Os Octave One e as máquinas estão numa relação duradoura

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Marie Staggat

Detroit tem servido de berço para um grande número do artistas que optam pela via da música electrónica de dança. Este é um daqueles casos geográficos em que a qualidade está proporcionalmente ligada à quantidade, muito por culpa de todo o backgroud cultural que a Motor City providenciou desde pelo menos a segunda metade do século passado.

Do movimento rockabilly à eterna alma impressa nos discos da Fortune Records e, claro, da Motown, ficará para todo o sempre ligado à génese da cidade aquele fio condutor funk e soul, que tantos e tão bons ritmos e excelentes melodias enviou a partir de Detroit para todo o planeta. Por exemplo, Juan Atkins, Jeff Mills ou Derrick May são pedras basilares na edificação da cultura techno da Motor City.

Também os Octave One são um desses estandartes, um grupo de cinco irmãos, muitas das vezes representados por Lenny e Lawrence Burden, os homens do leme neste projecto que coloca Detroit como casa de partida. A riqueza cultural absorvida nos bairros e na cidade serviu de guia invisível para toda uma paisagem techno única à escala planetária. Tendo a máquina como centro de todas as atenções, músicos, DJs e produtores trocaram as linhas de montagem nas fábricas de automóveis por peças de maquinaria musical — dos sintetizadores às drum machines ou aos samplers, todos esses conjuntos de circuitos electrónicos servem para moldar as sonoridades de um género/estilo de vida que veio mudar completamente as regras nas pistas de dança.

São já mais de duas décadas que a irmandade Burden leva a conduzir essa apaixonante colecção de hardware. Point-Blank, um dos seus EPs primordiais, chegou novamente ao formato de vinil numa reedição que comemora os seus 20 anos. O oitavo LP de originais, Love By Machine, foi lançado em 2016 e o título retrata esse eterno amor entre os produtores de house e techno e as máquinas.

Em Portugal, a dupla formada por Lenny e Lawrence já teve oportunidade de animar dois dos melhores clubs à escala nacional — marcaram presença no Lux e no Gare –, tendo também actuado em âmbito de festival na edição do ano passado no Neopop. Daqui a dois meses regressam ao nosso país para fazerem parte do lote de actuações curadas pelo Lisboa Dance Festival, festival que se realiza nos dias 9 e 10 de Março no Hub Criativo do Beato. O Rimas e Batidas esteve à conversa com o grupo para perceber como é retratar essa herança cultural de Detroit no universo das batidas.

 



Esta não será a vossa primeira vez em Portugal. Que memórias guardam das vossas passagens por cá?

Sim, esta não será a nossa primeira vez em Portugal — já tocámos aí numa série de eventos. Apreciamos imenso o amor e o apoio sempre que temos a sorte de tocar para uma cidade com uma pulsação e um ritmo tão inspiradores.

Vocês vêm de uma cidade bastante particular, cujo espectro sonoro é muito característico — falamos, claro, de Detroit. Como foi crescer na Motor City?

Crescer em Detroit foi bastante interessante. Era essencialmente uma cidade operária… Na altura todas as famílias trabalhavam directamente (ou em algo relacionado) com a indústria automóvel. A parte mais interessante é que todos os pais queriam que nós não seguíssemos os seus passos e entrássemos para as fábricas de automóveis para fazer disso vida. Eles trabalhavam durante várias horas para que nós pudéssemos fazer tudo menos ingressar nessa vida de operário. Muitos de nós seguimos a via do desporto, universidade ou algum tipo de expressão artística. Não para todos, mas a vida tornou-se bastante diversificada entre alguns de nós ao crescermos de formas tão diferentes.

Particularmente conhecida pelas tendências sónicas criadas na cena techno, qual consideram ter sido a maior influência que Detroit ofereceu à vossa geração?

Esta cidade teve tantas influências durante a nossa geração que são quase demasiadas para conseguirmos contar. Desde o facto de toda a gente ter na família alguém que fizesse parte de toda a experiência da Motown, ou que fosse pelo menos um músico talentoso à sua maneira, até à diversificação das rádios na nossa cidade. Tivemos estações de rádio que desenvolveram a totalidade das suas playlists direccionadas aos novos e criativos géneros musicais, como a WBLS, DJs que pavimentaram todo um caminho para os novos estilos como The Wizard, mas fazemos uma vénia ao mais influente e inspirador radialista The Electrifying Mojo. Ele patrocinou orgasmos auditivos nocturnos a uma audiência maioritariamente jovem, que nós não esqueceremos tão cedo e que nos abriu a mente para algo que era bem maior do que o nosso próprio bairro, ou a nossa cidade, e baptizou-nos perante um mundo que era funky e criativo, não apenas uma programação radiofónica ou até mesmo um género específico. Ele invadiu e desafiou a nossa imaginação para que pudéssemos explorar a nossa mente.

E enquanto músicos que também consomem e absorvem a arte de outros artistas, sentem que há algum músico ou género em particular que seja influência directa no vosso som?

Honestamente, não há nada em particular neste momento e nós gostamos de tudo o que é boa música, não importa o artista ou o género. Se calhar até ficarias chocado com alguma da música que guardamos nas nossas playlists.

 



Recentemente reeditaram o EP Point-Blank. Quão importante sentem que foi esse disco?

Tal e qual a relação entre um pai e um filho — eles são sempre especiais e importantes para ti. Este disco não foi excepção e todos os nosso lançamentos assim o são também, os de agora e os anteriores.

Love By Machine foi o último álbum que colocaram no mercado, uma obra que regou o melhor lado da electrónica com as sonoridades do funk. Quão importante é esse legado do funk nas produções de Octave One?

Ritmos funky, soulful e percussivos são e sempre serão a fundação para o que quer que criemos. São a base e a inspiração para todo o nosso processo criativo. São a nossa “fundação”, se assim o quiseres chamar.

Já abraçaram alguma das novas tendências digitais nas nossas sessões de estúdio ou ainda criam as vossas malhas em torno de toda a maquinaria que o techno primitivo nos deu a conhecer?

É impossível não nos ligarmos a uma ou outra nova tendência, até porque alguns dos novos hardwares já exploram esse lado mais digital. Mas a grande parte do nosso trabalho será sempre desenvolvido em máquinas. Existe algo nas máquinas que puxa por nós… A sério, são as máquinas!

Para a vossa próxima passagem por Lisboa, daqui a cerca de dois meses, o que podemos esperar quando vos virmos no palco? Há algum tema em vista que nos vai certamente colocar a dançar?

Em dois meses, duas semanas ou até mesmo dois minutos muita coisa pode mudar e não vale a pena especular muito. Mas vamos ter algumas surpresas para vocês! Em relação a faixas, não sabemos dizer ao certo. Mas tragam a vossa toalha, porque não há nada melhor do que ver malta gira a suar!

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira