Na rubrica Outros espaços são lugar vamos dando a conhecer salas e iniciativas menos comuns, onde a razão maior é procurar outra forma de programar, pensar e divulgar a música. Tudo isso no discurso directo por quem proporciona essa existência. Tentando revelar as motivações, as ousadias e, no fundo, amplificar as palavras que chamam à música.
No retomar da rubrica descemos à periferia, ao sul. Território onde este ano, entre os dias 20 e 22 de Março, em Loulé, e pela terceira vez, se celebra o encontro de músicos e editoras muito no espírito de: “Se não o fizermos nós, ninguém o fará por nós.” Um evento que procura centralizar junto da periferia um marco anual onde editoras independentes se reunem para encontrar novos públicos, onde novos projectos musicais encontram palco e até editoras, em alguns casos. Nos três dias haverá concertos, mercados, sessões de DJ e muita conversa em torno da música. Para isso haverá uma descentralização dentro da própria cidade, ocupando-se espaços menos convencionais para além dos mais esperados para a música ter lugar. O Cineteatro Louletano, o Auditório do Solar da Música Nova, a Galeria Alfaia e o bar Bafo de Baco serão as salas que acolhem os concertos entre a noite de sexta (dia 20) e a tarde de domingo (dia 22). Neste último bar serão finalizadas as noites com sessões de DJ pelas editoras Groovie Records e Ovo Estrelado, de sexta para sábado e sábado para domingo, respectivamente. O Mercado das Editoras acontece na tarde de sábado (dia 21) no espaço da Casa do Meio-Dia. Sábado e domingo ao final da tarde haverá lugar para projectos não editados com a curadoria da Nariz Entupido e da própria organização do Periférico. Entre as editoras com concertos propostos encontram-se a ATR, Nariz Entupido, Epopeia, Saliva Diva e a Lovers & Lollypops.
Estivemos à conversa com João Pedro Madeira da Vencidos da Vida, associação que programa e organiza o evento, numa iniciativa que conta com a co-produção do Cineteatro Louletano e o apoio do Município de Loulé. No fundo, pretende-se “dar à periferia alguma… centralidade” como a certa altura é dito.
Comecemos pelo princípio, antes mesmo desta edição, que será a terceira do festival. Qual foi a centelha para isto ter lugar? Inquietudes , afirmação de gentes e território?
Inquietude sim, necessidade de afirmação e do território… não penso assim muito nisso como algo motivador. Mas… eu trabalho com música há muitos anos e antes da pandemia [COVID-19] tínhamos fundado (eu e mais alguns colegas) uma pequena produtora e começámos a fazer pequenas produções: apresentações de álbuns, algumas feiras de vinil. Depois, com a pandemia, ficámos todos com muito tempo nas mãos, e como o futuro era um pouco incerto, dedicámos esse tempo livre a fazer projectos que poderiam vir a ser reais quando acabasse toda aquela situação muito estranha. Quando a pandemia permitiu voltar a trabalhar outra vez, este projecto entre alguns foi aquele que avançou, mesmo sem ser muito propositado. Foram as circunstâncias que permitiram que avançássemos com isto. E depois perguntei-me qual seria o melhor sítio para começar? Seria a minha terra, como sou aqui de Loulé… Tendo em conta que o evento se chama Periférico, com a intenção de saír dos grandes centros e espalhar a música e os projectos a sítios que normalmente não têm tanto acesso a eles, vim cá [ao Município de Loulé] e felizmente acreditaram nele e que valia apoiar. E cá estamos para o terceiro ano já.
Que ideia maior está contida no sentido periférico? Afirmar desde a periferia ou mostrar que as franjas são também lugar?
Sim, mostrar que as franjas também têm lugar (não invalidado a primeira premissa). Mostrar que os sítios que estão mais afastados dos centros [urbanos e do território] também têm público, infra-estruturas e vontade sobretudo de conhecer; e depois directa ou indirectamente de participar (como é o caso) em eventos deste tipos, que ajudem a que as populações mais periféricas não tenham elas que se deslocar para ir ver concertos (como era antigamente, se quiséssemos ir a um festival tinhas que sair daqui, ir até Lisboa ou ao Porto). Felizmente, no caso dos festivais, no fim dos anos 90 começaram a descentralizar — hoje qualquer terra tem o seu festival. O Mercado Periférico é um pouco nesse sentido. A ideia logo no início era que fosse itinerante, em vários sítios do país, mas o plano B era encontrar uma casa; que encontrasse um sítio e fosse crescendo a partir daí. Foram as circunstâncias, mais uma vez, que ditaram e permitiram que fosse Loulé — cá estamos!
Um dos aspectos mais destacáveis, dos três dias do evento, é que há uma descentralização dentro da própria cidade, com acções repartidas entre vários espaços. Há lugar para fazer acontecer onde até menos se espera que algo aconteça. Essa é uma matriz?
É! Dentro da própria periferia existem periferias… E a ideia é essa, espalhar um pouco pela cidade e levar a alguns locais mais ou menos emblemáticos e que normalmente não recebem eventos ou algum tipos de actividade cultural. Estamos a falar de lojas com história, cafés antigos e algumas galerias (por exemplo). E estamos sempre à procura de sítios novos e nos quais nos aceitem. Temos tido muita aceitação, muita boa vontade por parte das pessoas, o que nos tem permitido fazer isso. Não nos concentrarmos apenas nos palcos principais da cidade, mas espalhar dentro da oferta que existe. Não é só em Loulé, mas em termos de infra-estruturas que estejam preparadas para espectáculos, não há assim muitas escolhas… Mas depois em produção é possível fazer alguns “milagres” e tornar sítios menos óbvios em algo que resulte para que haja um concerto, uma projecção, alguma coisa que acrescente ao Periférico.
Concretamente que espaços são estes da Casa do Meio-Dia, Solar da Música Nova e Alfaia?
A Casa do Meio-Dia é a sede da editora Sul, Sol e Sal. É um espaço que foi recuperado no centro histórico [da cidade de Loulé], como muitos que ainda o esperam ser. É um bom exemplo de recuperação de espaços que estão sem função e que poderiam beneficiar (na minha opinião) mais a população. A Alfaia é uma galeria, que desde a primeira edição [do Periférico] manifestou muito prazer em colaborar connosco. Que faz um trabalho incrível a sul do Tejo em termos de divulgação cultural, das artes, em particular da pintura. Depois ainda temos uma parceria com o Calcinha — o café histórico da cidade — onde já tivemos alguns eventos. No futuro esperamos contar com outros mais, mesmo que ainda não os tenhamos considerado, ou que eles próprios se venham a propor para nos acolher — estamos sempre abertos.
E passando ao modo de programar. O que se pode saber sobre como se trazem estes nomes ao cartaz? São artistas muito emergentes… Há uma chamada a propostas, também mas não só. É isso?
Sim, a programação do Periférico segue uma lógica de ser dado às editoras a possibilidade de curadoria de alguns palcos, nomeadamente os principais. São as editoras as estrelas do evento. Temos um único critério para atribuir essa curadoria e que é o volume de actividade que têm. Não fazendo distinção de estilos de música, nem de públicos. Se a editora tem dinâmica, com trabalho para apresentar, abrimos espaço e temos palco para eles apresentarem os projectos que melhor entenderem na altura. O Periférico acontece em Março, que também é a altura de lançamento de muitos discos, muitas digressões e projectos. Já aconteceu virem cá estrear álbuns, singles, apresentarem digressões. Dentro dessas curadorias reservamos espaço, normalmente dois da programação — a abertura e o fecho — a projectos que nos chegam através de uma open call (que dura um mês). Isto faz sentido porque há muitos projectos que ainda não têm editora, muitos que contam com edição de autor, há muita gente a fazer coisas sozinhas e nós queremos dar espaço a essas pessoas, dar-lhes palco. O Periférico também serve para isso, e uma vez que estão cá as editoras é uma boa montra para artistas mostrarem o seu trabalho. Já aconteceu a alguns projectos encontrarem editora aqui no evento.
Este ano o que podemos contar nesta celebração de Música Independente?
Podemos contar com muita música, muitas editoras que cá vêm, e que se preparam ao longo do ano para isto — muitas vezes com surpresas, novos lançamentos e com exclusivos. Olhando para o cartaz, muito pouca gente reconhece estes nomes, mas direi que vale a pena vir conhecer, e alguns que podemos desconfiar que em breve estarão nas montras principais.
Podemos abordar esta iniciativa do “Bring Your Own Vinyl: Open Decks” que ocupará toda a tarde do dia intermédio? Tem algo de verdadeira democratização da música.
Democratização da música, sim. As pessoas vão levar a própria música para o evento — ou pelo menos são convidadas a isso (não obrigadas). O Miguel Neto (aka Discossauro), que é o responsável pelo “Bring Your Own Vinyl”, já faz isso em Faro há algum tempo e há muitas pessoas que levam os seus próprios discos e se inscrevem para isso. A tarde será dividida em sets de 20-30 minutos e mesmo para quem, em cima do momento, trouxer 2-3 discos haver quem os seleccione para serem tocados. É uma ponte que temos com Faro, uma parceria em canal aberto, e que nas duas edições anteriores trouxe algum público da capital para cá — o que é bastante importante para o evento Periférico, sendo uma região com problemas de transportes e mobilidade. Ainda nessa tarde vai ser gravado o podcast Antitudo que é apresentado pelo cobramor (escritor e poeta) que também tem uma editora independente de livros aqui no Algarve, com sede em Albufeira. No ano passado fomos convidados pelo Antitudo para apresentar o Periférico — numa conversa super interessante — e este ano estamos a retribuir. Eles vão estar à conversa com as editoras e músicos. Aqui fica o convite para assistirem à conversa, seguramente será bastante interessante.
No campo das editoras representadas sabe-se que muita dessa actividade acontece nos grandes centros urbanos. Também a vinda até Loulé é uma montra para editores e selos discográficos menos conhecidos, mesmo que nestes tempos do chamado local-global. Qual a força suplementar que o Periférico lhes tem proporcionado?
Temos proporcionado no espaço anual essa vinda das editoras, como já referi, com algo preparado e também com curiosidade para ver o que outras editoras andam a fazer, que artistas andam à procura de editoras. Nesses sentido, o Periférico é um ponto de encontro, para networking, para cruzar contactos, para que as próprias editoras falem umas com as outras (nem sempre têm oportunidades para isso), os produtores, alguns manager’s das bandas… Editoras independentes são fenómenos, muitas vezes [são] pequenos “milagres” que as pessoas conseguem fazer. Muito poucos são profissionais disto, têm outros trabalhos, muito poucos vivem só disto. Sobra-lhes pouco tempo mas conseguem ter editoras a funcionar, apoiarem artistas e eventos como o Periférico. Ter um espaço — mesmo que apenas uma vez por ano — para entre eles conversarem, saberem das dificuldades e das vitórias. Partilhando novas maneiras de se esforçarem, trabalharem e editarem. E por consequência para os músicos também, e todos os agentes que fazem parte deste mundo. Quando começámos com isto viemos a descobrir (ainda que seja um fenómeno concentrado nos grandes centros) editoras pelo país inteiro, em sítios que ficávamos surpreendidos. “Mas como é que uma editora consegue sobreviver numa terra no meio de Trás-os-Montes?” Com as maneiras que a tecnologia nos permite trabalhar hoje, a distância deixou de ser um grande obstáculo. As micro-editoras lucraram muito com isso. Quando começámos tínhamos um levantamento deste universo, para saber quem estava a operar, quantas editoras existiriam e que tipo de estrutura teriam. Sai muito caro para uma editora do Porto ou Trás-os-Montes vir até aqui, onde vão vender pouco ou nada. Nós precisávamos ter a noção se valeria a pena ter as editoras mais periféricas e se isso lhes traria algum benefício. Para nós, enquanto mercado, quantas mais editoras representadas melhor. Mas de que maneira é que essas editoras lucram com este evento? Isto não é feito só para nós — é feito para toda a gente (dentro deste meio). Temos vindo, desde a primeira edição, a descobrir que isto [Mercado Periférico] é muito provavelmente, durante o ano, a única oportunidade para algumas editoras (dentro deste contexto) mostrarem directamente o seu trabalho. Isso tem sido razão suficiente para a vinda ao Periférico — como um investimento. A nós cabe-nos dar cada vez mais condições. E daí a nossa busca incessante por novos locais, novos palcos. Porque é uma grande ajuda se a editora tiver um concerto importante para fazer, e nós podendo assumir os gastos de produção, é uma maneira da editora cortar nos custos e ser-lhe mais fácil vir. Temos tido muitas editoras a enviarem os seus projectos — temos pena de não ter palco para todas — mas estarão no mercado connosco. Vamos ser optimistas e acreditar que teremos [no futuro] mais espaços para divulgação.
Contudo há outras editoras a operar bem perto, como a Traça, e que este ano conta com a presença do seu editor cobramor, como referiste. É uma iniciativa que merece realce. Podes falar acerca disso?
Convidámos a Traça para estar presente — embora não seja uma editora de música. É uma porta que não temos fechada, esperamos até no futuro poder mesmo de todo abrir à edição literária. Há bastante edição independente literária, muita dela com alguma conexão ao mundo da música, muitas pessoas em comum. No caso do cobramor, como também é músico, é ainda mais flagrante. Pode ser que o Periférico venha a albergar algumas mais editoras literárias. Aqui em baixo [no Algarve] o universo das editoras é praticamente o mesmo. Se falarmos de livros e de música, os tempos não são muito favoráveis para as edições físicas. As pessoas levadas pela tecnologia estão mais abertas, e habituadas, ao digital. E como em toda a industria: quando não há muito dinheiro a ganhar perde-se muito do interesse. É por isso que a nós [Periférico] nos interessa isto. Como referi, no ano passado fomos convidados pelo cobramor a estar presentes e ele manifestou interesse em continuar a colaborar connosco. No futuro, não só com o cobramor, mas com outras pessoas que estejam a trabalhar para dar à periferia alguma…. centralidade. Haverá sempre espaço para essa convergência.
Três dias para celebrar a nova música, onde cabe muito do espirito punk DIY. A reafirmar isso será exibido o documentário de Paulo Antunes, Já Estou Farto!. O Periférico assume-se como um espaço de convergência de divergentes, num sentido cultural?
O Periférico é — ou pelo menos tenta ser — um espaço onde as pessoas podem exprimir aquilo que fazem, neste caso, na edição de música e na música em si. Nós abrimos, no ano passado, mais uma porta com a projecção de documentários e filmes, cujo conteúdo e o contexto tenham uma ligação directa com a música, senão não faria sentido. No ano passado o Paulo Antunes esteve com o documentário sobre o João Ribas — figura bastante proeminente do DIY e do punk. No fundo, é a base que sustenta este universo todo. Não falamos no punk enquanto música, mas enquanto atitude do “faz tu próprio, porque ninguém o vai fazer por ti”. As editoras independentes são feitas exactamente com esse espírito, a música também começa sempre com esse espírito… Não estamos à espera que alguém toque por nós, vamos pegar nos instrumentos e vamos fazer aquilo que achamos. Sim, o documentário deste ano tem que ver [também] com uma figura do DIY e do punk — o João Pedro Almendra [ex-vocalista dos Peste & Sida]. Este documentário segue um pouco a vida que ele escolheu, o impacto que ele teve na cultura e contra-cultura nos anos 80. Foi basicamente o início de tudo o que neste país tem que ver com a produção musical. Não que antes não houvesse, mas dentro destes termos que estamos a falar e sobretudo com liberdade. Esta é mais uma porta que temos [no Periférico] e que muito gostaríamos de explorar ou pelo menos continuar. Exibindo sempre algo que tenha a haver com a música, e num futuro próximo, abrir espaço para que se traga alguma produção própria: videoclipes, curtas-metragens, etc. Que possamos de alguma maneira ter uma secção de cinema e audiovisual para dar mais uma dimensão ao Periférico. Estamos sempre a pensar noutras maneiras e portas para abrir.