Este sábado, dia 21 de Março às 21h30, a Orquestra Jazz de Leiria sobe ao palco do Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, para uma noite especial dedicada à apresentação Bridges, o segundo álbum de estúdio da formação, lançado no passado dia 13 de Março.
Quatro anos após a estreia com Dez, a big band liderada por César Cardoso volta a apostar numa teia de cumplicidades artísticas para dar corpo a um novo registo discográfico. O alinhamento da noite reunirá em palco os músicos da Orquestra, mas também alguns dos convidados que fizem parte de Bridges, como Paulo de Carvalho, Tatanka, Samuel Úria e Kiko Pereira. O álbum inclui dois temas originais, um assinado pelo próprio César Cardoso e outro por Pedro Nobre, além de um par de músicas captadas ao vivo no mesmo teatro que agora acolhe o concerto.
Fundada em fevereiro de 2011 com o propósito de congregar músicos da região numa formação de referência no universo jazzístico, a OJL tem construído, ao longo de mais de uma década, um repertório que circula entre os grandes clássicos da tradição americana — de Count Basie a Ella Fitzgerald — e a escrita contemporânea de compositores como Mário Laginha, Bob Mintzer ou Bernardo Sassetti. Bridges surge como mais um capítulo dessa história em expansão e foi tema central numa troca de impressões entre o Rimas e Batidas e César Cardoso, que podem ler já de seguida.
Bridges apresenta-se como um disco de encontros entre universos, linguagens e gerações. Este conceito foi escolhido logo à partida?
Este conceito está presente na Orquestra Jazz de Leiria desde a sua origem. A colaboração com diferentes universos e linguagens criando as tais “pontes” entre músicos e diferente estilos.
A presença de convidados tão distintos — de Paulo de Carvalho a Kurt Elling ou Maria Schneider — levanta um desafio de direção musical. Como se constrói uma unidade estética numa big band quando o ponto de partida são vozes tão diferentes?
É uma boa pergunta, sem dúvida. O desafio de ter diferentes artistas e linguagens, leva-nos a ter de fazer arranjos adaptados ao contexto em si. Naturalmente que as músicas de Paulo de Carvalho ou Samuel Úria têm uma identidade muito própria e que não é o jazz, mas a minha função, seja enquanto diretor artístico ou arranjador, é fazer esse compromisso de aproximação, fazer com que músicas que não são do universo jazz possam soar ao universo das big bands e do jazz, e penso que esse compromisso tem sido conseguido ao longo destes 15 anos de existência. A unidade estética passa muito pelo tipo de arranjos que são feitos, que vão tendo uma linha condutora comum.
Em termos de escrita, até que ponto parte da identidade dos músicos da Orquestra (e dos convidados) para construir os arranjos? Há espaço para escrita “sob medida” ou a prioridade é uma visão global do ensemble?
A identidade dos músicos da Orquestra é importante para o resultado final, mesmo depois da criação dos arranjos. Há muito espaço para a improvisação e para o cunho pessoal, muito associado ao jazz. Quando são feitos os arranjos temos sempre a visão final do ensemble, para poder tirar partido de todas as possibilidades. Por vezes encontramos artistas que querem a música o mais fiel ao original, o que nos limita um pouco, mas ainda assim é possível ser criativo e criar uma identidade própria.
Como pensa a orquestração: mais a partir da tradição ou tendo em conta os “recursos humanos” disponíveis?
Para mim, o processo de criação de um arranjo é fantástico. A quantidade de possibilidade que existem são infinitas e isso dá-nos muita liberdade para usar os recursos que entendemos. Obviamente que tem de haver um entendimento de como tudo se faz, mas há sempre muitas possibilidades para cada situação. A criação de arranjos com grande regularidade para um grupo que se mantém quase sempre o mesmo faz com que se pense nos músicos que existem e se escreva a pensar nisso. Não no sentido limitativo, mas sim no sentido de tirar o melhor de cada músico e desafiá-lo de acordo com as suas capacidades. Duke Ellington nos anos 40 já o fazia, as próprias partes dos instrumentos muitas vezes tinham o nome do músico, era escrito especificamente para este ou aquele músico.
Há uma coexistência clara entre arranjos mais estruturados e espaços de liberdade improvisada. Como trabalha esse equilíbrio na escrita e na condução da orquestra em tempo real? É preciso, imagino, conhecer muito bem os músicos que tem por diante…
Vai de encontro ao que referi anteriormente. Quando num arranjo procuro ter um improviso, penso nos músicos que tenho e procuro qual o melhor improvisador para aquele tema específico, de modo a tirar o melhor também do músico. É um compromisso importante para o resultado final.
Neste repertório, há revisitações de canções muito marcadas no imaginário colectivo, lado a lado com composições originais. Que critérios orientaram as escolhas e os respetivos tratamentos orquestrais?
À semelhança do disco Dez de 2021, queria que estivessem presentes tanto músicas originais como standards do jazz e temas dos artistas convidados. Haveriam muitas outras possibilidade de escolha, mas no que diz respeito ao artistas convidados foi um compromisso entre ambas as partes.
O disco inclui dois momentos captados ao vivo, que contrastam com o trabalho de estúdio. O que é que essa dimensão performativa acrescenta à identidade da Orquestra Jazz de Leiria?
Para nós é muito gratificante ter neste disco dois temas gravados ao vivo. É um pouco a demonstração daquilo que podemos fazer ao vivo, da exigência que é e da nossa qualidade.
Pensando já no concerto de apresentação: o palco será um espaço de recriação fiel do disco ou de expansão, no sentido de abrir mais espaço ao risco, ao improviso e à interação com os convidados?
Iremos interpretar os temas que os convidados gravaram, mas também iremos tocar outros temas que não foram gravados, mas que já tínhamos tocado aquando da realização dos concertos com os mesmos. Vai haver muito espaço para improvisação e momentos únicos de junção dos convidados. Os concertos da Orquestra Jazz de Leiria no Teatro José Lúcio da Silva têm tido sempre muita aceitação, com casa sempre esgotada, criando uma energia única. E acredito que dia 21 de março não será diferente.