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Fotografia: Direitos Reservados

A versão deluxe de King Ruiner conta com remisturas de alguns dos artistas mais fascinantes do panorama nacional.

:PAPERCUTZ: “Este meu desejo de reinvenção nas mãos de outros faz parte do ADN do projecto”

Fotografia: Direitos Reservados

Após o lançamento em Março (que mereceu edição japonesa), King Ruiner, o disco que trouxe :PAPERCUTZ de volta ao formato longa-duração, ganhou uma nova vida pelas mãos de sete artistas nacionais que têm dado cartas altas no panorama electrónico português e não só. Partindo dos ritmos quentes de Throes + The Shine, PEDRO e Scúru Fitchádu ao IDM de Octa Push, passando pelas batidas desconstruídas de Ondness e IVVVO e as delicadas texturas de FARWARMTH, as músicas de Bruno Miguel foram analisadas, partidas e reconstruídas, cada uma à sua maneira, por nomes que, segundo o autor das versões originais, têm uma “identidade bem marcada e uma sonoridade própria”, mostrando os mais diversos caminhos que as suas faixas podem tomar só por passarem pelas suas mãos.

Não é a primeira vez que as músicas de :PAPERCUTZ sofrem este tipo de mutações. Apesar do artista gostar de assumir o controlo total durante o seu processo criativo e produção, ele admite igualmente um certo gosto em testemunhar esta “reinvenção nas mãos de outros”. Aliás, segundo Bruno, esse processo faz parte do ADN deste projecto. Resta, no entanto, um último passo em King Ruiner: materializar estas versões ao vivo, passo este que, devido à situação pandémica, se tem tornado complicado de concretizar. Mas Bruno afirma que vai acontecer ainda este ano, num concerto bastante especial.

Nas palavras de Marcus Veiga, “a escolha do tema ‘Halcyon’ incidiu essencialmente no andamento rítmico mais próximo do hemisfério Scúru Fitchádu. Tentei manter-me fiel ao original e não ‘profanar’ demasiado o tema original, tanto que me identifiquei de imediato com a carga dramática do mesmo. Optei por usar muitos elementos do original colando aos mesmos algum noise e uma bassline mais suja, juntando ainda a minha voz em modo sample para sair um pouco da estrutura habitual de canção, que é algo que tento sempre desconstruir!”

Todo este projecto foi feito durante o estado global pós-COVID-19, mostrando também o esforço de todos os artistas envolvidos, que aí aplicaram um sentido de união que tem vindo a revelaar-se cada vez mais presente na comunidade nacional. “Esta pandemia continua a pesar na actividade dos músicos nacionais”, afirma Bruno, “mas também me serviu para uma maior aproximação a estes colegas cujo trabalho admiro e com os quais tive agora a oportunidade de partilhar o processo de criação. Espero que outros, com esta edição, possam reconhecer o relevante espectro de nova musicalidade portuguesa.”

Para além dos remixes, foi ainda incluída uma nova faixa, “Second Days”, que termina o álbum num toque de bem vinda esperança. Falámos com o produtor, alumnus da Red Bull Music Academy, sobre o disco:



A pandemia e a actual situação global foi uma motivação para este projecto? De que forma sentes ter tido impacto?

Por norma, já no passado as músicas de :PAPERCUTZ sofreram mutações através de remisturas. Isso aconteceu com artistas portugueses como Switchdance, IVVVO, Gustavo ou até luso-descendentes como o Sun Glitters, e outros estrangeiros um pouco de todo o mundo como The Sight Below, Synkro ou Ikonika, entre muitos outros, todos apreciados (seria uma lista longa), logo faz parte do ADN e das edições do projecto este meu desejo de reinvenção nas mãos de outros. Aliás eu tenho uma edição que é feita na sua totalidade de remisturas do álbum de estreia Lylac, para perceberes o quanto admiro essa possibilidade. Portanto já estava planeado com a editora algo acontecer nestes moldes para o King Ruiner. No entanto, a pandemia serviu em parte para uma maior aproximação ao trabalho dos meus colegas por cá, artistas cujo trabalho acompanhava muitas vezes à distância, apesar de nos termos cruzado em alguns palcos, porque estamos a passar por uma situação em comum, vivemos de perto o impacto da pandemia, como bem referes, porque a música, sobretudo ao vivo, continua ainda uma grande incógnita. Só que ao contrário do que senti com outras pessoas, e isto tem muito a ver com a minha forma de ser, eu coloquei em mim o esforço de não ficar parado e, felizmente, estes talentosos grupos e produtores aceitaram o meu repto, muito provavelmente porque sentiram a mesma necessidade.

Inicialmente, quando voltei da digressão no Japão e percebi o que se estava a passar no país, comecei por enviar umas mensagens, estas tornaram-se em longos telefonemas e algumas sessões Zoom até que desenvolvi a ideia deste projecto. Foi um resultado orgânico pois através destas conversas cheguei à ideia final do King Ruiner (Deluxe), o que me permitiu também acompanhar o processo de criação dos envolvidos e isso foi uma verdadeira aprendizagem.

Os teus guests têm backgrounds bastante diferentes na exploração dos diversos ângulos da música electrónica: desde kuduro e ritmos quentes ao ambient. Quais foram os teus critérios de escolha? Como é que acabaram estes a serem os nomes escolhidos?

O meu critério principal sempre foi trabalhar com artistas que tenham uma identidade bem marcada e uma sonoridade própria que desenvolveram. Neste caso em particular, existe uma história em comum tal como mencionado, uns cruzamentos ao longo destes anos. Sem querer ser saudosista, porque não sou de todo, tenho boas memórias nesse sentido, como ter tocado em Londres com os irmãos Octa Push e ter percebido o seu inteligente trabalho de como a música electrónica ao vivo pode soar orgânica, ou ter assistido a um concerto no Eurosonic dos Throes + The Shine em representação da música nacional em que puseram toda a gente a dançar numa tenda como uma forte chuva no exterior, ou partilhar o palco com o PEDRO (como KKing Kong) com o Branko numa festa da Enchufada depois de termos lançado um single pela editora e sentir de perto o bem que funcionam como família musical, ou quando o IVVVO fez uma remistura para nós e quis que ele fizesse a nossa primeira parte no Plano B e foi nos dito que já tinha tocado lá fazia pouco tempo e não fazia sentido repetir, um pequeno absurdo tendo conta que é um dos melhores produtos musicais da cidade, mas ficarmos na mesma depois do concerto a falar sobre a música sombria que ambos gostamos e que na altura se fazia no Porto, e como tão bem sonorizava o lado arquitectural gótico da cidade, ou quando convidei o Bruno (Ondness) como Sabre para um DJ Set no fim de um concerto nosso no Musicbox e ele foi responsável por escolhas de um enorme gosto, ao ponto de fomentar em mim o desejo de fazer alguns sets também.

Poderia continuar… os únicos artistas que não conhecia pessoalmente (e que ainda só conheço à distância, mas espero mudar isso em breve) são o Marcus (Scúru Fitchádu) e o Afonso (FARWARMTH) que me surgiram por recomendação e que na minha opinião representam futuros e brilhantes caminhos da música portuguesa.

Existe ainda uma questão final importante, todos os elementos que estes artistas representam, desde a música ambient, club e a reinvenção da tradição africana está presente no álbum King Ruiner e isso serve como elemento aglutinador a todo o trabalho. Sou bastante pragmático nestas questões, se algo existe na discografia de :PAPERCUTZ tem que conter em si mesmo uma lógica, uma ligação racional ao projecto.

Olhando para a entrevista que deste há uns meses para o Rimas, antecipaste a existência deste disco por achares interessante a “fusão de mundos, o de :PAPERCUTZ com o de outro artista convidado”. Achas que o resultado do disco te abriu portas para explorares mais colaborações?

Mais do que a possibilidade de colaborações em termos de edição que pretendo manter, este trabalho fomentou em mim sobretudo a vontade de concretizar essas colaborações da forma mais humana possível, ao vivo! Sim, é um pouco estranho falarmos de concertos nesta altura mas nós temos datas ainda este ano e uma delas, no Centro Cultural De Belém, que vai permitir exactamente isso, vou convidar artistas desta edição para participarem como convidados. Vai ser um concerto único, e espero que surja a oportunidade de continuar essa ideia.

Mas é essa precisamente a noção que quero que as pessoas entendam e apreciem o quanto fugaz um concerto nosso pode ser. Como tal, nós fazemos sempre o esforço de nos reinventarmos ao vivo. O que vai acontecer, e isso só vão saber no dia, é que os convidados vão variar de acordo com as datas e mesmo assim só em situações óptimas é que tal acontecerá. No meu entender, não vale a pena fazer algo que não respeite também estes músicos, não só o nosso trabalho. E digo nosso porque ao vivo :PAPERCUTZ é uma equipa. Quanto ao trabalho de estúdio, ele continua a ser sobretudo um processo solitário em termos de composição e eu aprecio que assim seja, tenho que provar primeiro a mim que um álbum merece ver a luz do dia, mas, a partir do momento em que isso acontece, a minha imaginação para o seu desenvolvimento corre livremente e felizmente tende a ter este tipo resultados. Eu respeito quem não goste deste ou outros trabalhos de :PAPERCUTZ mas acho que seria injusto sequer considerar que não está em causa um enorme cuidado e entrega.

Incluiste ainda uma última música tua, “Second Days”, que não estava presente no disco original nem na versão japonesa. Porquê esta decisão de a incluir?

Foi uma forma de mostrar uma confiança nos próximos tempos, tanto na temática da letra como demonstrar que já estou a preparar os próximos passos. Aliás isso é inerente a todos estes projectos que, pelo que segundo sei, todos preparam mais música e edições num o futuro próximo. No nosso caso em particular, isso vai resultar num álbum em 2021. Engraçado porque isto acontece ao mesmo tempo que sei que a nossa editora enviou um novo single “Become Nothing” para rádios e este tema demonstra o meu enorme gosto pelo (Fernando) Pessoa. Uma admiração que me permite perceber os perigos de alguém cuja racionalidade o fazia sentir frustrado pelos seus dias. E eu penso muito nisso, sobretudo nestes tempos, os sinais são claros, dias difíceis avizinham-se, mas eu estou determinado em contrariar o seu fatalismo e isso implica não só inteligência mas sobretudo um sentido de esperança, independentemente dos factos mais óbvios.

Uma pandemia como esta não cria um carácter mas sim revela-o e mais uma vez, no meu caso, sinto que em tempos difíceis, tais como os que passei quando escrevi o King Ruiner, a melhor maneira de lidar é ajustar expectativas, claro, mas seguir em frente. Esse caminho é o único e a verdadeira saída.


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