PARTYNEXTDOOR // PARTYNEXTDOOR 3

review p3

 

[TEXTO] Amorim Abiassi Ferreira

Em regra geral, um álbum merece várias escutas para finalmente ser uma certeza entre os nossos gostos. O novo projecto de PARTYNEXTDOOR, PARTYNEXTDOOR 3 (que passarei a diminuir para P3)  apresenta-se tão fechado sobre si que, embora eu tenha apreciado com facilidade os dois últimos lançamentos (P1 e P2), tive de dedicar bastante mais tempo a tentar entender P3 e, acima de tudo, o que o torna tão codificado.

Estamos a atravessar uma fase em que o r&b está a mudar o mood e muitos artistas se afastam do som mais nocturno que se popularizou com a ascensão de The Weeknd (incluindo o próprio). Já PARTYNEXTDOOR mergulha ainda mais no breu. P3 pode ser uma escuta densa, mas a primeira faixa (“High Hopes”), produzida pelo cantor, é uma representação precisa dos contornos gerais do álbum: longo, introspectivo e feito para os interessados. Se esta música vos seduzir, a viagem de uma hora e pouco pode mesmo valer a escuta.

 



“Come and See Me” é a peça que melhor acerta em todos os pontos que definem o estilo deste projecto. Produzida por Noah “40” Shebib, o veterano produtor mostra mais uma vez a sua habilidade em conseguir equilibrar o minimalismo de elementos com identidade suficiente para abraçar a personalidade do vocalista que, por sua vez, também escreveu de forma cativante. Quanto ao verso de Drake, vamos fazer como o vídeo e deixá-lo de parte. O problema surge com as músicas cuja produção não consegue carregar tanta individualidade, acabando por se misturarem umas com as outras. Outros pontos de interesse: o segundo single “Not Nice” no seu estilo caribenho incontornável de 2016 (sobreviverá à passagem de ano?) ou as experiências vocais e sonoridade macabra-minimalista de “Brown Skin”. Dois momentos relevantes que não conseguem levantar o nível do disco.

Em entrevista, Jahron descreve o álbum como sendo um mudança do braggadocio que definiu os dois lançamentos anteriores para o blues. Com a nova tonalidade também entrou um olhar bastante mais introspectivo, até na sonoridade, que se fecha sobre si. Refrões não são memoráveis e nem parecem ter sido escritos para tal efeito. É importante lembrar que ele foi um dos escritores de “Work”, o hit inevitável de Rihanna que marcou o início de ano. Poucas são as músicas que ficam no ouvido. P3 pode ser resumido como um longo excerto do diário de um músico que, ao longo do último ano, andou nas bocas do mundo, não propriamente pelas melhores razões, enquanto fazia as suas maiores conquistas profissionais numa combinação de ganho e desolação.

 


Amorim Abiassi Ferreira

Amorim Abiassi Ferreira

Copywriter comprometido com a descoberta e partilha de música. Gosta mais deste propósito do que de café e quem o conhece sabe que isso é uma declaração séria de amor.
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