Na semana que precede o concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa — marcado para sábado, 14 de Março —, o Rimas e Batidas convidou Holly Hood para ser o editor honorário com uma série de peças especiais. A primeira é um ensaio escrito pelo próprio sobre o seu mais recente disco, Opressionismo — na verdade, o terceiro e último capítulo da trilogia de O Dread Que Matou Golias, iniciada em 2016. Este é um trabalho de confronto e tensão, lutas internas exploradas através da punchline, num estado de espírito que o próprio ajuda a desconstruir e desmistificar neste ensaio. Ainda há bilhetes para assistir ao espectáculo no Coliseu dos Recreios.
Em Opressionismo, fui directo ao sítio onde a maioria das pessoas não gosta de ficar muito tempo: o desconforto. Para mim, a arte nunca foi só abrigo — é confronto. Eu não crio quando está tudo bem. Crio quando há tensão, quando há ruído interior, quando a vida me obriga a escolher entre ficar igual ou crescer à força. Há uma linha muito clara aqui que bebi de Nietzsche: a ideia de que a adversidade não é só castigo — pode ser treino, pode ser motor, pode ser transformação.
Este álbum nasceu dessa noção: a opressão — emocional, social, existencial — não como um muro, mas como matéria-prima. A dor, quando a reconheço e a trabalho, vira linguagem. Vira ritmo. Vira visão. Há faixas onde falo de me fechar por dentro, de aprender a não “chorar por ninguém”, não por falta de coração, mas por excesso de cicatriz. Há faixas onde eu volto à postura de sobrevivência: o mundo como um sítio onde dar as costas pode custar caro, onde a atenção é instinto e a confiança é luxo. E também há o outro lado: o desejo, o jogo, a sedução, a forma como as relações mexem com poder e controlo — aquela intimidade que aquece, mas também pode prender.
No meio disso tudo, estou sempre a tentar segurar uma coisa: a minha identidade. Não uma identidade para mostrar — uma identidade para aguentar. Há momentos em que a raiva aparece como combustível, não como espetáculo: ódio no corpo como sinal de saturação, de cansaço com a conversa vazia, de foco numa disciplina interna que me mantém de pé. E há também a sensação de excesso e de pressão constante: a zona, o peso do dia-a-dia, a ansiedade, a insónia, a abundância que tanto pode ser conquista como pode ser veneno. É um álbum com humor ácido, mas com verdade séria: eu observo as máscaras, a fome de estatuto, o oportunismo, e ao mesmo tempo olho para mim, para o ego, para os vícios, para os buracos que a cabeça abre quando a vida fica sombria.
Isto, para mim, é o encerramento da trilogia. É fechar um ciclo. É olhar para trás e perceber que tudo o que eu escrevi nos capítulos anteriores — as guerras com o mundo, as guerras comigo — estava a empurrar-me para este ponto. Opressionismo é o momento em que aceito que a arte pode ser paradoxal: ela oprime para libertar. Porque criar, para mim, é resistência — é destruir e reconstruir até sobrar uma forma nova de respirar. A verdadeira liberdade não é não doer. A verdadeira liberdade é eu conseguir dar forma ao que doeu — e transformar isso em obra.