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Os Grammys têm um problema com o hip hop?

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A não atribuição do Grammy para Melhor Disco do Ano a To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar ainda é um tema de calorosa discussão nas redes sociais. Os argumentos misturam-se entre o racismo institucional da organização (um pouco à semelhança da polémica em torno dos white Oscars), que demonstrou uma visão curta quanto à dimensão artística, cultural e social do projecto de K-Dot, e as críticas pela colagem à fórmula de premiação dos artistas mais populares. Se a primeira justificação é de difícil comprovação, já a segunda poderá encontrar um apoio de peso para o debate nas estatísticas de edições anteriores dos Grammys. Segundo os números divulgados ontem pela Washington Post, os Grammys parecem ter um real problema em “compreender o hip hop”. Desde que o género surgiu em 1989 entre as categorias a galardoar, só um grupo/artista hip hop arrebatou o gramofone dourado para Melhor Disco do Ano. Foram os OutKast, em 2004, com Speakerboxxx/Love Below.

O diário norte-americano vai mais longe na sustentação de que o hip hop permanece um elo fraco entre os júris dos Grammys, isto depois de um ano em que o hip hop dominou as tabelas de streaming entre os géneros mais escutados. Num total de 421 nomeações para os galardões de Melhor Gravação do Ano (Record of The Year), Melhor Disco do Ano e Melhor Tema do Ano desde 1989, apenas 34 dizem respeito a artistas hip hop (8,1% do total).

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Nas 27 cerimónias dos Grammys que se realizaram entre 1989 e 2015, o género pop foi amplamente premiado, reunindo 132 nomeações (31,4% entre todas as nomeações) para um total de 24 vitórias (29,6%). Já o R&B, género que mais se aproxima do hip hop entre as categorias disponíveis, contabiliza 65 nomeações (15,4%) e 14 vitórias (17,5%). O que significa que nem juntando os números das nomeações e das vitórias do R&B e hip hop (23,5% e 18,5%, respectivamente) se consegue destronar o pop do topo da cadeia de atribuições do prémio (29,7% e 27,2%, respectivamente).

Já nas categorias Melhor Tema do Ano e Melhor Gravação do Ano, o hip hop permanece, mais uma vez, à distância. “Alright”, também de Kendrick Lamar, ainda foi a jogo na primeira, mas acabou por ficar pelo caminho em detrimento de “Thinking Out Loud” de Ed Sheeran.

 

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O Washington Post remata a estatística com o facto de a Academia dos Óscares, fortemente criticada pela recorrente falta de diversidade entre os nomeados, ter atribuído três estatuetas a temas hip hop nos últimos 15 anos, um valor que se distancia das parcas vitórias nos Grammys de artistas hip hop.

Mais do que uma produção para cumprir contrato ou para se escutar na rádio e escalar degraus nas tabelas de venda, To Pimp a Butterfly é um objecto cultural que regista uma era no Estados Unidos marcada pelas tensões raciais, institucionais e políticas que ferem de morte os cidadãos. Ao ignorar a dimensão histórica do mais ambicioso e abrangente dos projectos de K-Dot, a National Academy of Recording Arts and Sciences revelou ainda não ter encontrado o devido espaço para a linguagem e a mensagem das ruas no seu hall of fame e perpetuou, mais uma vez, o sentimento de indiferença face aos artistas negros – os mesmos que têm sustentado a indústria do entretenimento norte-americana na última década.

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