Onyx: a energia e crueza dos anos 90

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Como tantos outros grupos, os Onyx tiveram um papel importante e pioneiro num período específico da história do hip hop. Hoje até podem viver mais dos êxitos do passado, mas não deixa de ser importante celebrarmos essa história. O grupo de Queens, Nova Iorque, actua em Lisboa na próxima sexta-feira, 12 de Outubro, no Estúdio Time Out. Os bilhetes estão à venda na Ticketline e na mesma noite actuam os portugueses Phoenix RDC, DJ Dadda e DJ Stikup.

Tudo começou no ano de 1988 — os Onyx estão a celebrar 30 anos de carreira. Fredo Starr, o líder do grupo, Suavé (mais tarde conhecido como Sonny Seeza) e Big DS foram os membros fundadores do colectivo. A maior influência de Fredo, o rapper que cresceu a ouvir, era LL Cool J. Eram adolescentes, colegas de escola em Queens, Nova Iorque, e queriam escrever as primeiras rimas e fazer as primeiras faixas em conjunto. Foi Big DS quem se lembrou do nome Onyx — significa literalmente ónix, uma pedra preciosa negra que representa a raça negra dos membros do grupo. Afinal, o hip hop sempre foi uma ferramenta para o empowerment, a ascensão social e a afirmação de minorias desfavorecidas.

As primeiras demos do grupo foram gravadas na cave do produtor B-Wiz, que tinha um sampler SP-12. “O B-Wiz foi o meu produtor quando eu tinha 15, 16, 17 anos”, diz Fredo Starr no livro Check the Technique: Liner Notes for Hip Hop Junkies, de Brian Coleman. “Quando todos os outros miúdos estavam a ter gira-discos, ele tinha um SP-12. Foi um dos primeiros no bairro com uma máquina para fazer beats.”

Passado um ano conseguiam um manager, Jeffrey Harris, que os ajudaria a assinarem um contrato com a independente Profile Records. Gravaram o primeiro single à séria em 1990, num estúdio em Brooklyn: chamava-se “Ah, And We Do It Like This”, mas não teve o impacto esperado.

 



O seu caminho para a glória passaria por Jam Master Jay, o DJ dos Run DMC, que os Onyx conheceram por acaso no trânsito, perto da praia. “O carro ao lado era do Jay. Ele estava numa carrinha preta conduzida pelo irmão mais velho, o Marvin”, disse Starr numa entrevista com Steve Lobel. “Tinha visto fumo a sair da carrinha e cheirava a erva. Olhei e era o Jay a fumar. ‘Ei, Jay! Podemos fumar essa contigo?’ E ele: ‘Venham para a carrinha!’ E fomos e fumámos com o Jam Master Jay. Antes de sair, disse-lhe que era um rapper e ele deu-me o número dele.”

O telefonema foi feito: o problema é que tinham apenas dois meses para gravar um single de apresentação para entrarem na sua label, a JMJ Records, associada à histórica Def Jam Recordings, e Suavé e Big DS estavam presos por roubo. Foi então que Fredo Starr convidou o seu primo, três anos mais novo, a partilhar uma faixa com ele em nome dos Onyx. O seu nome viria a ser Sticky Fingaz – na altura ainda tinha uma “carreira” a solo como Trop – e nunca mais abandonou o grupo. O tema que saiu dessa colaboração de última hora foi “Stik ‘N’ Muve”. Jam Master Jay gostou o suficiente para os assinar pela sua editora – a mesma que depois iria pegar em 50 Cent.

Não passou muito tempo até que B-Wiz decidisse abandonar a carreira na música — Fredo Starr não o conseguiu convencer a continuar a ser o produtor do grupo. Vendeu a sua SP-12, tornou-se um traficante de crack e mudou-se para Baltimore, onde acabaria por ser assassinado pouco tempo depois. Foi nessa altura que se perderam todas as demos dos Onyx até à data.

A morte de B-Wiz acabou por ser o turning point para se criarem os Onyx que ficaram mais conhecidos. Em sua homenagem, todos eles raparam o cabelo — que não estava propriamente na moda na altura — e desenharam o logo icónico que representa a cara de Sticky Fingaz. Já o novo produtor tinha-lhes sido apresentado há pouco tempo: Chyskillz juntou-se à equipa em 1991.

“Conhecemos o Chyskillz um dia na Jamaica Avenue. Estávamos a comprar erva no sítio do costume e o Chy estava atrás do meu carro na rua, a gritar que tinha beats. As coisas dele na altura eram jazzy, tipo A Tribe Called Quest, mas eram boas. Sabia que ele conseguia fazer bons beats. Trouxemo-lo para a nossa área e fizemos com que ele tivesse uma sonoridade suja e grimy”, conta Fredo Starr no mesmo livro de Brian Coleman.

Chyskillz foi fulcral para esta sonoridade do grupo, que definiria o som de Nova Iorque no resto dos anos 90. Enquanto o gangsta rap triunfava há vários anos na Costa Oeste dos EUA, nomeadamente em Los Angeles, em Nova Iorque tinha existido a vaga jazzy e lírico-positiva dos A Tribe Called Quest e De La Soul. Os magnatas da lírica Rakim e Big Daddy Kane, além dos revolucionários Public Enemy, tinham aberto caminho para sons mais obscuros na cena nova-iorquina — o verdadeiro boom bap, de KRS-One, Das EFX, Fu-Schnickens ou Lords of the Underground, entre tantos outros, já apontava por aí, mas foram os Onyx, Wu-Tang Clan ou os Mobb Depp que tornaram a coisa realmente dark.

 



O primeiro álbum dos Onyx saiu finalmente em 1993. Bacdafucup foi um disco de sucesso tanto para a crítica como para o público — tinha singles como “Throw Ya Gunz”, “Shiftee” e “Slam”, todos eles êxitos que chegaram bem ao cimo da tabela da Billboard. Por falar em “Slam”, os Onyx tornaram-se conhecidos por fazerem actuações enérgicas — como se pode ver pelo próprio videoclipe de “Slam” —, onde os saltos, o mosh e o stage dive eram regulares, além de que os rappers atiravam água para o público.

“Destruímos muitas coisas no palco durante os nossos concertos: microfones, colunas, tudo. Os engenheiros de sons cobriam as colunas com plástico porque sabiam que molhávamos tudo. Todos os espectáculos eram um pandemónio e muitas bandas não queriam actuar depois de nós, queixavam-se, e eu também não quereria ir depois de nós!”, pode ler-se no mesmo livro, Check the Technique: Liner Notes for Hip-Hop Junkies.

Estas performances foram pioneiras no hip hop. Hoje é normal estarmos em Portugal e existir mosh em actuações de certas sonoridades de rap, também por causa da intensidade do trap e do grime, mas na altura era feito raro. Foi o que também os ligou ao universo do hardcore punk — os Biohazard fizeram uma versão mais pesada de “Slam” e colaboraram com o grupo de rap para o tema “Judgment Night”, da banda sonora do filme com o mesmo título.

Toda esta banda sonora tinha grupos de rock a colaborarem com rappers, mas a fusão dos Onyx e dos Biohazard ficou para a história. Tanto o movimento hip hop como o hardcore punk eram contraculturas, muito ligadas à vida nas ruas, à rebeldia da juventude e dos desfavorecidos, e tinham um bairrismo autêntico — apesar de tradicionalmente as raças em cada uma destas subculturas serem diferentes.

 



Big DS, que era, na verdade, o membro mais invisível dos Onyx, abandonou o grupo em 1994 — queria enveredar por uma carreira a solo. Um ano depois, chegou o segundo álbum do colectivo. All We Got Iz Us não teve o impacto de Bacdafucup, mas foi um sucesso junto da crítica. Afinal, incluía faixas como “Last Dayz”, o single homónimo, “Walk in New York” e “Live Niguz”. Agallah substituiu Chyskillz enquanto produtor e o álbum ficou ainda mais “grimy“.

O grupo tornou-se padrinho de outros rappers ao fundar a sua própria editora, a Armee Records. Assinaram contratos com artistas como os Gang Green, All City, Panama P.I. e Choclatt e começaram a colaborar com eles frequentemente.

Alguns deles aparecem no terceiro disco dos Onyx, Shut ‘em Down, de 1998 — o último editado pela JMJ Records na Def Jam, por causa da venda da PolyGram em 1999, que detinha metade da Def Jam. Wu-Tang Clan, DMX e um desconhecido 50 Cent foram outros dos que participaram neste disco. “The Worst”, “Shut ‘em Down” e “React” foram os singles deste trabalho — o último dos anos 90 e da carreira de glória do grupo.

 



Seguiram-se um par de discos menos inspirados e mais criticados pelos fãs: Bacdafucup II (ainda falta fazer na história a sequela de um disco melhor do que o original) e Triggernometry, de 2002 e 2003, respectivamente. Neste último contavam histórias sobre o seu percurso entre faixas. Foram nesses mesmos anos que aconteceram duas mortes relevantes no percurso dos Onyx. Jam Master Jay foi assassinado a tiro num estúdio em Queens — num caso que ainda está para encontrar culpado — e Big DS morreu de cancro aos 31 anos.

Houve um grande período de fraca actividade nos Onyx durante os anos 2000. Do início do milénio até 2014, não houve grande coisa a acontecer para os rappers, que continuaram a viver do sucesso de outrora. Lançaram compilações com vídeos, lados B inéditos e anunciaram um disco falhado — CUZO teve vários singles entre 2010 e 2013 mas nunca chegou a sair. Quem saiu mesmo foi Sonny Seeza dos Onyx, em 2008, em busca de uma carreira a solo e amargurado com os companheiros. Note-se ainda que Fredo Starr (que ao longo dos anos também se dedicou à sua carreira enquanto actor) tem três discos a solo no currículo e Sticky Fingaz um par deles, que foram sendo editados, mas sem grande impacto junto do público.

Os Onyx continuaram até hoje, portanto, como uma dupla de dois primos. O verdadeiro regresso aconteceu em 2014, com WakeDaFucUp, apesar de as primeiras sementes para esse disco terem sido plantadas três anos antes. Nos bastidores de um clube de Munique, na Alemanha, Fredo Starr encontrou-se com DJ Illegal, da dupla alemã de produtores Snowgoons (sendo que o outro se chama Det).

Os Snowgoons estavam a preparar o álbum Snowgoons Dinasty e DJ Illegal convidou Fredo Starr para participar na faixa “The Legacy”, que conta com uma série de outros convidados especiais. Fredo aceitou de imediato o convite e, depois de ouvir o beat, pediu mais. “Vamos fazer um álbum”, disse mais tarde à dupla. E assim nasceu WakeDaFuCup, o primeiro trabalho dos Onyx em mais de uma década e o primeiro apenas enquanto dupla. O disco tem featurings de nomes como Papoose, Snak the Ripper, A$AP Ferg, Cormega, Dope D.O.D. e Sean Price, entre outros. Foi um sucesso junto da crítica especializada e conquistou o público underground do hip hop. É muito provavelmente o maior sucesso dos Onyx nos últimos anos, que, apesar disso, têm sido bem mais prolíficos e frutíferos.

 



Não passou um ano até Fredo Starr e Sticky Fingaz voltarem a pôr um projecto nas ruas. O título escolhido foi Against All Authorities e o objectivo deste EP de seis faixas era falar da violência policial e discriminação racial nos EUA — o lançamento coincidiu com os protestos BlackLiveMatters e com vários homicídios de jovens negros por parte de agentes da polícia. O canadiano Scopic produziu esta meia-dúzia de temas que também tiveram algum sucesso junto do meio especializado.

No mesmo ano surgiu a ideia de se fazer um disco colaborativo de Onyx com os também clássicos M.O.P., produzido na íntegra pelos Snowgoons. Foram estes últimos que lançaram uma campanha de crowdfunding para que o público ajudasse a pagar a gravação do álbum. O objectivo era angariar 30 mil dólares, mas a campanha foi cancelada quando só tinham sido doados cerca de 10 mil, por falta de adesão. Nunca chegou a sair nem se falou mais nisso.

O álbum conjunto que aconteceu realmente foi com os holandeses Dope D.O.D., que eles tinham conhecido nos bastidores de um festival em França em 2012. Nesse mesmo ano colaboraram pela primeira vez e assinaram a faixa “Panic Room” para o segundo disco do grupo holandês, Da Roach, editado em 2013. Os Onyx retribuíram o convite e os Dope D.O.D. rimaram em “WakeDaFucUp”, faixa que deu título ao tal álbum de 2014. Três anos depois foi a vez de Shotguz in Hell, disco conjunto que começou por ser um EP e acabou por se tornar um trabalho de longa-duração.

O último registo na discografia dos Onyx é de Fevereiro deste ano. Black Rock é o título do mais recente álbum dos primos Fredo Starr e Sticky Fingaz. Foi em 2004 que pela primeira vez surgiu a ideia de fazerem um disco com este nome — em tudo relacionado com o nome do grupo, Onyx — mas a coisa acabou por ser adiada, apesar dos rappers terem voltado a ele algumas vezes ao longo dos anos. Era suposto ser editado finalmente no final de 2009 — e até houve uma tour de Verão de Black Rock nesse ano — mas o projecto de Damon Dash com os The Black Keys, com o nome idêntico Blakroc, atrasou tudo. Saiu finalmente este ano e foi inteiramente produzido pelo beatmaker prodígio esloveno Emiljo Albert Cassagrande, que tem apenas 20 anos. E assinala mais uma colaboração dos Onyx com músicos europeus, que se tem tornado cada vez mais frequente.

Os Onyx marcaram um período específico do hip hop americano — que tanta influência teve na mesma cultura de outros países. Em Portugal temos um excelente exemplo disso: eram referências enormes para Sam The Kid. Por isso é que o primeiro grupo do rapper e produtor de Chelas, ainda na escola secundária, se chamava Official Nasty (ou Afficial Nastee), um aka oficial dos Onyx, como tantas vezes ouvimos nos seus temas. Foi uma homenagem de um adolescente aos seus ídolos e vamos todos poder vê-los ao vivo esta sexta-feira. Os anos 90 já lá vão mas é sempre importante celebrar os vários momentos na história desta cultura que é global mas nasceu em Nova Iorque. Mesmo reduzidos a dois, já há bastantes anos, Fredo Starr e Sticky Fingaz prometem estar em boa forma e irão contagiar com energia o público presente. As rimas e as batidas que vamos poder ouvir? Essas já todos sabemos quais são.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha