Orquestras, hip hop e encontros felizes

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Vera Marmelo

Amanhã, no Coliseu de Lisboa, e a 8 de Novembro, no Coliseu Porto Ageas, Sam The Kid vai regressar aos concertos em nome próprio com um ambicioso plano de acção: uma orquestra, os restantes membros dos Orelha Negra, David Cruz, AMAURA e convidados ainda por revelar vão subir a um dos palcos mais emblemáticos da música portuguesa para assinarem um espectáculo que tem tudo para ficar na história.

Se a idade do rap em Portugal ainda torna este tipo de eventos num acontecimento, o mesmo não se pode dizer do país onde nasceu esta cultura. De NAS a Kanye West e de Jay-Z a Kendrick Lamar, os versos e os instrumentais já ganharam outra amplitude em concertos que obrigaram os desconfiados a ceder perante a força dos factos e a reconhecer a qualidade dos seus autores mesmo em contexto orquestral.

Daqui para a frente, uma pequena lista: cinco casos em que o cruzamento de linguagens, aparentemente tão distantes, fez faísca.


[Late Orchestration

Gravado nos míticos estúdios de Abbey Road, em Londres, o projecto que sucedeu a Late Registration demonstrou, mais uma vez, a habilidade de Kanye West para ver para além do óbvio. Temas como “Jesus Walks”, “Heard ‘Em Say” ou “Touch The Sky” ganharam uma nova dimensão (ainda mais grandiosa) no novo enquadramento proporcionado pela orquestra. 

A 17 de Julho de 2006, Mr. West trouxe o espectáculo até Oeiras e, segundo a Blitz, actuou acompanhado de “uma secção de cordas ’emprestada’ pela Orquestra Metropolitana de Lisboa”. 


[Orelha Negra no MEO Sudoeste]

“Foi um ano a preparar isto tudo. Um mês de ensaios. Dois dias no festival. 75 minutos de concerto. Orelha Negra com a orquestra WESO, o maestro Henrique Piloto e cantores convidados — Da Chick, Orlando Santos, Valete, Adamastor, Bonus, Carlão, David Cruz, Regula e Sam The Kid. Sudoeste do Verão de 2013″. Esta é a descrição de Vera Marmelo no seu blogue, um resumo do caminho de João Gomes, Fred Pinto Ferreira, DJ Cruzfader, Francisco Rebelo e Samuel Mira até ao palco principal do festival na Zambujeira do Mar.

Seis anos depois, o autor de Pratica(mente) vai ser o centro das atenções, pronto para comemorar o 20º aniversário do lançamento do seu álbum de estreia. Se tudo correr conforme esperado, a versão com orquestra de “O Crime do Padre Amaro” será apenas um dos pontos altos do alinhamento. 


[Trap Symphony

A série criada pela Audiomack colocou nomes como Chief Keef, Migos, Rich The Kid ou A Boogie wit da Hoodie a rimar com orquestras no background. Alguns dos rappers conseguiram encaixar-se melhor do que outros neste novo cenário e Trippie Redd, um dos mais recentes na lista, não defraudou as expectativas: nunca mais vão querer voltar ao original de “Dark Knight Dummo” depois de ouvirem esta versão…


[Jay-Z no Carnegie Hall] 

Sinais de maturidade (e de dinheiro, muito dinheiro): rappers de fato, caridade e convites a antigos inimigos. Tudo isto aconteceu no concerto de Jigga no prestigiado Carnegie Hall, em Nova Iorque, há sete anos. Alicia Keys e NAS foram os dois únicos convidados do autor de 4:44, que passou por todos os clássicos e acrescentou mais um ponto à sua brilhante carreira. 


[Kendrick Lamar no Kennedy Center] 

No ano em que lançou um dos melhores álbuns desta década, To Pimp a Butterfly, Kendrick Lamar actuou com a sua banda e uma orquestra de 96 membros no Kennedy Center, em Washington D.C. Numa altura da sua carreira em que parecia maior do que a vida, o rapper de Compton levitou na capital americana, como se pode conferir em alguns dos vídeos disponibilizados no YouTube.