Hélder também vai ter um remix que nós gostámos muito. 

[Hélder Russo] Convidei um pianista, que se não me engano, é finlandês. Ele está a residir em Portugal, está a viver com a namorada portuguesa, que é bailarina, e convidei-o para tocar numa faixa minha. Ele faz basicamente um solo de piano. Convidei também a Mariana Domingues, que ficou em segundo lugar nos Ídolos. Gostei muito da voz dela e decidi convidá-la. 

[Kaspar] Há uma canção no disco do Hélder que nós achámos que era muito bonita. Eu disse logo ao Pedro e à Sara: “pá, esta canção está especial”. Faz lembrar um bocado a Sade, mas num andamento mais dançável. É um disco cheio de colaborações e depois tem uma remistura muita fixe do Leonidas. 

Então e o outro disco?

[Kaspar] O outro disco é do Daino. É um grande amigo nosso que nos acompanhou sempre de perto noutros projectos em que tivemos. Por acaso, sempre que chegava a vez dele de lançar qualquer coisa, a gente acabava sempre por criar outro projecto. Foi ficando sempre um bocadinho para trás, até fazermos a Percebes, e pronto, temos apostado nele, definitivamente. 

[Pedro Caldeirão] Sim, mas o Daino, apesar de ser um artista novo em termos de ser desconhecido e de idade, tem música muito boa que já foi editada. E fazia sentido, por tudo o que ele é não só em pessoa, mas também [por causa] da música que ele já editou, estar connosco. Nós tínhamos que escolher quem é que íamos editar primeiro e ficou agora também porque ele é bastante exigente. E, segundo percebi, estão a existir alguns problemas…

[Kaspar] Não, já terminámos o disco do Daino. 

[Pedro Caldeirão] Há ali umas partes que estão a ser levadas a um ponto…

[Kaspar] Trabalhámos um ano e meio na finalização do disco. Porque eu e ele queríamos mesmo que o primeiro disco dele fosse tudo aquilo que devia ser, pronto, e ele trabalhou sempre muito nesse sentido também. Eu sei que chegámos a um disco muito bom. 

Vocês imaginam-se daqui a 10 anos a fazer ainda coisas com esta marca? 

[Kaspar] Acho que sim. Ninguém se meteu nisto para não ver as coisas assim. O meu problema é: tendo conseguido fazer tanto neste ano, como é que vamos conseguir continuar a crescer.

[Sara Sirvoicar] Mas eu acho que nós não estamos sempre super preocupados com [o que se vai passar] daqui a 10 anos; nós estamos muito mais preocupados com o fazer agora e bem feito. 

[Kaspar] Esqueci-me da cena do Kerri Chandler…

Qual é a cena do Kerri Chandler?

[Kaspar] Na sexta passada estava a passar música antes do live do Egyptian Lover na pista do Lux e em baixo estava o Rui Vargas com o Kerri Chandler. Depois de termos visto o Egyptian Lover, que deu cabo daquilo, foi brutal, houve aquele momento em que ficávamos a pensar o que fazíamos depois. É difícil continuares depois duma actuação daquelas e foi aquele primeiro momento em que eu decidi ir à pista ver o que é que estava a acontecer. Por acaso tive aquela ideia de tirar um disco a ver se por acaso conseguisse encontrar-me com ele, mas sem grandes pretensões. Cheguei à pista e estava completamente cheia, não cabia quase ninguém, demorei 10 minutos a conseguir chegar à porta da cabine. Por acaso alguém entrou, eu esgueirei-me lá para dentro, perguntei ao Rui se podia ir dar uma cópia ao Kerri Chandler. Eu sentei-me para não verem que eu estava ali… dez minutos depois de eu lá estar, ele perguntou-me se eu estava bem e se precisava de alguma coisa. E só lhe dei o disco, mais nada. Ele imediatamente pegou no disco, picou-o, escolheu um tema, e a faixa a seguir que ele tocou era a “Brand New Meaning” do EP que nós fizemos. E tocou aquilo no pico da noite. Eu nem consegui reagir naquele momento. Depois quando cheguei a casa fiquei um bocado emocionado porque nem estava a acreditar. Deixou-me sem reacção.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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