Patrice Rushen // Remind Me (The Classic Elektra Recordings 1978-1984)

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

1978: sim, o punk cedia o passo à new wave e Bruce Springsteen explorava a escuridão no limiar das grandes cidades; sim, Marvin Gaye divorciava-se oferecendo um álbum, Here My Dear, como compensação a Anna Gordy e Michael Jackson abraçava a pista de dança provando, mesmo que vestido de espantalho, que o disco era mesmo a banda sonora de sábado à noite em todo o planeta; e sim, enquanto tudo isso acontecia, Herbie Hancock impunha o groove que mais sentido fazia a bordo dos iates que se passeavam ao largo de Miami enquanto nos garantia que pensava que éramos nós

Foi nesse ano que Patrice Rushen assinou com a Elektra/Asylum, a editora que tinha resultado da confluência dos interesses de Jac Holzman e de David Geffen e que à época parecia apostada em expandir os seus interesses para lá dos férteis domínios do rock clássico e dos singer-songwriters que o seu catálogo tão bem cobria. Para tanto, em 1978, essa editora lançou álbuns como Just Family de Dee Dee Bridgewater, Starbooty dos Ubiquity de Roy Ayers, Thank You… For F.U.M.L. (Funking Up My Life) de Donald Byrd ou até mesmo 88 de Sérgio Mendes, trabalhos que expandiam os horizontes representados pelas edições nesse mesmo ano de artistas como Carly Simon ou Harry Chapin.

“A ideia”, explicou a própria Patrice Rushen à Strut, editora responsável pelo lançamento da antologia que agora documenta o período em que esteve ligada à Elektra/Asylum, Remind Me, “era criar música que fosse boa para as rádios mais comerciais. Andávamos todos a fazer música de dança sofisticada, basicamente”. Com isso, a cantora e também pianista com formação jazz, referia-se à criação de uma música pop inserida na tradição negra do r&b, marcada por uma produção musicalmente ambiciosa, que não poupava no departamento dos recursos humanos e que se mostrava capaz de abraçar a declinação disco que então mais se conjugava nas pistas e nas tabelas de vendas.

Olhando para os músicos presentes nas sessões que renderam Patrice, o álbum de 1978 que marcou a sua chegada à Elektra/Asylum, percebe-se o nível a que a artista estava a trabalhar: James Gadson na bateria, Paulinho da Costa e Bill Summers nas percussões, Larry Williams no saxofone, George Bohannon no trombone ou Al McKay nas guitarras são nomes que imediatamente ligam Patrice Rushen a um universo habitado por luminárias como Marvin Gaye, Isley Brothers, Herbie Hancock ou Earth, Wind & Fire, para invocar apenas alguns dos gigs mais regulares dessas “feras” de estúdio. Nos álbuns seguintes, Rushen contou com muitos mais gigantes: do baterista Leon Chancler (Crusaders, George Duke) ao guitarrista Melvin “Wah Wah” Watson (é dele a guitarra de “papa Was a Rolling Stone”, clássico dos Temptations), do percussionista Eddie “Bongo” Brown (uma das “armas secretas” da Motown) ao guitarrista Greg Moore (que integrava a banda de Roy Ayers), entre tantos outros.

Ainda assim, os álbuns que Patrice Rushen lançou entre 1978 e 1984 – Patrice (78), Pizzazz (79), Posh (80), Straight From the Heart (82) e Now (84) – nunca lograram alcançar os lugares cimeiros das tabelas, quedando-se por números moderados de vendas, suficientes para sustentar uma carreira de palcos médios e para, anos mais tarde, preencherem os bins mais acessíveis das lojas de segunda mão, mas não para garantirem o tipo de sucesso que a poderia ter elevado ao estatuto de figuras suas contemporâneas como Stevie Wonder ou Michael Jackson. Bastante longe disso até.

Mas, talvez por serem tão comuns nos dollar bins que no início dos anos 90 começaram a ser percorridos por uma geração de produtores de hip hop em busca de samples, esses discos de Patrice Rushen foram ganhando estatuto de clássicos precisamente porque estavam constantemente a serem “reciclados”: por exemplo, “Forget Me Nots”, single retirado do álbum Straight From The Heart, com o seu escorreito groove feito de handclaps, Rhodes e baixo pulsante, foi samplado dezenas de vezes, chegando aos tops nos anos 90 pelas mãos de gente como Will Smith (“Men in Black”) e George Michael (“Fastlove”), mas também povoando as caves da cultura graças à imaginação de colectivos como os Beatnuts (“Give Me Tha Ass”) ou East Side Hustlaz (“Forget Me Not”). 

Alargando o espectro até ao presente, entre as centenas de vezes que Patrice Rushen foi creditada via sampling, encontraremos a sua música ligada a nomes tão distintos quanto os $uicideboy$, Mobb Deep, Junior M.A.F.I.A, Brandy, Mary J. Blige, Fat Jon, Slum Village, NxWorries,  Curren$y, Gravediggaz, De La Soul ou, para citar só mais um par de exemplos, Nas ou Shabba Ranks. Listar todos estes nomes serve apenas para vincar a validade no presente do som de seda de que Patrice Rushen foi uma das notáveis criadoras na viragem dos anos 70 para os anos 80, um som que bebia no disco, na soul e no mais sofisticado jazz-funk para avançar uma nova ideia de pop que hoje alimenta, por exemplo, a imaginação de artistas como Thundercat.

Redescobri-la em Remind Me (The Classic Elektra Recordings 1978-1984), portanto, equivale a investigar uma das raízes de uma refinada modernidade que a música negra impôs à pop. No artigo a ela devotado no New York Times a propósito desta antologia, cita-se uma entrevista que Patrice concedeu a Don Cornelius aquando da sua passagem pelo mítico programa de televisão Soul Train. O apresentador mencionou que o álbum que a consagrava e que a tinha levado ali, Straight From The Heart, parecia vir “de um lugar tão genuíno e tão pleno de nuances como os seus primeiros álbuns de jazz”. A isso, Patrice Rushen contrapôs: “Ilustra mais ou menos a mudança que eu penso que a música negra está a atravessar. estamos a voltar ao groove e à forma genuína de sentir as coisas – de certa maneira estamos a misturar as complexidades com o que é simples e a juntar tudo para criar algo de novo. É muito excitante”. Rushen referia-se, claro, à ideia de abordar a pop com a bagagem do mais avançado jazz, uma estratégia que tem rendido dividendos de Prince e Michael Jackson a D’Angelo ou Kendrick Lamar.

Curioso é pensar que este material anteriormente relegado para os tais “dollar bins” por oposição às mais cruas e tecnicamente básicas gravações de funk de garagem que muito graças ao evangelho espalhado por produtores como DJ Shadow atingiam somas astronómicas no mercado de coleccionismo esteja agora a ser repensado e revalorizado, talvez não na bolsa de valores (leia-se Discogs, onde os originais de Patrice Rushen agora revisitados valem cada um poucos dólares), mas certamente no panteão das referências estéticas que hoje inspiram gente como o já mencionado Thundercat, mas também Robert Glasper ou, entre tantos outros nomes, Chance The Rapper, Kanye West, Noname, The Weeknd ou Tyler the Creator.

Nesta compilação, as baladas, como “When I Found You”, por exemplo, soam como a cartilha por onde haveriam de estudar as divas das tempestades tranquilas, como Sade ou Anita Baker, ao passo que os temas com grooves mais vincados tornavam claro que a pista de dança era não apenas porto seguro para corpos negros suados e nus, como sucederia nos subterrâneos da Nova Iorque, Chicago ou Detroit de meados dos anos 80, mas também para corpos igualmente negros mas elegantemente vestidos de lantejoulas e smokings, dançando nas mais elitistas penthouses de Miami ou Los Angeles. E, cena mais importante de todas, Patrice não é memória. É corpo presente e até está a preparar uma digressão europeia. Dedos cruzados para que a possamos ver em Portugal em 2020!


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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