PARTISte a Cidade do estereótipo

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos  [FOTO] URB

 

No centro está a periferia, aquela mancha enorme no mapa das cidades para onde não olhamos. Não porque a vista não alcança, mas porque olhar com os olhos é diferente de absorver com os sentidos todos. Infelizmente, mesmo quando adquirimos bilhete e nos sentamos em frente da tela não sei bem se vemos essa cidade invisível, esse bairro enorme de tantos tons de cinzento.

Estou certa de que não estou a ser simples nem directa. Caracteriza-me até, ultimamente, um certo pessimismo quando o objectivo dos projectos passa por desmistificar e destruir estereótipos e preconceitos. Cheguei, talvez mais tarde do que outros e mais cedo do que outros tantos, à conclusão de que a esmagadora maioria das pessoas opta pelo rápido, fácil e, se for possível, já mastigado. “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força” são, escreveu George Orwell no clássico 1984, as palavras de ordem do “Grande Irmão”. Triste, não é?

É por me entristecer o quão embrutecidos e formatados estamos que gosto de aplaudir programas como o PARTIS e, em particular, o filme Cidade desenvolvido pelo projecto URB. O filme ou episódio piloto de uma série, que espero muito que a televisão portuguesa aceite e transmita em horário decente, levanta o véu da realidade que não vemos, mas que devíamos ver no ecrã. Baseia-se em histórias partilhadas por moradores de bairros que participaram no URB. Pessoas como o rapper Karlon, por exemplo, de quem a história reescrita pelo realizador João Salaviza conquistou lugar no Festival de Berlim já em Fevereiro. E pessoas como um ex-recluso que valoriza uma janela sem barras de ferro ou do rapaz que tirou um curso de geriatria no IEFP e até o jardineiro de uma senhora com problemas de saúde mental. Os actores não são profissionais e a linguagem não é convencional. É real e é, diria eu, necessária.

Como disse, estou pessimista e descrente. Vejo colocar-se na borda do prato tudo aquilo que é necessário mastigar para digerir. Mas se meia dúzia vir o Cidade, seja em série ou em filme, já serão mais seis pessoas a ter a oportunidade de pensar e fazer diferente. Falta arte nos bairros, dizia-me o Karlon em entrevista. Eu diria que falta olhar com olhos de ver para a arte que, eu sei, se faz nos bairros.

 


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