OSSO: “A música interventiva vai ser sempre uma marca da banda”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Os OSSO editaram o disco de estreia Oito Seres Sem Ordem no primeiro dia deste mês. O Rimas e Batidas esteve à conversa com a banda que foi formada depois de uma experiência positiva no gnration.

São oito e são de Braga. Os OSSO são a mais recente proposta musical no seio do hip hop a utilizar o formato de banda. Na génese do projecto está a gnration, que endereçou o convite a alguns músicos bracarenses, com o objectivo de criarem reportório original para apresentar ao vivo na última edição da Noite Branca, no dia 1 de Setembro. No palco, os OSSO estrearam-se em concerto na abertura para um espectáculo de Orelha Negra.

Ferna (Ângela Polícia), PontoCruz, MC Zero, Raporter, DJ Bandido, Leandro de Araújo, Rui Rodrigues e Tiago Tinoco são os Oito Seres Sem Ordem. Depois da concepção artística em estúdio e da primeira aventura em palco, os OSSO compilaram sete dos temas que criaram num disco de estreia. A rebeldia do punk junta-se à palavra de protesto que tem servido de combustível para o rap e, graças ao vasto leque de influências destes oito músicos, os OSSO assinam uma proposta que consegue bem agradar aos mais puristas do rock como àqueles que procuram a crueza que paira nos caminhos subterrâneos do hip hop.

 



O Ferna apresentou-me os OSSO como um grupo de Braga apoiado pela gnration. O que esteve na base para a vossa formação? Foi um projecto “encomendado”, de certa forma?

Sim, o mote foi dado pelo gnration. O desafio de criar um projecto com sonoridade hip hop foi aceite e, de uma forma muito natural, surgem os OSSO. A facilidade de entrosamento entre estes oito elementos foi incrível. Os diferentes backgrounds musicais fizeram com que as ideias surgissem como se de um grupo antigo se tratasse. A oportunidade estava à nossa frente e estes “oito seres sem ordem” entenderam-se muito bem.

Falem-me um pouco sobre os membros que militam na banda. Fora o Fernando, no seu projecto Ângela Polícia, já algum de vocês tinha alguma ligação ao hip hop?

Na verdade, a maioria dos elementos são ligados ao hip hop. Tens o beatmaker PontoCruz, já com trabalho editado e varias participações no panorama nacional. O MC Zero e o DJ Bandido são 2 pioneiros do movimento bracarense, com uma mixtape e dois álbuns editados. O Raporter não tem trabalhos editados mas já está há alguns anos no activo. Os restantes, apesar de não estarem ligados ao hip hop, absorveram o feeling e a musicalidade muito bem, conseguindo encontrar o equilíbrio necessário para a banda.

Vocês abriram para um concerto de Orelha Negra no ano passado. São uma banda de referência para vocês, que fazem hip hop “de raiz” com recurso a vários músicos e instrumentos?

Sim, sem dúvida que Orelha Negra são uma das bandas de referência, entre muitas outras, tanto ao nível da criação como também da própria sonoridade. Também tentamos explorar ao máximo as influências de cada elemento da banda e basta ouvir o disco para perceber isso. A sonoridade hip hop, reggae e rock são exemplos disso mesmo. Tudo isto torna o processo criativo mais desafiante! Em vez de cada um “puxar a brasa à sua sardinha” fazemos por conjugar tudo da melhor forma e dar espaço a todos. Não podemos dizer que temos uma fórmula para fazer música. Simplesmente fazemos!

 

Do palco para o estúdio, OSSO editou recentemente o seu LP de estreia. Foi algo decidido à partida, que além desse concerto em Braga iam assumir o compromisso de criar um disco?

De certa forma a resposta está contida na primeira pergunta. O desafio/proposta lançado pelo gnration incluía a gravação deste mesmo LP. No fundo, quisemos criar aqui as bases para passar de colectivo de artistas e autores a uma formação de “banda”.

Houve alguma preocupação em criar uma espécie de enredo dentro destes 7 temas?

Não sendo um trabalho temático, creio que podemos afirmar que há uma “temática”. Na sua maioria, as letras denotam uma reflexão, uma crítica social e falam um pouco do quotidiano de todos nós. Penso que podemos afirmar que OSSO não está aqui para fazer canções de embalar, a música interventiva vai ser sempre uma marca da banda.

Oito Seres Sem Ordem soa-me a um statement bastante forte, que combina com algumas das temáticas aqui abordadas, interventivas, com um certo sabor a punk. Qual é a mensagem que tentam passar com este disco?

Ora nem mais. Estávamos precisamente a focar esse aspecto da banda. Creio que, nesta formação, todos nós assumimos o nosso lado rebelde. Embora hajam diferentes gerações representadas na banda, há uma cultura que nos une e que se define no respeito pelo movimento old school, seja na esfera hip-hop, rock, funk, etc. Não creio que haja uma mensagem específica a veicular mas podem contar com crítica social, reflexão, grandes grooves e muita energia ao vivo.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira