Olha os robots!

Os Kraftwerk de Ralf Hütter passaram ontem por Lisboa e apresentar-se-ão hoje no Porto. O fantástico concerto que assinaram e sobre o qual já escrevi no Blitz levanta várias questões interessantes: sobre os próprios Kraftwerk, sobre o seu passado, presente e futuro, mas também sobre a própria política de programação de concertos em Portugal. Permito-me começar por aqui.

Não vi nenhuma campanha de posters gigantes nas ruas, nem grande pressão mediática como a que precede alguns concertos, até de menor escala, e ainda assim o Coliseu dos Recreios esgotou. Aconteceu a esse nível idêntico “fenómeno” com o espectáculo de Prince no mesmo espaço o que prova que há margem para manobrar para outras áreas musicais quando chega a hora de programar grandes concertos. Haja vontade…

Sobre o que os Kraftwerk nos ofereceram ontem e repetirão hoje: Hütter, que é o elemento que resta da formação original, transformou o grupo de Trans Europe Express numa espécie de ensemble de reportório. Faz algum sentido: o legado dos Kraftwerk estará para a electrónica contemporânea como Beethoven ou Mozart estão para a música erudita. A música que produziram, sobretudo nas décadas de 1970 e 80, é hoje vista como uma espécie de música clássica da electrónica e pode ser executada se a partitura certa estiver disponível. E Hütter funciona portanto como uma espécie de maestro, um Von Karajan dos sintetizadores. E desse ângulo, penso, pouco importa que Florian Schneider faça ou não parte do quarteto. Aquilo são mesmo robots assalariados ao serviço de uma visão.

Claro que isso levanta questões em relação ao futuro dos Krafwerk no que a novos discos diz respeito, mas com esses (eventuais) problemas lidar-se-á quando ou se lá se chegar. Este concerto diz-nos algo mais sobre os Kraftwerk, quando se presta atenção à dimensão visual que apresentam. Ralf Hütter é, uma vez mais, o maestro. Neste caso dos pixels. Aquela arte deliciosamente deslocada das possibilidades que também a esse nível a tecnologia hoje oferece (já tivemos um Tupac Shakur em holograma pelo amor de… Steve Jobs… ou whatever) é um sinal de resistência. Se calhar a música dos Kraftwerk foi sempre menos acerca da irresistível atracção do futuro de que nos falava Alvin Toffler do que da tentativa de traduzir o que na década de 1970 era certamente um excitante e promissor presente: o homem tinha ido à Lua, o poder dos computadores começava a ficar evidente, a indústria assegurava progresso, as vias de comunicação faziam-nos a todos cidadãos do mesmo planeta. Essa utopia tem uma tradução naif na arte visual dos Kraftwerk, o que é uma deliciosa embora anacrónica maravilha num mundo de alta definição e comunicação ultra-rápida. O presente deixou claro que aquela Europa harmoniosa com que os Kraftwerk sonharam não existe. Mas lá se vai fixando em ecrãs retina aquilo que eles fazem em palco.

Aquele concerto foi, portanto, a viagem possível a um passado que prometia um outro tipo de futuro. Musical e visualmente é incrível, pois claro. A antítese do moderno concerto rock, sem qualquer dimensão física, sem qualquer vislumbre de sexualidade, sem um único momento de indulgência histriónica. É aliás irónico que o momento de maior expansividade gestual seja aquele que corresponde à saída de palco dos homens-autómatos. Robots quando entram, homens quando saem. Estes podem ser os homens-máquina, os gelados heróis teutónicos da idade electrónica, mas o que fazem não tem apenas um profundo sentido de humor, tem igualmente uma estranha e apelativa dimensão poética. E finalmente compreendo o que Ralf Hütter quis dizer quando há mais de 20 anos me assegurou que aquilo que os Kraftwerk faziam era música folk.

Em baixo, um vídeo da performance do grupo em Düsseldorf em 2013.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu
Photo By: ©Reuters