Parkbeat Legends: um furacão chamado hip hop passou pelo Capitólio (Parte 1)

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Midnight Madness

Leslie prometeu e cumpriu. A passagem do furacão por Portugal deixou várias marcas (mais de 1400 ocorrências até às três da madrugada) e a cidade de Lisboa não foi excepção, com vários eventos a serem cancelados ou obrigados a repensarem a sua configuração. Foi o que aconteceu com o Parkbeat Legends, no Capitólio, em pleno Parque Mayer, que, depois de um bom par de avisos recheados de chuva e vento, acabou por se mudar de armas e bagagens para a sala do piso inferior do local, deixando para trás e abandonado o terraço onde inicialmente se propusera realizar.

Pouco passa das 21h. O novo poiso para a festa da Parkbeat Legends parece agradar a todos e recoloca o sorriso na face daqueles que, minutos antes, se concentraram nas extremidades cobertas do terraço para se abrigarem das não-assim-tão-inofensivas gotas de água. No palco, os Mazarin assumem as suas posições na bateria, baixo, guitarra, teclas e sintetizadores para uma curta mas eficaz odisseia pelo imaginário de um dos mais lendários e respeitados nomes de sempre do universo hip hop, J Dilla. Esta não era, porém, a primeira vez que o colectivo português entrava em cena. Minutos antes, no malfadado piso superior do edifício, os músicos viram-se pelo menos duas vezes obrigados a desmontar o seu setup como forma de garantirem a sua segurança e a do próprio material: água não é coisa que combine com as peles de bateria e muito menos com a electricidades injectada em amplificadores e teclados.

Não é por isso de estranhar a alegria estampada na cara dos elementos do grupo, que viram o seu rooftop sunset transformado numa espécie de sessão jazz em sala quente e aconchegada, ao bom estilo dos conhecidos clubes de Chicago. Dizer que os Mazarin são os BADBADNOTGOOD portugueses não é precipitar comparações e muito menos evocar um estatuto que este quarteto – numa configuração alargada pensada para a ocasião – naturalmente ainda não goza. É, isso sim, reconhecer um evidente e inegável talento na execução e uma contagiante paixão pela matéria abordada. Ver Afonso Serro, João Romão, João Spencer e Vicente Booth a abordarem desta forma a obra de Dilla, com direito a solos de saxofone pelo caminho, é um acto arrojado e nobre que chegue para arrepiar a espinha de qualquer ser vivo que tenha um apurado par de ouvidos, mesmo sendo, segundo as palavras de um dos elementos da banda, “a primeira vez que tocam este set ao vivo”.

É cada vez mais evidente o espaço que o jazz está a reocupar no nosso quotidiano, com artistas como Kamasi Washington, Thundercat, os já referidos BADBADNOTGOOD ou até Robert Glasper a transportarem o estilo para paisagens de contornos alargados e riqueza abundante. É nesta fonte que os Mazarin vão beber, sem medo e, ao mesmo tempo, sem ser necessariamente denunciado, articulando bombos e tarolas cheios e marcados, e valendo-se de linhas de baixo tão redondas quanto o bolo que dá nome a um dos mais aclamados álbuns do artista homenageado, lançado em 2006. A viagem é curta, como já fora anteriormente referido, mas suficientemente eficiente para deixar no ar a ideia de que este quarteto tem calibre que chegue para, no futuro, pisar palcos com outra dimensão e outra responsabilidade. Banda de abertura para um dos dias do EDP Cool Jazz 2019? E por que não?

 



Seguiu-se, no mesmo espaço, Nel’Assassin, uma das maiores referências da velha escola do hip hop nacional. O DJ, que integrou o colectivo Micro, a par de Sagaz e D-Mars, incendiou o Capitólio com um set que passou por temas como “Hypnotize”, de Notorious B.I.G., “Rock Star”, dos N.E.R.D., e  “ELEMENT.”, de Kendrick Lamar. Um dos pontos altos da actuação, que teve direito a uma constante interacção com o público, através de um microfone montado no estrado de DJ, prendeu-se na desconstrução in loco do clássico “Killing in the Name”, dos Rage Against the Machine, com recurso a loops, beat juggling e à sublinhada técnica que define tão bem Nel’Assassin. Foi sem dúvida um dos grandes momentos do dia de anteontem, uma passadeira vermelha estendida por alguém que anda há décadas ligado à cultura.

Momentos antes, num terraço ainda soalheiro e longe da indesejada visita da temida tempestade, Isac Ace, DJ BIG e Maddruga garantiram a abertura de portas e a recepção aos primeiros convidados. “Ante Up”, dos M.O.P., “Stronger”, de Kanye West, “For My People”, de Joey Bada$$, “Boom”, de Royce Da 5’9”, e “Da Rockwilder” de Method Man e Redman, foram alguns dos temas servidos num final de tarde também polvilhado pela tinta que viajou das latas de spray dos writers convidados para uma parede de cubos da Montana e pela expressão corporal dos dançarinos que protagonizaram verdadeiros momentos de arte na frente de palco, ao som de canções como “Galvanize”, dos The Chemical Brothers. Antes disso, “Come Together”, dos Beatles, e “Sexual Healing”, de Marvin Gaye, deram um ar de sua graça a partir do PA montado no local, prova que este é um género que continua a viver além-fronteiras e sem limites. É assim desde os anos 70 e assim continuará a ser.

 


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