Orelha Negra e Carlão no Caparica Primavera Surf Fest: elogio da maturidade

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos reservados (Caparica Primavera Surf Fest)

O Caparica Primavera Surf Fest chegou ao fim na madrugada de dia 27 de Março, 10 dias depois do arranque, perante uma plateia de lotação esgotada rendida sob uma abóboda protectora dos elementos, ali mesmo, na Praia do Paraíso. Em palco estiveram Orelha Negra e Carlão, dois nomes que são sinónimos de veterania na cena hip hop nacional, dois nomes que possuem bastos pontos de contacto ao longo das suas carreiras, mas dois nomes que também, em última análise, souberam apresentar duas propostas muito diferenciadas a um público que na sua esmagadora maioria seria demasiado jovem para poder recordar os seus primeiros passos.


 

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A Carlão coube a responsabilidade de fechar a noite no que às apresentações ao vivo dizia respeito, antes de Djeff Afrozila ter prolongado a festa madrugada dentro com a sua irresistível receita de afro-house musculado, perfeitamente adequado a um espaço daquelas dimensões. Aliás, pleno sentido na escolha de DJ para fechar a noite, depois de uma actuação de Carlão que carrega, em boa parte do material que vai apresentando ao vivo, um claro subtexto de modernidade africana nas suas produções.


 


Na manga, além dos hits de 40, Carlão trazia o novo material de Na Batalha, ep digital que apresentou na passada semana. Na manga, também, a segurança que só a veterania proporciona e que é posta a render quase que desnecessariamente: o ex-Da Weasel jogava em casa, na sua Margem Sul, perante uma plateia que lhe conhece os novos hits de cor.

Por esta altura, uma evidência: Carlão conseguiu o impossível – pode não ter feito esquecer os Da Weasel (e seria perfeitamente compreensível que pontuasse a sua setlist com um par de clássicos da doninha, coisa que estrategicamente preferiu sempre não fazer), mas conseguiu impor uma nova identidade (já ninguém pensa em Pacman) e provar que há vida para lá da bagagem histórica que muitos pensariam ser impossível sacudir.

A verdade é que o novo público, aquele que é formado online e que sabe de cor mesmo os temas que não batem na rádio, é demasiado novo para recordar uma banda cujo último álbum saiu já quase há 10 anos. Carlão sabe disso e investe no aqui e agora: banda sem bateria (baixo, máquinas, dj e voz de apoio), beats de definição clara, balanço e “hooks” a que ninguém resiste: quando aquele “ai ai, bebé” se fez ouvir, a casa veio, literalmente, abaixo. Carlão descobriu um segundo e válido fôlego na sua carreira e isso não é coisa de somenos para quem já carrega 40 e ainda sabe como comunicar com quem ainda nem sequer completou 20.


 

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Antes de Carlão subir ao palco, coube aos Orelha Negra afastar o frio invernil que teima em resistir ao avanço da Primavera. E impõem-se aqui algumas ideias importantes. Para começar, o facto do colectivo de Cruzfader, Fred Ferreira, Chico Rebelo, João Gomes e Samuel Mira ter chegado até aqui sem facilitar: não há comunicações ocas entre as peças e muito material é inédito e refere-se a um disco de que se desconhece ainda data de saída (há um single para apresentar dentro de semanas). A força da música é o trunfo verdadeiro do grupo que assim dispensa as “muletas” normais para tantos artistas que procuram sobreviver na primeira divisão, aquela que dá acesso aos principais palcos dos principais festivais. Nada de “como é pessoal?”, nada de “adoramos estar aqui”, nada de palavras de circunstância que facilitam a vida, mas pouco importam artisticamente. Nos Orelha, a música fala sozinha. Sem aditivos ou conservantes. Basta-lhe o nervo natural.


 

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Outra ideia que resulta clara de um concerto deste Quinteto Fantástico: não há muitos grupos assim no planeta! A destreza técnica de Samuel Mira no sampler, de Cruzfader e Fred Ferreira nos gira-discos e bateria, respectivamente, e ainda de Francisco Rebelo no baixo e João Gomes nos teclados é assombrosa.

Não será nenhum desprimor para os restantes companheiros destacar a classe mundial do baixista dos míticos Cool Hipnoise ou a elegância extrema dos arremedos melódicos de João Gomes, homem que, além de tudo o resto, é responsável por acompanhar a fadista Ana Moura nas estradas do globo. O que Fred Ferreira também faz na bateria não é muito fácil e requer precisão matemática, músculo e uma compreensão funda do que é a sintaxe rítmica do hip hop. E depois há a mestria no sampler de um homem que se habituou a extrair sentido próprio de matéria alheia há muito tempo e a segurança absoluta de um DJ que corta vinis há décadas e que sabe com quantos “wiki wiki” se faz um scratch a sério. Juntos, estes cinco artistas fazem algo maior. Pense-se nos The Roots, pense-se em BadBadNotGood, pense-se nas seguras bandas que acompanham em palco gente como Chance The Rapper ou Kendrick Lamar e a verdade é que Orelha estão perfeitamente na mesma dimensão técnica, no mesmo campeonato de proficiência instrumental.


 


 

Material inédito, que antecipa o terceiro álbum de originais dos Orelha Negra, “clássicos” como “Throwback”, “Miriam” ou “A Cura” e os medleys que estes homens usam como uma espécie de moldura conceptual que ancora o que fazem na cultura hip hop – com deliciosas passagens por “standards” modernos como “Bitch Don’t Kill My Vibe” ou “Hotline Bling” – fizeram o alinhamento de uma dúzia de paragens que marcaram mais uma fantástica viagem. “Paragens” é como quem diz, claro, que não há pausas no percurso apresentado pelos Orelha Negra. Aquilo é um incrível DJ set feito a 10 mãos (e mais uns quantos pés já que há pratos, pedais de efeitos e de “sustain” para acionar) que não nos dá descanso. E o público, como é óbvio, agradece e aplaude, rendido.

Não há de facto muitos grupos assim no planeta. O que nos faz pensar: Orelha Negra e Kendrick Lamar vão-se cruzar no mesmo cartz dentro de alguns meses: e se…?


 

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Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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