Parkbeat Legends: um furacão chamado hip hop passou pelo Capitólio (Parte 2)


[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Hélder White [VÍDEO] Sebastião Santana & Luis Almeida

O ambiente estava ao rubro à saída de Nel’Assassin. Maze regressava novamente ao palco para anunciar as lendas que se seguiriam no alinhamento da primeira grande noite do PARK fora de portas. DJ Ride e Stereossauro entraram com o pé no acelerador, dispostos a mostrar de que fibra são feitos os campeões, com recurso a muitas frequências graves, batidas possantes e bastantes pormenores puramente lusitanos — as vozes de Zeca Afonso ou Luis Cilia fizeram-se ouvir em remisturas que fazem a ponte entre o passado e o presente da nossa música. Não faltou, claro, a rotina em torno de “Verdes Anos”, o original de Carlos Paredes que se transformou numa das imagens de marca dos Beatbombers, que não abandonaram o palco sem replicar a fórmula que lhes valeu o bi-campeonato da DMC que aconteceu na Polónia há dois anos.

 



Os DJs Kronic e Kwan uniram esforços na primeira edição do Parkbeat Legends para nos levarem por uma inesquecível viagem pela “história do hip hop português”, conforme anunciaram à entrada. Dos primordiais General D ou Black Company, houve tempo para rever quase toda a matéria de maior relevo neste capítulo em constante mutação — Sir Scratch, NBC, Regula ou Boss AC cruzaram-se no set com Bispo, GROGNation, Holly Hood ou X-Tense, com espaço também para uma pequena homenagem a Snake, cuja participação na mixtape Lisa Chu se fez ouvir por todo o Capitólio. Kronic e Kwan não estiveram sozinhos em palco, elevando a fasquia da actuação com alguns convidados pontuais: Chullage rimou “Rhymeshit Que Abala” e “Mulher Da Minha Vida” antes de agradecer ao público e de se retirar, visivelmente emocionado pelo forte aplauso que arrancou da plateia; Carlão trouxe consigo “#Demasia”, do seu mais recente álbum, e surpreendeu tudo e todos quando convidou Sam The Kid, “o rei desta merda”, para partilhar o microfone no clássico “Crime do Padre Amaro”, que teve a voz de Bruno Ribeiro a substituir — e de forma incrível — SP no refrão; Também Mundo Segundo e Maze tiveram direito a partilhar temas a solo com o público, com o primeiro a chamar Sam The Kid novamente ao palco, que iria ainda ter algum tempo com os holofotes virados só para si quando chegou a vez de “Poetas de Karaoke”.

É curioso que a sala tenha esvaziado ligeiramente depois da homenagem ao hip hop nacional, mas algo que só demonstra o excelente momento de forma que atravessa a cultura musical urbana em Portugal, que agora alberga uma larga quantidade de talento suficientemente grande para chamar a atenção do público por si só. Ainda para mais quando DJ Jazzy Jeff era o nome que se seguia no alinhamento do evento, ele que se estreou no sábado em território lusitano.

 



Acompanhado por Rhymefest e Dayne Jordan, o espectáculo liderado pelo lendário DJ e produtor norte-americano arrancou com “Skaters Paradise”, a segunda faixa do alinhamento de M3, o terceiro disco de originais que saiu no passado mês de Maio. Os dois MCs, parceiros de viagem de Jazzy Jeff na presente tour europeia, serviram para ir puxando pela plateia, apenas chamados a prestar serviço “a sério” novamente a meio do set — Dayne Jordan testou alguns versos em cima de uma batida feita com recurso a samples do jogo Super Mario e Rhymefest arrancou as gargalhadas da noite com um improviso inspirado pelas pessoas que via na frontline do recinto. Kendrick Lamar foi o artista a quem Jazzy Jeff mais recorreu durante a sua prestação de hora e meia, durante a qual percorreu hinos obrigatórios como “Ante Up” ou “Be Faithful”, colocando algumas agradáveis surpresas pelo meio como foram os casos de “Fly Away”, de Lenny Kravitz, ou um apetitoso mash-up entre “Welcome To Jamrock” e “Rockstar”, de Damian Marley e Post Malone, respectivamente. Na recta final, “invasão de campo” por parte de uma crew de b-boys, a cereja no topo do bolo numa das maiores festas de hip hop que Portugal registou em 2018.

DJ Glue foi o último a entrar a cena e ficou-lhe incumbida a tarefa de aguentar no Capitólio a parte do público que não acompanhou Jazzy Jeff na saída. O seu trunfo esteve na polivalência, ele que percorreu todos os caminhos possíveis da música urbana para agradar a gregos e troianos, sem nunca destoar o brilhantismo da sua actuação, ele que é também um verdadeiro veterano atrás dos pratos. Hip hop tradicional ou futurista, batidas orgânicas ou digitais, indo de um registo chill out ao assumidamente festivo durante duas horas regadas de skills de turtablism e ecletismo musical. “Ms. Fat Booty” pode muito bem ter sido um dos momentos altos do seu set, aliando um dos maiores mestres norte-americanos na arte da rima à oportunidade de homenagear Aretha Franklin, ela que nos deixou este ano e teve o seu “One Step Ahead” recriado neste clássico de Mos Def.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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