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Fotografia: Sara Falcão

Para sentar, ouvir e reflectir.

Papillon sobre “Chillin’”: “Tentei captar ao máximo a transição do antigo normal para o novo normal”

Fotografia: Sara Falcão

Já todos passámos por vários estados de espírito desde o início do ataque cerrado do novo coronavírus àquilo que acreditávamos adquirido: uma liberdade quase total e intocável. Palavras como medo, insegurança, revolta e ansiedade podem ter ganho alguma força durante este período complicado, mas nem tudo é negativo: no meio das tormentas, há sempre, como reforça Papillon, uma oportunidade para reflectir sobre o que está mal e reagir em conformidade, mudando o que estava mal e procurando soluções para o que parece difícil corrigir.

Lançada ontem depois de jantar, “Chill” e “In’” formam “Chillin’”, a mais recente faixa do rapper de Mem Martins produzida por Holly e Slow J, que sucede a “Aceso“, “Camadas“, “Sweet Spot” e “AAA”, os singles publicados pós-Deepak Looper. A nova canção é uma extracção emocional daquilo que sentiu nos últimos meses, a primeira vez em que identificou um sentimento global na sua vida, algo que o levou até à sua primeira experiência em inglês.

Numa conversa que decorreu num dos “locais” mais frequentados de 2020, a plataforma Zoom, o membro dos GROGNation falou sobre a transversalidade da situação que vivemos e a gestão necessária de emoções para encontrar alguma paz e tranquilidade, mas também abordou a sua participação no Eléctrico e nos PLAY – Prémios da Música Portuguesa e as mortes de George Floyd e Bruno Candé.



Começa por falar-me deste tema, que está dividido em duas partes.

É dar-te a possibilidade de escolheres o caminho. Eu peguei num nicho de emoções e tentei extraí-las o melhor possível e a forma como apresentei é tentar fazer com que tu tenhas algum poder de escolha. No final do dia, podes sempre optar… a forma como tu reages àquilo que eu te vou dar é que é a verdade. Acho que é um bocado esse o jogo que eu quis fazer. Quis fazer uma espécie de jogo para quem vai ouvir e perceber qual é o feedback. Se é unânime os dois universos juntos, se é o universo mais para a esquerda, se é o universo mais para a direita…

E quando é que decides cantar em inglês?

Eu nunca tinha feito nada em inglês. Foi a primeira vez. Nem nunca tinha pensado fazer coisas em inglês. De repente senti que estávamos todos a passar pelo mesmo, a pandemia, e eu ainda estou a terminar uma fase experimental onde estou a tentar esticar a minha criatividade por todos os sentidos e tentar perceber o que é que me deixa confortável. Foi o culminar dessas coisas todas é que fez com que eu decidisse fazer um som em inglês. Em primeiro lugar, para experimentar, pareceu-me uma ideia divertida de aplicar, e depois tens o lado de estarmos a passar por uma crise de saúde mundial e normalmente quando faço canções estou sempre a pensar no outro lado, ou seja, o que é que esta música vai dar à pessoa que vai ouvir.

Então, nessa lógica, eu pensei: o feeling que estou a sentir é transversal e é partilhado e ultrapassa as barreiras do meu país e da minha língua. Se é um feeling específico que eu estou a sentir e que ultrapassa as barreiras da minha língua e do meu país, e se eu consigo falar inglês e consigo perceber inglês e consumo muita coisa em inglês, decidi experimentar passar uma mensagem na língua que para mim é a mais universal. Senti que estava a tentar captar um feeling que, pela primeira vez na minha vida, todo o mundo entendia através do mesmo struggle. Senti que fazia sentido, para mim, expressar-me dessa maneira. E normalmente nós não temos estas oportunidades, por assim dizer, que é estarmos todos a passar pelo mesmo. Normalmente a realidade portuguesa não é a realidade dos Estados Unidos, a realidade dos EUA não é igual à de Espanha, temos sempre coisas que nos distinguem uns dos outros e pela primeira vez durante a minha existência havia algo que nos conectava a todos. E daí decidi exprimir-me em inglês porque é a língua que eu sinto que vai fazer passar a mensagem a um maior número de pessoas. 

Foi um processo demorado a readaptação a uma língua diferente?

Foi super natural. E eu fiquei super surpreendido pela positiva porque saiu-me! Não pensei muito, simplesmente saiu-me. Ou seja, em termos de técnica de escrita, que é algo que eu tento praticar ao máximo em português… como é que hei-de explicar… há modelos que nós já praticamos com tanta frequência que depois para mim foi só tentar aplicar o mesmo em inglês. E como já pratico há bastante tempo não me saiu do pêlo. 

Houve muitas tentativas para acertar na escrita?

Não, não. As tentativas foram mais a gravar do que a escrever. A escrever foi uma linha única que me saiu e depois quando fui gravar é que foi tentar perceber em termos de emoção, se estava a meter a certa, se devia estar mais calmo ou com uma energia mais para cima. Mas em termos de criar o bruto daquilo que foi o “Chillin’”, foi tudo muito fácil e muito fluído. Basicamente foi isso, fazer um exercício de criatividade numa língua diferente. Que é diferente, mas não é estranha porque é a língua com a qual lido todos os dias, de todas as coisas que eu consumo, desde filmes e músicas a notícias. Estou sempre a consumir em inglês, portanto, para mim, é praticamente segunda língua.

A faixa apresenta um ambiente tranquilo e calmo. Foi esse o teu estado de espírito durante os últimos meses ou foi aquele que quiseste mostrar?

Não, é um misto de emoções. O que eu tentei captar para esta faixa foi exactamente isto, um misto das emoções que estava a sentir naquela altura. Por um lado, querer estar optimista em relação ao futuro, mesmo perante as adversidades e o pior cenário possível; por outro lado, a preocupação constante da incerteza e de saber que as coisas estão difíceis para muita gente, não é para toda a gente, mas é para muita gente. De repente as pessoas vêem-se privadas de trabalhar, são obrigadas a ficar em casa, o modus operandi na rua muda completamente.

O “Chill” é tentar estar tranquilo, em paz, mas por outro lado não conseguir fugir da preocupação intuitiva que tu tens perante tudo o que está a acontecer. Eu era uma pessoa que não consumia muita televisão porque também passava grande parte do tempo fora de casa e em estúdio ou a fazer outras coisas criativas, então reservava muito pouco tempo para ver televisão. De repente dei por mim em casa, constantemente a ver notícias, constantemente a querer perceber o que é que se passa no mundo. É difícil não ficares preocupado com o que está a acontecer, mas a minha personalidade é de tentar encarar as coisas com optimismo e, pronto, é esse misto. O som não é propriamente calmo. 

Falava mais em termos de instrumental. Se calhar a letra vai para o lado contrário…

Exactamente. É um som calmo, para tu ouvires num ambiente tranquilo e para pensares sobre a vida. Acho que é o ambiente perfeito para tu pensares sobre a tua vida, sobre como tens absorvido todas estas coisas e eu só estou a conversar com quem estiver nesse estado de espírito. 

Quando é que esta música foi feita em concreto?

Foi feita em vários momentos. Tive a fazer o crafting, a dar muitos toques na música, mas ela é o resultado de algumas sessões que eu tive com o Slow J e o Holly. É resultado deste momento pandémico, é resultado da tensão social, é resultado da minha relação com essas coisas, é resultado de eu querer experimentar coisas novas, enveredar por caminhos criativos diferentes do que eu estou habituado. 

E ficou fechada quando?

Terminei a faixa há cerca de um mês e meio, dois meses, quer dizer, quando decidi que ela estava terminada. Ou seja, como fui sempre acrescentando uma coisa e outra, ela só ficou terminada no mês passado. 

E estes beats chegaram-te durante a pandemia?

Tive um antes da pandemia e outro depois da pandemia. 

Quando é que decidiram que se iria juntar os dois instrumentais?

Na verdade fui eu que decidi. E eu queria juntar de qualquer das maneiras, já fazia parte do plano. Só que calhou. Eu não planeei que ia ser um som que tinha estas conotações de tensão e pandemia e essas coisas todas, o que eu planeei foi juntar estes dois universos sonoros, mas ainda não sabia como juntá-los. Havia um beat que eu queria muito e que comecei a escrever nele, senti a energia do outro lado também, e depois percebi, “ok, como é que eu combino isto de uma forma que faça sentido e que para mim faça encaixar o puzzle?” Foi a partir daí que eu juntei as duas coisas. Escrevi uma parte do som antes da pandemia, outra parte depois da pandemia. E o exercício é exactamente esse, é a conversa entre o momento em que está tudo bem e o momento em que as coisas estão menos bem. É também ganhar a noção de que a qualquer momento as coisas podem fugir do teu controlo e tens que tentar encarar as coisas sempre com alguma calma apesar de não conseguires porque és humano. 

Tentei captar ao máximo a transição do antigo normal para o novo normal. Captar esse momento da melhor maneira possível. Quando num momento parecia que estava tudo bem e a ideia de que… eu acho que é algo que depois nós com as redes sociais até alimentamos um bocado, como 2020 é um ano redondinho, parecem que as coisas vão correr todas bem, que vai ser o nosso ano, e depois tiram-te essa segurança e tens que tentar perceber como fazer funcionar as coisas e foi por aí que eu tentei ir ao máximo e tentar explorar esse sentimento e tentar metê-lo de uma forma interessante, diferente, e que fizesse sentido. Não é agora, mas neste momento em específico não fazia muito sentido fazer algo muito festivo. Se bem que o festivo ajuda à terapia, mas eu decidi assumir o lado mais introspectivo e depois deixo o lado mais festivo para outros artistas. Acho que a linha de montagem é: o ouvinte vai passar por aqui, vai ouvir o que é preciso, e depois vai festejar. Essa é a terapia perfeita. 

Olha, como é que foste gerindo as tuas emoções durante estes tempos complicados? Tiveste alguma maneira especial de te abstrair?

Foi um bocado de tudo. Foi desde ver os lives do Bruno Nogueira a fazer bingewatching de séries, de programas de televisão, a tentar ficar criativo… Houve uma fase que eu não estava a conseguir ser criativo porque o meu nível de preocupação… e lá está, o “Chillin’” acaba por ser um bocado o resultado disso, o meu nível de preocupação com as coisas extra-música era de tal forma alto que eu não me permitia criar, não me permitia ser criativo, não conseguia estar em paz comigo próprio para fazer música ou para pensar em coisas criativas. No final do dia pensava que as coisas podiam piorar de um momento para o outro. Isto é tudo uma questão de oscilação emocional, mas, quando senti que havia ali uma oportunidade interessante, voltei a criar.

Praticamente desde o início da pandemia, o que eu fiz foi trazer material de estúdio todo cá para casa, foi instalar-me aqui em casa, trazer as minhas coisas [mostra o setup caseiro]. Basicamente deu-me a oportunidade de começar a criar essas raízes aqui em casa. Acho que nunca tinha feito nada criativo em casa, tinha sempre que ir para estúdio ou estava sempre com alguém. Acabei por desenvolver esse lado mais autónomo da minha criatividade e fico agradecido por isso.

Apesar dos concertos terem estado fora da equação, tu tiveste oportunidade de gravar, com público, um episódio do Eléctrico com GROGNation e actuaste nos PLAY. Soube a pouco?

Ya, soube a pouco. Não é a mesma coisa, não é? Lá está, a questão não é a quantidade das pessoas, é a forma como as pessoas estão no espectáculo. Quando tu estás claramente contido num espectáculo, é difícil sentir a energia, é difícil passar a energia, mas também faz parte do desafio. O que fizemos no Eléctrico até foi engraçado porque sabias que tinhas público, independentemente do setup, e sabias que estavas a actuar para a televisão, que é algo que não estou propriamente habituado mas que tive de me adaptar o mais rápido possível. Entendi que seria um dos meios para fazermos chegar a nossa música e os nossos espectáculos às pessoas, tendo em conta o distanciamento. Ia ser sempre através de um ecrã, fosse para o telemóvel ou para a televisão. Ias sempre precisar desse intermédio para passar a tua cena. Tens que entrar no espírito como se estivesses a actuar para o teu público e tentar fazer o teu melhor. São experiências diferentes, mas exigem sempre que tu te adaptes o mais rápido possível. 

Tiveste, muito provavelmente, a apresentação mais ambiciosa dos prémios PLAY. Partiu de ti a ideia de tornar a coisa mais expansiva?

Saiu da minha cabeça, mas houve mão do Tomás [Martins]. Se eu não tivesse o Tomás, isto não ia acontecer. O facto de eu ter tido oportunidade de dizer: “olha, mano, e se eu levasse malta para dançar e criássemos um espectáculo estilo MTV Video Music Awards?” Tentámos criar essa dinâmica, já que não havia público, e tentámos fazer a festa em palco e criarmos a nossa casa lá em cima. Falei com o Tomás, ele achou a ideia excelente, e depois o que fizemos foi tentar coordenar com a produção dos PLAY, tentar perceber como é que podíamos elevar o nosso espectáculo. Tinha o Murta também, quis que ele também brilhasse.

Saltou mesmo à vista no meio de todas aquelas actuações.

Foi também um desafio para mim, lá está, eu tentei encarar sempre tudo como um desafio porque sou camerashy e este tipo de coisas é algo que eu facilmente ponho de lado, seja actuar na televisão ou fazer transmissões dos espectáculos porque gosto que as coisas fiquem bem feitas. Quando estou a fazer música tenho oportunidade de editar as vezes necessárias até ficar perfeito e normalmente nestes espectáculos de televisão se tu mandas um gafanhoto para a câmara… [risos] Já está tudo mal. É essa a dinâmica que me faz ficar um bocado mais reticente em relação a espectáculos em televisão, mas também foi começar a desafiar-me e a ficar mais confortável nestes campos que gostava de poder voltar a repetir. Fiz os PLAY mas gostava de fazer mais coisas desse género e trazer a criatividade para o palco na televisão. 

Fiquei curioso com a tua escolha de indumentária, mais propriamente com a camisola com a cara do Plutonio. Havia ali uma mensagem mais forte ou foi apenas um props? Ou os dois…

Foi os dois. Acho que é mandar uma mensagem que eu considero ser óbvia, não gostava de estar a escrutinar muito. Acho que para bom entendedor meia palavra basta. E quis mandar um props àquele que para mim foi um dos artistas do ano. Eu quis levá-lo para lá também, mesmo que ele não estivesse. Quis que ele fizesse parte da festa à minha maneira. É isso.

É inevitável falar sobre as morte do George Floyd e do Bruno Candé, até porque julgo que reagiste a ambas nas redes sociais. Isto acontecer durante este período mexeu contigo de forma diferente? Imagino que já tenhas lidado, directamente ou indirectamente, com racismo e assédio policial durante a tua vida…

É o seguinte: eu considero-me uma pessoa atenta ao que se passa na esfera social. Há coisas que para mim não são propriamente uma surpresa, são coisas que vão acontecendo ao longo do tempo, só que umas têm mais projecção mediática, outras têm menos. Na sequência desses acontecimentos, o que aconteceu com o George Floyd era inegável aos olhos da grande maioria das pessoas e por esse acto de barbaridade torna-se inevitável a revolta, até das pessoas que normalmente não se deixam afectar por esse tipo de assuntos. Esse caso em concreto é tão explícito, quase que nem acontece assim nos filmes. Nos filmes, às vezes as coisas não são assim tão gráficas. E ali foi tão gráfico e tão explícito que as pessoas sentiram alguma coisa.

Mas como já se torna algo de certa forma padronizado e sistemático, pá, surge a necessidade de pelo menos fazer-se ouvir a nossa voz e, para aqueles que não lidam com o problema todos os dias, é importante que esse assunto seja resolvido por todos. Não pode passar ao lado de uns e ser só um problema dos outros. É um problema de toda a gente porque no final do dia toda a gente é afectada por isso, quer as pessoas aceitem ou não.

Respondendo à tua pergunta, revoltou-me como todas as outras coisas que já me revoltaram e que tive oportunidade de perceber, testemunhar e absorver ao longo da minha vida. Mas o meu trabalho tem sido sempre combater isso com pequenas, médias e grandes acções através daquilo que eu faço, que é música, e através das minhas interacções com as pessoas todos os dias. Eu combato o racismo em todo o lado e em qualquer lugar enquanto estiver a respirar. Sinto que quando este tipo de acontecimentos se tornam mediáticos trazem a atenção necessária para se juntarem mais pessoas à causa e todos nós, todos os dias, podemos fazer um bocadinho mais para resolver a questão do racismo sistemático e fazermos disto um lugar melhor. 

No caso do Bruno, que é ainda mais próximo… Às vezes, Portugal enquanto sociedade gosta muito de passar ao lado destas questões, acham que as coisas só acontecem no país ao lado, mas nós temos amigos e amigos dos amigos e sabemos o que é que se passa no final do dia. Já ouvimos conversas, já ouvimos piadas, já passámos todos por situações. Sabemos que existe um padrão, e no final do dia sinto que todos nós somos um bocado culpados pelo que aconteceu com o Bruno porque continuamos de certa forma a não evitar este tipo de comportamentos. Nada justifica tu seres racista. Tu podes estar chateado com alguém, mas não passa disso. Estar chateado com alguém é estar com chateado com alguém, não é seres racista. Se o estar chateado com alguém desperta racismo em ti, tu és uma pessoa racista. Não há volta a dar.

Achas que vamos sair pessoas melhores desta pandemia ou, na verdade, os problemas de trás estão a agudizar-se de forma muito mais rápida?

Acho que enquanto sociedade, queiramos ou não, estamos todos numa relação uns com os outros. E como em todas as relações, quando está tudo bem, está tudo bem e nós não prestamos atenção aos detalhes menos bons, mas quando as coisas estão mal é que tu percebes realmente o que não está a funcionar. Nesta altura em que tu tens uma pandemia onde estamos todos com os nervos à flor da pele, é aqui que tu percebes que se começas a ter movimentos de pessoas a ter este tipo de atitudes significa que as coisas já não estavam bem. Acho que o que existe é a oportunidade para nós sairmos daqui melhores mas é só com atitudes e a chegarmos a um entendimento é que vamos conseguir realmente sair dessa forma desta pandemia e destas crises sociais. Agora está nas nossas mãos capitalizar essa oportunidade de sermos melhores. 


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