OSHUN: “Quisemos apostar num projecto que fosse ao encontro do nosso lado mais espiritual”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Equator Productions

Niambi e Thandi são duas jovens afro-americanas que, em 2013, arrancaram com o projecto musical OSHUN, depois de se terem conhecido durante o ensino secundário e fortalecido os laços de irmandade durante o período em que ambas frequentaram a Universidade de Nova Iorque. Foi também no complexo académico que conheceram Proda, que viria a assumir o lado instrumental dos temas interpretados pela dupla, que é natural de Washington DC.

O trajecto das OSHUN teve os seus primeiros passos no SoundCloud, tendo pouco depois passado também para o YouTube, plataforma onde os seus videoclipes começaram a captar a atenção de um maior número de pessoas, dada a conjugação perfeita que existe entre o lado visual e musical de Niambi e Thandi. Depois de editarem o EP AFAHYE, em 2014, as duas MCs/cantoras arriscaram no primeiro longa-duração no ano seguinte através da mixtape ASASE YAA. Lançado para as principais plataformas de streaming durante o ano passado, Bittersweet, Vol. 1 serviu como álbum de estreia destas duas vozes singulares no panorama actual do hip hop norte-americano e foi o cartão de visita para trazer as OSHUN pela primeira vez a Portugal, no âmbito da Queima das Fitas de 2018, em Coimbra.

A dupla regressa ao nosso país para se apresentar no Musicbox, em Lisboa, no dia 16 de Julho e o Rimas e Batidas aproveitou uma pausa entre concertos para falar ao telefone com Niambi e Thandi sobre o trabalho que têm vindo a desenvolver.



Como estão?

Neste momento estamos bem. Estamos no aeroporto à espera do próximo voo e aproveitámos para comer algo e falar contigo.

Encontram-se a meio de uma digressão, portanto.

Sim, sim.

Como tem corrido?

Olha, está a correr muito bem. E estamos ansiosas para regressar a Portugal agora em Julho.

Não será a vossa primeira vez por cá.

É verdade. Da última vez estivemos num festival académico, com um espírito muito jovem e positivo.

Pois foi, em Coimbra. Aproveitaram para conhecer a cidade?

Sim, muito por alto. É uma cidade muito académica, com alguns monumentos relevantes.

E o que guardam na vossa memória desse concerto? Houve adesão ao vosso palco? Sentiram que já tinham público que lá estava de propósito para vos ouvir ao vivo?

Na verdade, a maioria das pessoas provavelmente não nos conhecia. Mas a plateia estava composta, as pessoas muito vibrantes, e achamos que a nossa sonoridade em nada destoava com o conceito pensado para o alinhamento do festival. O concerto correu muito bem e ficámos com vontade de regressar.

Que bom. E conseguiram captar alguma da nossa cultura musical? Tiveram contacto com alguma da nossa música que vos tenha agradado?

Não conseguimos recordar nada em específico mas sentimos que existe uma cultura musical bastante vasta, com espaço até para sonoridades mais viradas para África, que é uma linguagem que comunica directamente connosco.

Acho que ficaram com a impressão correcta então. Falando agora do vosso projecto, como nasceu OSHUN?

Nós conhecemos-nos em Washington DC, durante o ensino secundário, e estudámos ambas na Universidade de Nova Iorque, no mesmo curso. Percebemos que tínhamos ideais e gostos musicais semelhantes e uma grande vontade de arrancar com um projecto sério. Foi assim que tudo começou.

E porquê o nome OSHUN? É algo que nos remete sempre a algum misticismo.

OSHUN é um orixá, uma deusa que representa as mulheres, a fertilidade, a água e a beleza, que está ligada a crenças religiosas de povos caribenhos e africanos. Desde cedo quisemos apostar num projecto que fosse ao encontro do nosso lado mais espiritual e que tocasse as pessoas que nos ouvem. Acreditamos que a música tem esse poder e procuramos sempre trazer temas que focassem esse aspecto. Falamos de amor, de energias positivas, de questões políticas e até do nosso próprio empoderamento enquanto jovens mulheres afro-americanas. É por isso um tipo de mensagem bastante espiritual, que te remete a esse lado mais místico que a música consegue criar nas pessoas.

E vocês são apenas duas, certo? Alem da escrita, dividem também a produção dos vossos próprios temas?

Não. Esse trabalho é assumido pelo Proda. O projecto é das duas, mas ele faz parte da equipa e desempenha um papel muito importante nos bastidores de OSHUN. Além de produtor é também ele que faz de DJ nos nossos espectáculos.

Lançaram o Bittersweet, Vol. 1 no ano passado. Como tem sido a recepção desse disco?

O Bittersweet, Vol. 1 foca-se muito no amor e naquilo que de bom e mau advém dele. É por isso um álbum muito pessoal, mas sentimos que muita gente se conseguiu ligar à mensagem que escolhemos para abordar nesse conjunto de temas. Foi um trabalho que nasceu de um período bastante marcante nas nossas vidas.

Dado o título que escolheram, podemos assumir que sairá um segundo volume?

Sim, estamos a trabalhar nisso.

Será dentro dos mesmos moldes do primeiro volume?

Talvez não nos foquemos tanto nesse lado mais romântico, mas vamos sempre procurar não destoar com aquilo que foi apresentado no Bittersweet, Vol. 1.

Gostava de explorar um pouco tudo o que se passou entre vocês na faculdade, porque acredito que tenha tido um peso especial no arranque de OSHUN. Tendo vocês feito as malas para Nova Iorque, a cidade berço do hip hop, sentem que isso afectou de alguma forma a vossa abordagem à música?

Sem dúvida. Deu-nos a oportunidade de pesquisar mais a fundo as raízes desta cultura e de encontrar algumas figuras inspiradoras para aquilo que viríamos a desenvolver.

Quem, por exemplo?

Olha, se tivermos de destacar alguém, será sem dúvida a Princess Nokia. Além de gostarmos imenso do seu trajecto, foi uma das pessoas que abraçou e apoiou o nosso projecto, tendo também sido responsável por nos abrir algumas portas dentro da indústria.

Já abriram o jogo acerca do Bittersweet, Vol. 2 e até lançaram recentemente um novo tema, “Stuck”. Podemos assumir que esse disco sairá em breve?

Por acaso o “Stuck” não é um tema novo mas tem funcionado como tal para muitos dos nossos seguidores mais recentes. A faixa é de 2014 e está no nosso SoundCloud. Mas gostamos tanto dela que resolvemos inclui-la agora no nosso catálogo do Spotify. Quanto ao Bittersweet, Vol. 2, estamos a trabalhar nele, mas ainda é cedo para estar a avançar com datas.

Já começaram a testar algumas dessas criações mais recentes nos vossos espectáculos? Vamos poder ouvir alguns desses testes em Lisboa?

Sim. Há canções novas que têm feito parte do nosso alinhamento para os concertos e que vamos tocar algumas delas ao vosso lado.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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