Os 5 melhores vídeos internacionais de 2019

[ILUSTRAÇÃO] Riça

Na era da pós-verdade, a realidade é um acessório. Se existe uma obrigação com a veracidade dos factos em áreas como a política, por exemplo, o mesmo não acontece com as artes, em que, idealmente, os criadores têm total liberdade para mexer com todo o tipo de conceitos e preconceitos, sejam eles reais ou fantasiosos, bons ou maus, duros ou leves.

E é aqui entram os cinco realizadores da colheita deste ano, todos a mãos como uma visão que até pode ter um fundo de verdade, mas que se agarra a essa permissão para inventar. Desde uma engenhosa manipulação da dor com epicentro numa rotina de dança do varão à reformulação do próprio passado com um ângulo novo (e mais positivo), há cinco vídeos nesta lista que pintam um quadro de sofrimento, negritude e invenção.


[FKA TWIGS] “Cellophane” (1º lugar) / Realização: Andrew Thomas Huang

No início, o teledisco era mímica: a canção a tocar de fundo, enquanto os lábios se sincronizavam com as palavras; a música como parasita da imagem. Também “Cellophane” sugere uma performance, quando FKA twigs penetra pelas cortinas, caminhando receosa sobre saltos de plataforma, antes de se despir.

Quando os gritos do público agridem com a sua fome, FKA devolve com cada movimento de pernas a fúria de duas lâminas, e descobre a esperança na abóbada que se abre. As acrobacias tornam-se tácticas para uma elevação incógnita: escala ao cume do céu, mas cai, ao encontrar num dragão metálico o seu sósia. Onde tudo era dourado e febril, agora há o vermelho terapêutico do barro, e ouvimo-la ofegante, a recuperar de uma canção onde a batida se confunde com o seu próprio fôlego.

Quatro minutos fazem o trânsito entre a dor sacra e a cura terrena, ao compasso milimétrico do tema, e configuram a melhor forma do teledisco: quando a cópula da música com a imagem é mutualismo.

– Pedro João Santos


[FLYING LOTUS] “Black Balloons Reprise” (2º lugar) / Realização: Jack Begert

A intensidade e dramatismo que Flying Lotus e Denzel Curry trouxeram para este tema necessitava de um videoclipe com a mesma intensidade e dramatismo — e Jack Begert foi o realizador escolhido para essa função.

Conhecido pelos seus trabalhos com a turma da TDE, Begert saiu um pouco da sua zona de conforto para fazer algo muito mais pesado e taciturno. Todos os frames contam e é um desafio tentar encontrar significado para tudo, mas ainda assim é interessante perceber a sua atenção ao detalhe.

A intensidade é palpável e, mesmo com um grande uso de câmara lenta, nunca sentimos que estamos a abrandar. Estamos sempre mais perto de ver o interior de um balão negro, uma experiência que não será certamente agradável; mas o propósito é exactamente esse.

– Luis Almeida


[TYLER, THE CREATOR] “A BOY IS A GUN*” (3º lugar) / Realização: Wolf Haley

“A BOY IS A GUN*” contém a narrativa de uma relação aparentemente unilateral: temos um magnata com uma vida luxuosa que tanto diz, “stay the fuck away from me”, como pede “don’t leave, stay right here, yeah, I want you right near”. Este pedido paradoxal é exponenciado visualmente, enquanto o seu parceiro faz as malas e desaparece para o banco de trás de um táxi.

No passado, noutros vídeos de Wolf Haley, os cenários e planos interagiam muito menos uns com os outros, com grandes contrastes entre si. Provavelmente pela maior clareza e densidade dos temas abordados, os vídeos tornaram-se mais objectivos e coesos.

Nunca desistindo do trabalho de cor e dos planos incrivelmente detalhados – com uma estética realista mas algo onírica, com um piscar de olho a Wes Anderson –, Tyler, The Creator (com o seu colaborador Luis Perez) reinventa-se na realização, sem comprometer o seu formato ambicioso e a sua perspectiva criativa, naquela que é a narrativa mais aliciante dos vídeos de IGOR.

– Vasco Completo


[A$AP FERG] “Floor Seats” (4º lugar) / Realização: Valentin Petit

Ritmo e energia são as grandes características do videoclipe da primeira faixa do alinhamento de Floor Seats, o mais recente projecto de A$AP Ferg. Em pouco mais de dois minutos, o realizador francês Valentin Petit conseguiu retratar de forma fiel as ruas de Nova Iorque como o membro da A$AP Mob as vê. No fundo, é um clipe urbano com o movimento que uma cidade como Nova Iorque exige: frenético, cativante nas cores, figurinos e design sonoro, acrescentando as texturas necessárias para nos sentirmos parte destes cenários.

– Luis Almeida


[DANNY BROWN] “Best Life” (5º lugar) / Realização: Augustin Vita

Existem três instrumentais do lendário Q-Tip em uknowhatimsayin¿, o quinto álbum de Danny Brown. Um deles é a base para “Best Life”, canção que puxa um lado mais soulful no rapper de Detroit. Num registo que pede nostalgia e reflexão na escrita, Brown dá o que tem: uma letra sobre uma vida marcada por complicações de várias naturezas, mas com uma visão positiva (“‘Cause ain’t no next life, so now I’m tryna live my best life”).

Nesse sentido, o videoclipe serve para dar um novo contexto ao seu passado. Por um lado, a composição, evidenciada pelos planos do carro e pela colocação das flores, assume um papel importante para criar a ideia que se pode sempre florescer a partir das piores condições; pelo outro, a lente fish eye garante-nos uma sensação de proximidade com a narrativa, enquanto os movimentos rotativos da câmara relembram-nos que o tempo não pára, independentemente daquilo que estamos a passar. Têm aqui uma canção e vídeo que valem por mil livros de auto-ajuda. 

– Alexandre Ribeiro 

ReB Team

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