O jazz na terra da tropicália ou como os tons jazzísticos se emaranham entre a bossa, o choro e o baião. Muito destas expressões musicais tem uma ligação a esse seminal movimento cultural que, na década de 1960, haveria de contaminar a mudança na arte contemporânea brasileira. Indo de Caetano Veloso a Gilberto Gil, de Antônio Carlos Jobim a Gal Costa e a tantas e tantos outros, como a Hélio Oiticica nas artes plásticas. Na noite de arranque (quarta, 8 de Abril) da edição de 2026 — volvidos tantos anos dessa emergente tropicália — Anna Setton trouxe até bem perto essa aragem ao palco de mais um Ovar em Jazz.
Um programa que a anunciava como “brazilian jazz sensation”. A cantautora apresentou-se em trio, composto por Edu Sangirardi no piano e Pedro Santos na bateria. Hoje radicada em Portugal, iniciou o seu percurso nas rodas de samba e choro da noite de São Paulo. Com Toquinho, cantou ao seu lado por mais de cinco anos, e esse palcos e noites trouxeram-na o seu “eu” autoral em seguida. Em 2018 apresentava-se em nome próprio no disco Anna Setton, para em 2021 revelar Onde Mora Meu Coração, que apontava e vaticinava O Fututro é Mais Bonito (2023). Três registos reveladores da doçura de uma voz que transporta a memória enquanto aponta ao dia de amanhã com efectiva esperança — que embala para um dia melhor. E é por isso que o seu alinhamento começaria com “Sim”, tema inédito e que irá fazer parte do próximo álbum. Desse bom conjunto de novas canções apresentadas — que darão corpo ao novo registo —, fez da caixa de palco do Centro de Artes de Ovar um lugar, imprescindível numa quarta-feira de noite fresca, voltado ao futuro harmonioso.
Setton toca de Telecaster a tira-colo mas com o poder de um violão nas mãos, alia a voz às cordas das guitarra e funde-as como se um instrumento só fosse. Encontra nas harmonias das teclas do piano de Edu um amparo de candura e viagem certeira. Diante si, uma plateia (em formato bem reduzido, e com assento no palco) que fez esgotar os lugares disponíveis e que demonstrou o efectivo coro que Anna pediu nos momentos em que fez da música de outros a sua e a nossa. Especial relevo atingido quando trouxe para perto Pixinguinha, retomando dele “Carinhoso” — uníssonos vocais fizeram-se aura envolvente entre os presentes. Como se naquele instante Anna Setton fosse simultaneamente Marisa Monte e Paulinho da Viola. Era o momento da sua música (em trio) depurar tudo o que havia de bom em palco. Passando efectivamente a ser algo entre nós e a sua voz à guitarra (feita violão) ao colo, para servir em intimidade musical “Morena Bonita” e “Ponta de Areia” até ao colectivo cantar de “Cheia de Saudade”, de Tom Jobim. Ele que foi um inventor dessa fusão do coolness do jazz com a bossa. Ele de quem herdámos essa frase que aponta: “Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim”.
Voltam a crescer os músicos em palco para “Forró a Dois”, que aponta na letra para um saber olhar em órbita ao que nos rodeia e maravilha. Uma terceira parte de concerto virada para o encanto do espaço em redor, nessa morrinha boa que se escutou em “Chovendo na Roseira”, até o final de “Revoada” — numa convocatória ao interior, no confronto do mundo lá de fora que nos embate inclemente. Souberam voltar ainda para algo como que em família, para a música que Anna e Edu fizeram para a pequena Dora ao nascer — “Baião da Dora”. E a Dora já tem agora 10 anos e adora bichinhos que nos aparecem por aí — à espreita, e também eles dignos de um momento de efectivo afecto e admiração.